A comparação entre ‘The Expanse’ e ‘Game of Thrones’ vai além do marketing: Ty Franck, co-criador da série, foi assistente de GRRM. Analisamos como essa conexão moldou a estrutura de thriller político da obra e por que a gravidade substitui a geografia na luta de classes espacial.
Toda vez que uma série de orçamento grandioso e elenco extenso estreia, o marketing tenta emplacar o rótulo de ‘o novo Game of Thrones’. Na maioria das vezes, é apenas joguinho de palavras para atrair cliques. Mas quando os fãs e a crítica começaram a chamar The Expanse de ‘o Game of Thrones da ficção científica’, a comparação tinha um peso que ia muito além da quantidade de cenários ou de personagens. Ela era, para o bem e para o mal, estrutural.
O paralelo não é exagero retórico, e o próprio George R.R. Martin tratou de validar essa ideia de forma inequívoca. Quando a SyFy cancelou a série em 2018, o autor usou seu blog ‘Not A Blog’ para rasgar elogios. Chamou-a de ‘a melhor série espacial da televisão, de longe’, completando que nenhuma outra chegava perto. Considerando que falamos do homem que construiu Westeros, a recomendação carrega uma autoridade que marketing nenhum compra. Mas o elogio de Martin não era apenas de um fã entusiasmado: era o reconhecimento de um mestre vendo seu próprio método aplicado em outro universo.
O aprendizado de Ty Franck: como o assistente de GRRM forjou um novo trono
A conexão entre as duas obras não é temática; é literal. Antes de se tornar o co-criador de The Expanse sob o pseudônimo James S. A. Corey (ao lado de Daniel Abraham), Ty Franck trabalhava como assistente pessoal de George R.R. Martin. Isso não é um detalhe curioso de trivia — é a chave para entender a engenharia da série.
Franck não apenas organizava a agenda do autor de ‘A Song of Ice and Fire’; ele respirava a mesma atmosfera narrativa de Westeros. Aprende-se muito observando como um construtor de mundos lida com o adiamento de recompensas (o famoso ‘gardening’ de Martin, onde a trama cresce organicamente em vez de seguir um esqueleto rígido). Quando Franck e Abraham sentaram para escrever o sistema solar do século XXIII, eles aplicaram a mesma lógica de facções em conflito, recursos escassos e moralidade fluida que define a luta pelo Trono de Ferro. O DNA de Westeros está na forma como a política de The Expanse se ramifica, não na existência de naves espaciais.
A conspiração inicial: de Porto Real aos cinturões de asteroides
Preste atenção ao gatilho disparador da primeira temporada de ambas as séries, e o espelhamento fica óbvio. Em ‘Game of Thrones’, a trama inicial não é a ameaça sobrenatural do Norte, mas a investigação de Ned Stark sobre a morte de Jon Arryn e a verdadeira parentesco de Joffrey. É um thriller político disfarçado de fantasia.
Em The Expanse, a dinâmica é idêntica. A ameaça alienígena da Protomolécula é o motor de fundo, mas o que move a engrenagem na primeira temporada é a investigação do detetive Josephus Miller sobre o desaparecimento de Juliette Andromeda Mao, cruzando com a busca do capitão James Holden pelos culpados pelo ataque à sua nave, a Canterbury. Enquanto isso, a política da Terra, representada pela implacável Chrisjen Avasarala, tenta manter o status quo enquanto o Sistema Solar desliza para a guerra. A estrutura narrativa é a de um mistério de assassinato que, ao ser puxado, revela uma teia de conspirações que colapsa a paz global.
A física como política: por que a gravidade é o novo divisor de águas
O que eleva The Expanse além de uma cópia espacial é como ela traduz a luta de classes para a física. Em Westeros, a geografia dita o poder: o Norte é pobre e isolado, o Sul é rico e fértil. Na série de ficção científica, a gravidade é o novo divisor de águas.
Os ‘Belters’ (habitantes do Cinturão de Asteroides) crescem em baixa gravidade. Seus corpos se deformam, ficando esguios e frágeis. Eles não podem sobreviver na superfície da Terra ou de Marte sem sofrer esmagamento ósseo. Quando assistimos a uma cena específica onde um belter é submetido à gravidade terrestre em uma câmara de interrogatório — o corpo literalmente se partindo sob o peso de uma atmosfera que não foi feita para ele —, a série cristaliza sua metáfora central com uma brutalidade visual que dispensa diálogos. A opressão aqui é física, estrutural e científica. A Terra consome os recursos do Cinturão, Marte se militariza para garantir sua independência, e o Cinturão sangra. A guerra não é por um trono de espadas, mas por ar, água e o direito de existir sem que sua anatomia seja considerada um defeito.
Por que a comparação com ‘Game of Thrones’ é justa, mas insuficiente
É verdade que The Expanse compartilha a ambiguidade moral e a complexidade de tramas de sua contraparte fantástica. Mas reduzir a série a isso é ignorar o que a torna uma obra singular no atual cenário de space operas. Desde o elogio de Martin em 2018, vimos séries como ‘For All Mankind’, a recente ‘Duna: A Profecia’ e a excelente adaptação de ‘Fundação’ tentarem ocupar esse espaço. Cada uma tem seus méritos, mas nenhuma abraça o caos sistêmico com a mesma ferocidade.
A diferença crucial está na abordagem do gênero. Onde ‘Game of Thrones’ usava o choque e o conteúdo adulto explícito para desconstruir a fantasia, The Expanse usa a ciência dura (hard sci-fi) para desconstruir a utopia espacial. Não há impérios gloriosos entre as estrelas aqui; há apenas burocracia corporativa, sindicatos operários e a falácia de que a humanidade se uniria contra o desconhecido. Quando o alienígena finalmente aparece, a primeira reação humana não é união — é tentar transformá-lo em arma para ganhar vantagem sobre os vizinhos.
No fim das contas, chamar The Expanse de ‘o Game of Thrones do espaço’ é um elogio que diz mais sobre o padrão de excelência narrativa que a HBO estabeleceu do que sobre a obra em si. Ela herdou a complexidade política e a coragem de matar personagens do modelo criado por Martin, mas forjou sua própria identidade na frieza do vácuo e na luta de quem nunca teve gravidade para chamar de sua. Se você aguenta o ritmo de um mistério que se recusa a dar respostas fáceis e aprecia ficção científica que exige paciência, esta é a sua série. Se procura apenas naves velozes e tiroteios sem consequência, o Sistema Solar de Holden e Avasarala vai parecer um lugar muito frio e muito político.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Expanse’
Onde assistir ‘The Expanse’?
‘The Expanse’ está disponível na Amazon Prime Video. As três primeiras temporadas foram exibidas originalmente pelo canal SyFy, mas a série foi salva e continuada exclusivamente pela Prime a partir da 4ª temporada.
Quantas temporadas tem ‘The Expanse’?
A série possui 6 temporadas, encerrando sua história principal de forma conclusiva em janeiro de 2022, embora os livros originais continuem a narrativa além desse ponto.
Quem é James S. A. Corey?
James S. A. Corey é o pseudônimo utilizado pela dupla de escritores Ty Franck e Daniel Abraham, criadores do universo de ‘The Expanse’. Franck, inclusive, foi assistente pessoal de George R.R. Martin.
‘The Expanse’ é ficção científica hard (ciência dura)?
Sim. A série se esforça para respeitar as leis da física, especialmente em relação à gravidade, inércia e vacuo do espaço. As manobras das naves e os efeitos fisiológicos nos humanos são tratados com rigor científico, com poucas exceções para elementos fictícios como a Protomolécula.
Preciso ter visto ‘Game of Thrones’ para gostar de ‘The Expanse’?
Não. Embora compartilhem a complexidade política e a estrutura narrativa de múltiplas facções, são gêneros completamente diferentes. ‘The Expanse’ foca em ficção científica rigorosa e mistério, funcionando perfeitamente de forma independente.

