‘The Boys’: por que a morte de Popclaw ainda define A-Train

Revisitamos a cena de A-Train Popclaw em ‘The Boys’ a partir do relato de Jessie T. Usher sobre a filmagem mais difícil da série. O resultado é uma releitura da morte de Popclaw como o momento que define toda a trajetória de A-Train.

A-Train Popclaw não é só uma subtrama trágica da primeira temporada de ‘The Boys’. É o ponto em que a série explica, com crueldade rara, quem Reggie Franklin realmente é — e o que a Vought faz com qualquer um que confunda sobrevivência com lealdade. Quando revisitamos a morte de Popclaw à luz do relato de Jessie T. Usher sobre a dificuldade técnica e emocional da cena, ela deixa de ser apenas um assassinato chocante e passa a funcionar como a chave de leitura de todo o arco de A-Train.

Usher contou à ScreenRant que esse foi o momento mais difícil que filmou em toda a série. Não por causa de efeitos espalhafatosos ou de alguma sequência de corrida, mas porque a cena exigia precisão extrema e permanência emocional prolongada. Segundo o ator, a gravação precisou ser dividida em cerca de ‘100 beats’, equilibrando efeitos visuais, marcações e a necessidade de sustentar a devastação do personagem. Esse detalhe de bastidor importa porque ilumina o centro da cena: A-Train só consegue fazer o que faz transformando o afeto em procedimento.

O relato de Jessie T. Usher muda a forma de ver a morte de Popclaw

O relato de Jessie T. Usher muda a forma de ver a morte de Popclaw

Há algo revelador no modo como Usher descreve a filmagem. A dificuldade não estava em ‘parecer triste’, mas em fragmentar a emoção sem perdê-la. Em cena, isso aparece no corpo de A-Train: ele não age como um vilão triunfante nem como alguém tomado por fúria. Age como quem executa uma ordem tentando sobreviver ao próprio gesto. Essa contenção é o que torna a sequência pior.

É também uma das atuações mais precisas de Usher em ‘The Boys’. Em vez de sublinhar culpa com choro fácil ou explosão melodramática, ele trabalha no esvaziamento. O rosto endurece, a pressa parece mecânica, e a voz perde calor. A direção entende que o horror não está no excesso, mas na normalização. A cena é fria porque A-Train precisa torná-la fria para conseguir atravessá-la.

O quarto no México é onde A-Train deixa de ser só cúmplice

Até aquele ponto, A-Train já era responsável por horrores evidentes — começando pela morte de Robin no piloto, atropelada em alta velocidade enquanto ele corria sob efeito de Compound V. Mas o caso Popclaw tem outra natureza. Robin é consequência de negligência, vício e arrogância. Popclaw é execução. Há decisão, método e consciência.

Esse é o instante em que ‘The Boys’ retira de A-Train qualquer álibi confortável. Ele não é apenas um produto da Vought sendo arrastado pela engrenagem; ele escolhe funcionar como peça dela no momento mais íntimo e irreversível possível. Matar a própria companheira para preservar lugar, imagem e utilidade dentro do sistema é o gesto que define o personagem melhor do que qualquer discurso posterior sobre culpa ou redenção.

Por que a morte de Popclaw é tão brutal mesmo sem espetáculo

Por que a morte de Popclaw é tão brutal mesmo sem espetáculo

A sequência evita a grandiosidade típica de histórias de super-herói. Não há batalha coreografada, destruição em massa ou música empurrando a emoção. O cenário fechado ajuda a transformar o quarto em armadilha moral. A mise-en-scene é seca, sem glamour, e a montagem não procura alívio. Tudo parece banal demais para um momento tão monstruoso — e é justamente isso que fere.

Há ainda uma ironia perversa no método. A-Train não usa a velocidade como gesto heroico nem como demonstração de força sobre-humana. Ele a usa para buscar seringas e encenar uma overdose com a vulnerabilidade de Popclaw. A arma do crime nasce da intimidade entre os dois: o vício, o segredo, a fragilidade compartilhada. A série entende que humilhação e violência ficam mais fortes quando vêm embaladas como solução administrativa.

Do ponto de vista técnico, a cena também é mais calculada do que parece. O som é contido, sem explosões que distraiam da ação. A montagem privilegia a progressão do ato em vez de esconder sua feiura. E a interpretação de Brittany Allen como Popclaw impede que ela vire mero dispositivo narrativo: há pânico, confusão e uma sensação de traição que torna o momento menos ‘funcional’ e mais devastador. Não é só a queda de A-Train; é a aniquilação de alguém que entendia exatamente quem ele era fora do marketing da Vought.

A simetria com Robin mostra a lógica mais cruel de ‘The Boys’

Reler A-Train Popclaw hoje deixa mais clara a arquitetura moral da primeira temporada. No piloto, Hughie perde Robin porque A-Train, dopado e blindado pela fama, destrói uma vida comum em segundos. Pouco depois, o próprio A-Train perde Popclaw porque Homelander decide que ela se tornou descartável. O que parecia privilégio vira sentença.

A simetria não serve para absolver A-Train, mas para mostrar como a série transforma o carrasco em futura vítima sem limpar suas mãos. Esse é um dos movimentos mais fortes de ‘The Boys’: ninguém é inocentado pelo sofrimento posterior. Ao contrário, o sofrimento revela a engrenagem que o personagem ajudou a sustentar. A-Train sente na pele a lógica que antes aplicava aos outros com indiferença.

É aí que o artigo encontra seu ponto central: a morte de Popclaw não apenas traumatiza A-Train; ela explica por que todas as tentativas posteriores de recuperação carregam culpa insolúvel. Cada gesto de consciência nas temporadas seguintes nasce contaminado por esse momento. Ele pode mudar, hesitar, desafiar ordens e até procurar alguma forma de reparação, mas a série nunca deixa esquecer o preço de sua permanência no topo.

Homelander não mata só pessoas; ele transforma afeto em prova de submissão

O assassinato de Popclaw também é uma das melhores demonstrações do tipo de poder que Homelander exerce. Seu domínio não se resume à ameaça física. Ele quer reconfigurar a moral dos outros, obrigando subordinados a destruir o que têm de mais humano para provar pertencimento. Não basta obedecer; é preciso sacrificar algo íntimo.

Nesse sentido, a cena antecipa toda a trajetória final de A-Train. Depois de matar Popclaw, ele já não é apenas um astro inseguro tentando manter relevância. Torna-se alguém que entregou o último espaço privado ao sistema. O amor, que poderia funcionar como refúgio, vira instrumento de chantagem. A partir dali, qualquer gesto de rebeldia contra Homelander carrega atraso: a conta moral já foi aberta, e o débito é impagável.

Dentro da filmografia recente de televisão anti-heróica, poucos arcos trabalham tão bem essa ideia de corrosão interna. Se muitas séries apostam em redenções súbitas, ‘The Boys’ insiste que certas escolhas não desaparecem porque o personagem passou a enxergar o problema. Isso dá peso real ao percurso de A-Train. Quando ele começa a demonstrar remorso mais consistente, o espectador já sabe de onde esse remorso vem — e por que ele nunca será limpo.

Por isso a conclusão de A-Train parece inevitável, não acidental

Se o fim de A-Train soa lógico, é porque a série o escreveu naquele quarto muito antes de qualquer acerto de contas final. Ao matar Popclaw para continuar vivo dentro da hierarquia de Homelander, ele aceita uma regra simples: o sistema devora até quem o serve bem. Mais cedo ou mais tarde, a violência exigida retorna ao executor.

É por isso que a cena ainda define o personagem anos depois. Ela concentra dependência química, culto corporativo, medo, amor deformado e oportunismo num único gesto. Mais que um choque da primeira temporada, é a tese de A-Train em forma dramática. Reassistida hoje, especialmente com o comentário de Jessie T. Usher em mente, a sequência ganha peso novo: não vemos só um homem cometendo um crime; vemos o instante em que ele aprende que, para permanecer na máquina, precisará se desmontar por dentro.

Para quem acompanha ‘The Boys’ de perto, essa releitura vale muito. E para quem nunca comprou totalmente a tentativa de humanizar A-Train nas temporadas seguintes, ela ajuda a entender por que o personagem funciona justamente por não oferecer reconciliação fácil. A-Train Popclaw continua sendo uma das dinâmicas mais tristes da série porque nela convivem amor real, covardia real e a lógica empresarial do horror. Não é apenas o passado de A-Train. É a cena que melhor explica tudo o que ele se tornou.

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Perguntas Frequentes sobre A-Train e Popclaw em ‘The Boys’

Em que episódio Popclaw morre em ‘The Boys’?

Popclaw morre na 1ª temporada, episódio 6, intitulado ‘The Innocents’. É nesse capítulo que A-Train vai ao encontro dela e encena a overdose que encerra o arco da personagem.

Por que A-Train mata Popclaw?

A-Train mata Popclaw por ordem indireta de Homelander, depois que ela vaza informações sobre o Compound V. O gesto funciona como prova de submissão à lógica da Vought e mostra até onde ele vai para tentar se manter protegido.

Quem interpreta Popclaw em ‘The Boys’?

Popclaw é interpretada por Brittany Allen. A atriz aparece principalmente na primeira temporada e ajuda a dar à personagem uma mistura de vulnerabilidade, dependência e afeto que torna sua morte ainda mais dura.

Jessie T. Usher disse que a cena de Popclaw foi a mais difícil?

Sim. Jessie T. Usher afirmou em entrevista à ScreenRant que a morte de Popclaw foi a cena mais desafiadora de toda a série para ele, por exigir fragmentação técnica da performance e permanência emocional durante uma gravação longa e complexa.

Preciso rever a 1ª temporada para entender melhor o arco de A-Train?

Não é obrigatório, mas ajuda muito. A primeira temporada estabelece os dois eventos que moldam A-Train: a morte de Robin e, sobretudo, o assassinato de Popclaw, que explica a culpa e a ambiguidade moral do personagem dali em diante.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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