‘Lockwood & Co’: melhor que ‘Wandinha’ e injustamente cancelada

Analisamos por que ‘Lockwood & Co’, com 93% de aprovação no Rotten Tomatoes contra 80% de ‘Wandinha’, foi cancelada pela Netflix. Explicamos como a métrica de visualização instantânea sacrificou a melhor adaptação literária e o terror mais efetivo do streaming.

Vamos falar sobre a hipocrisia dos algoritmos. A Netflix tem um histórico brutal de cancelar séries de fantasia e terror jovem, mas quando ‘Wandinha’ viraliza, a plataforma a trata como a prova definitiva de que o gênero funciona. O problema? Existe uma série que fez tudo melhor — muito melhor — e foi descartada sem cerimônia. Lockwood & Co não é apenas uma vítima do modelo de negócios do streaming; ela é a prova cabal de que a métrica da Netflix para medir sucesso está irremediavelmente quebrada.

Os números que a Netflix ignorou: 93% contra 80%

Se a qualidade artística e a recepção do público determinassem a longevidade de uma série, estaríamos comemorando a terceira temporada de Lockwood & Co. Vamos aos fatos frios do Rotten Tomatoes, onde a maquiagem do marketing não age: ‘Wandinha’ ostenta 80% de aprovação da crítica e 81% do público. Números sólidos. Mas ‘Lockwood & Co’ supera esses indicadores com 93% da crítica e 94% do público. Uma série criticamente superior em todos os quesitos foi cancelada na primeira temporada, enquanto a outra quebra recordes. Por quê? Porque a Netflix não mede qualidade; mede engajamento imediato e compara o desempenho de propriedades intelectuais novas com fenômenos estabelecidos como ‘Stranger Things’.

O terror que ‘Wandinha’ ensaiou e ‘Lockwood & Co’ executou

‘Wandinha’ brinca com o gótico, mas raramente assusta de verdade. É esteticamente afiada, porém segura na construção do medo. ‘Lockwood & Co’ não tem essa piedade. A premissa de uma Londres infestada por fantasmas, onde apenas adolescentes possuem a sensibilidade psíquica para combatê-los, ganha contornos de pesadelo na tela. A sequência na propriedade rural de Combe Carey — com sangue escorrendo pelas paredes e o terror paralisante dos personagens presos à noite com recursos limitados — constrói uma tensão física no espectador. O medo é tátil, e a direção de Joe Cornish usa silêncios abruptos e sombras como pura gramática hitchcockiana: o que não vemos é sempre mais assustador do que o que é revelado.

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A Netflix criou um cemitério de séries sobrenaturais jovens. ‘Fate: A Saga Winx’, ‘Primeira Morte’, ‘O Clube da Meia-Noite’, ‘A Ordem’, ‘Garotos Detetives Mortos’ — todas canceladas precocemente. O erro estratégico da plataforma é estabelecer o mesmo teto de audiência para uma IP nova e para uma franquia com décadas de fandom. Lockwood & Co tinha tudo para crescer organicamente temporada a temporada. Em vez de nutrir seu próprio universo, a empresa descarta o que não explode no primeiro fim de semana. É o equivalente a uma editora cancelando uma série de livros após o primeiro volume porque não vendeu tanto quanto Harry Potter.

Por que a adaptação de Jonathan Stroud é um caso raro de fidelidade criativa

O que torna o cancelamento ainda mais doloroso é que estávamos diante de uma das adaptações literárias mais precisas que o streaming já produziu. Baseada na série de cinco livros de Jonathan Stroud, a primeira temporada fundiu com inteligência as tramas de ‘The Screaming Staircase’ e ‘The Whispering Skull’. O roteiro cortou detalhes menores, mas manteve a coesão e o ritmo — algo raro em adaptações que tentam abraçar o mundo com as mãos. A atmosfera britânica, úmida e sombria, e o humor ácido de Stroud estão intactos. O show não é apenas para adolescentes; é terror de qualidade para adultos.

E o elenco é a prova da competência do escalamento. Ruby Stokes trocou o conforto de ‘Bridgerton’ para entregar uma Lucy Carlyle de força silenciosa. Cameron Chapman, em seu primeiro papel na TV, exala o charme arrogante e trágico de Anthony Lockwood. Ali Hadji-Heshmati encontra o equilíbrio perfeito entre o lado antissocial de George e sua curiosidade inesgotável. Eles não parecem atores interpretando personagens; eles parecem os personagens que saíram das páginas.

O obituário prematuro de uma série que precisava de duas temporadas

A tragédia de ‘Lockwood & Co’ é a de um projeto que precisava de apenas duas temporadas adicionais para concluir sua história. Duas. A Netflix não deu nem isso. Hoje, uma petição no Change.org com mais de 50 mil assinaturas — com assinaturas recentes, provando que gente ainda descobre e se apaixona pela série — tenta em vão ressuscitar o morto. Pelo menos, diferente dos fantasmas da ficção, os livros de Stroud estão lá para quem quer saber o fim. Mas fica a lição amarga: enquanto o streaming continuar refém de métricas de visualização instantânea, séries com 93% de aprovação continuarão morrendo para que produtos de 80% possam prosperar. É o negócio. Mas definitivamente não é arte.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Lockwood & Co’

Por que ‘Lockwood & Co’ foi cancelada pela Netflix?

A Netflix cancelou a série porque ela não atingiu o teto de audiência imediata que a plataforma exige, especialmente quando compara séries novas com franquias já estabelecidas como ‘Stranger Things’. Apesar da aclamação crítica, a métrica de visualização nos primeiros dias foi o fator decisivo.

Onde assistir ‘Lockwood & Co’?

Apesar do cancelamento, a primeira temporada de ‘Lockwood & Co’ continua disponível na Netflix, já que é uma produção original da plataforma.

Quantos livros a série ‘Lockwood & Co’ adaptou?

A primeira temporada adaptou os dois primeiros livros da série de Jonathan Stroud: ‘The Screaming Staircase’ e ‘The Whispering Skull’. A série literária tem cinco livros no total.

‘Lockwood & Co’ é uma série infantil?

Não. Embora os protagonistas sejam adolescentes, a série lida com terror genuinamente perturbador, com cenas de tensão elevada e violência psicológica. A atmosfera sombria e a construção do medo a tornam adequada e recomendável também para o público adulto.

Quem dirigiu ‘Lockwood & Co’?

A série foi criada e dirigida por Joe Cornish, conhecido por dirigir o aclamado ‘Ataque ao Distrito 13’ e por coescrever ‘As Aventuras de Tintim’ e ‘Ant-Man’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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