‘O Diabo Veste Prada 2’: reações destacam foco inesperado no jornalismo

As primeiras reações a ‘O Diabo Veste Prada 2’ revelam que a crise do jornalismo rouba a cena da moda. Analisamos por que a guinada temática surpreende, mas não apaga as dúvidas sobre a necessidade real dessa sequência.

Quando a sequência foi anunciada, a expectativa era óbvia: mais salto alto, mais veneno em forma de elegância, mais Miranda Priestly destilando arrogância nas bandejas de café de Paris. Mas as primeiras reações a ‘O Diabo Veste Prada 2’ trouxeram uma guinada que ninguém esperava. O grande vilão da vez não é a tirania de uma editora de moda, mas sim a falência do jornalismo. É como comprar um ingresso para um desfile de alta-costura e acabar assistindo a um documentário urgente sobre a crise do impresso nos anos 2020. E, surpreendentemente, essa parece ser a maior virtude do filme.

Como a sequência trocou a passarela pela redação

Se há algo que os estúdios conservadores amam em uma sequência é duplicar a fórmula original. Mais moda, mais gatilhos nostálgicos, mais frases de efeito. O roteiro de Aline Brosh McKenna até entrega parte disso — os cameos de Donatella Versace e Lady Gaga, e o retorno do famoso suéter cerúleo confirmam o contrato com o fã. No entanto, o que está dominando o discurso crítico desde a estreia em Nova York no último dia 20 é a mudança de foco temática.

A crítica Tomris Laffly, da Variety, resumiu o choque ao dizer que não esperava que partes do filme parecessem um documentário sobre o ‘estado doloroso do jornalismo’. E não é um comentário jogado. Matt Neglia, do Next Best Picture, foi mais longe: para ele, o comentário sobre a ‘deterioração da mídia moderna e as pessoas desesperadamente tentando mantê-la viva’ é o que justifica o retorno aos personagens. A frase do crítico Rendy Jones sintetiza o acerto: um blockbuster de verão dizendo ‘apoiem suas publicações e os jornalistas, os verdadeiros árbitros do gosto’ em alto e bom tom. Faz sentido. A Runway do filme de 2006 já era uma instituição de gatekeeping; em 2026, com o algoritmo destruindo a crítica e a reportagem profunda, o salto lógico para Miranda não era ditar tendências, mas lutar pela sobrevivência das publicações que as documentam. Ver um filme mainstream colocar a imprensa no centro do conflito é um gesto que vai muito além do figurino.

A necessidade (ou falta dela) de voltar à Runway

Mas se o tema jornalístico rouba a cena, ele consegue apagar a pergunta que paira sobre o projeto: alguém realmente precisava disso? A resposta, a julgar pelas reações mais contidas, é um ‘não’ reticente. O crítico Jonathan Sim acerta o alvo ao notar que o filme carece da ‘relatabilidade humana e sofrida’ do original. Em 2006, a angústia de Andy Sachs era universal: quase todo mundo já teve o chefe impossível, a conta no vermelho e a sensação de vender a alma para sobreviver no primeiro emprego.

Agora, com Miranda se aproximando da aposentador e Emily Charlton (Emily Blunt) chefiando uma marca de luxo, o conflito perde o chão cotidiano. O consenso geral, muito bem capturado por Scott Menzel, é de reações ‘incrivelmente contidas’. O elenco entrega o que se pede, o roteiro é afiado, mas a sequência não é essencial. É o clássico sintoma da Hollywood contemporânea: confunde a nossa saudade de personagens com a necessidade narrativa de revisitá-los. A diversão existe, mas o risco artístico de existir é questionável.

Por que o elenco original impede o filme de afundar na nostalgia

Se ‘O Diabo Veste Prada 2’ não afunda na própria superficialidade, o mérito é inteiro do quarteto original. Meryl Streep, Anne Hathaway, Blunt e Stanley Tucci reassumem os papéis como se o intervalo de 20 anos não existisse. Eles operam aqui como uma rede de segurança que impede o longa de se tornar um exercício tedioso.

Hathaway encontra o tom certo para uma Andy que já não é mais a assistente intimidada, trazendo a maturidade de quem sobreviveu à máquina corporativa. Tucci rouba cenas com o timing cômico preciso de sempre. Os novos nomes — Kenneth Branagh, Lucy Liu, Justin Theroux e B.J. Novak — adicionam textura ao tabuleiro corporativo, mas é a química testada pelo tempo dos veteranos que segura o filme de pé quando o roteiro ameaça escorregar para o lugar-comum.

Moda efêmera vs. urgência real: o que a sequência deixa para trás

No fim das contas, ‘O Diabo Veste Prada 2’ é um filme em guerra com a própria identidade. De um lado, tem a obrigação comercial de ser uma comédia de moda divertida, recheada de referências que arrancam suspiros. Do outro, tem um roteiro surpreendentemente interessado em falar sobre o colapso das instituições que documentam a cultura.

Quando o filme foca no brilho e no glamour, ele é apenas um passeio agradável, competente, mas descartável. Quando ele vira a câmera para a redação e para o desespero de manter o jornalismo vivo, ele encontra uma relevância que justifica sua existência. Pode não ser um clássico como o original, e talvez nem sequer fosse necessário na grande narrativa do cinema. Mas se a sequência de um filme sobre moda tem a coragem de nos dizer que a verdadeira crise não é o que vestimos, e sim o que lemos e como informamos o mundo, então ela merece ao menos o benefício da dúvida.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Diabo Veste Prada 2’

O que a crise do jornalismo tem a ver com ‘O Diabo Veste Prada 2’?

O filme muda o foco da indústria da moda para a luta pela sobrevivência da mídia impressa e das redações. Miranda Priestly agora enfrenta o colapso das publicações que documentam a cultura, tornando o jornalismo o grande tema do longa.

O elenco original todo retorna na sequência?

Sim. Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci reassumem seus papéis clássicos. O filme também adiciona nomes como Kenneth Branagh, Lucy Liu, Justin Theroux e B.J. Novak ao elenco.

‘O Diabo Veste Prada 2’ é tão bom quanto o primeiro?

Segundo as primeiras críticas, o filme peca pela falta de necessidade narrativa e pela perda do apelo cotidiano do original. No entanto, compensa essas falhas com a força do elenco de retorno e a relevância inesperada do comentário sobre o jornalismo.

Quando estreia ‘O Diabo Veste Prada 2’?

O filme teve sua estreia mundial em Nova York no dia 20 de abril de 2026 e deve chegar aos cinemas globalmente nas semanas seguintes.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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