O fim de Nate em ‘Euphoria’ e a crise de identidade da série

Esta análise de Euphoria temporada 3 mostra como a série abandonou o estudo psicológico de Nate Jacobs para encaixá-lo num thriller criminal passivo. O problema não é a morte do personagem, mas a perda de coerência, agência e impacto temático.

Nate Jacobs era o monstro sob a cama do ensino médio americano. Um produto direto da hipocrisia patriarcal e da violência doméstica, ele assustava porque nunca foi escrito como vilão de desenho animado: havia charme, trauma, performance de masculinidade e um impulso constante de controlar tudo ao redor. Mas quando a Euphoria temporada 3 decide dar o próximo passo na vida de Nate, a série parece esquecer por que ele importava. O que antes era um estudo psicológico sobre masculinidade tóxica vira um subplot de thriller criminal em que o personagem perde agência, reage pouco e termina como peça arrastada pela trama.

O que fazia Nate Jacobs funcionar antes da 3ª temporada

O que fazia Nate Jacobs funcionar antes da 3ª temporada

Nas duas primeiras temporadas, Nate era aterrorizante porque sua violência não surgia do nada: ela era encenada como extensão de uma educação baseada em repressão, vigilância e vergonha. A série encontrava tensão não apenas nos surtos explícitos, mas nos momentos em que Jacob Elordi endurecia a postura, baixava o tom de voz ou sustentava um olhar por segundos demais. Era nesse espaço entre a ameaça e a explosão que ‘Euphoria’ encontrava seu melhor material.

Por isso, o salto para um Nate noivo de Cassie, tolerante, paciente e quase domesticado não soa como maturidade. Soa como descontinuidade dramática. Uma transformação dessa escala exigiria uma elaboração que a temporada não oferece: não há processo, não há conflito interno convincente, não há cenas que mostrem esse novo autocontrole sendo conquistado ou fingido. Há apenas um novo comportamento dado como fato.

A relação com Cassie, inclusive, tinha potencial para radicalizar tudo o que a série vinha construindo. Um casamento entre os dois poderia aprofundar a lógica de posse, idealização e punição que sempre cercou Nate. Em vez disso, a temporada opta por um homem quase anestesiado. Quando Cassie compromete os negócios dele e causa confusão no casamento, a reação não carrega a tensão comprimida de antes. Falta o subtexto de perigo. Falta, sobretudo, a sensação de que estamos diante do mesmo personagem.

Quando ‘Euphoria’ troca estudo psicológico por thriller de dívida

A grande ruptura da Euphoria temporada 3 está na mudança de eixo. Antes, Nate era um agente ativo do caos. Ele manipulava, investigava, mentia, encenava afeto, construía armadilhas. Mesmo quando a série exagerava, havia coerência na lógica de controle: Nate queria comandar a narrativa, a imagem pública e o destino dos outros. Agora, reduzido a um empresário falido que deve para o criminoso Naz, ele passa a existir dentro de uma engrenagem que não parece pertencer ao universo da série.

A trama do dedo cortado, do caixão e da dívida desloca ‘Euphoria’ de seu terreno mais fértil. Em vez de tensão psicológica, baseada em repressão, desejo e humilhação, a série aposta em choques físicos e iconografia de crime organizado. O problema não é apenas a mudança de gênero. Séries podem se reinventar. O problema é que essa guinada esvazia justamente o personagem que melhor condensava as obsessões centrais da obra.

Nate não era interessante porque podia apanhar de mafiosos ou fugir de criminosos. Ele era interessante porque funcionava como síntese violenta de um ideal masculino impossível: força sem vulnerabilidade, desejo sem ambiguidade, autoridade sem culpa. Ao colocá-lo como refém passivo de um thriller genérico, a série abandona a investigação desse ideal para tratá-lo como vítima de circunstâncias externas. É uma troca pobre. O monstro que antes produzia tensão com um simples corredor de escola agora precisa de mutilação e sequestro para parecer relevante.

Há também uma perda de escala dramática. ‘Euphoria’ sempre operou melhor quando fazia do íntimo um campo de guerra. Um quarto, um espelho, uma festa, um silêncio entre duas frases: era ali que a série encontrava violência. Na terceira temporada, a ameaça vem de fora, em pacotes mais óbvios e menos perturbadores. O resultado é paradoxal: acontece mais, mas se sente menos.

A morte de Nate em ‘Rain or Shine’ resume a crise de identidade da série

A morte de Nate em 'Rain or Shine' resume a crise de identidade da série

A morte de Nate no episódio ‘Rain or Shine’ cristaliza esse desvio. Enterrado vivo no terreno da própria obra fracassada, com apenas um cano para respirar, ele tem o fim selado quando uma cascavel desce pelo tubo e o ataca. Isoladamente, a cena busca impacto visual. Dentro da lógica de ‘Euphoria’, porém, ela soa como intrusa. Não é trágica no sentido inevitável; é arbitrária no sentido mais frustrante.

O incômodo não vem apenas do absurdo da imagem, mas do que ela revela sobre o novo tom. Sam Levinson abandona o drama doméstico, a tensão sexual e o horror psicológico do cotidiano para abraçar um faroeste criminal de mau encaixe. A morte por cascavel poderia existir em outra série, talvez até funcionar como ironia cruel. Aqui, ela parece menos um desfecho pensado para Nate do que um gesto de choque para encerrar uma trama que já havia perdido o centro.

Há uma diferença importante entre punição dramática e descaracterização. Nate merecia um fim duro? Sem dúvida. Mas um destino coerente com o que ele representava exigia confronto com suas próprias estruturas de poder: o legado do pai, o pânico em torno do desejo, a necessidade compulsiva de dominar mulheres e rivais, a masculinidade performática que o consumia por dentro. Em vez disso, seus minutos finais o reduzem ao desespero e à dependência de Cassie para quitar uma dívida. Não há revelação nova, não há ironia moral sofisticada, não há fechamento temático. Há apenas degradação.

Esse é o ponto em que a Euphoria temporada 3 falha com mais clareza. A série não mata Nate Jacobs; ela mata a complexidade que o tornava indispensável. Ao longo da temporada, ficamos esperando o momento em que o personagem retomaria o controle, exporia sua violência latente ou revelaria alguma camada nova de contradição. Esse momento nunca vem. O funeral apenas confirma que o Nate fascinante das primeiras temporadas já tinha desaparecido muito antes da cena final.

O problema não é Nate morrer, e sim o que a série deixou de dizer

A tragédia não está na morte em si. Está no vazio interpretativo que ela deixa. Quando ‘Euphoria’ era melhor, Nate servia como lente para observar como a violência masculina é aprendida, erotizada e socialmente recompensada. Sua presença organizava medo e desejo no mesmo quadro. Ao esvaziar essa função e substituí-la por um arco de dívida criminal, a série abandona uma de suas perguntas mais fortes.

Há, claro, quem veja nessa passividade um retrato de ruína: um homem antes obcecado por controle finalmente reduzido à impotência. A leitura faz sentido em tese, mas a execução não sustenta essa ambição. Faltam cenas de interioridade, faltam decisões que mostrem colapso psíquico, falta a progressão que transformaria queda em tragédia. Sem isso, o que resta não é desconstrução. É atalho.

Meu ponto é simples: Nate Jacobs podia terminar destruído, preso, humilhado ou morto. Todas essas opções caberiam no personagem. O que não cabia era transformá-lo num corpo passivo dentro de uma trama que parece vir de outra série. Para quem acompanhava ‘Euphoria’ como um estudo febril sobre juventude, desejo e violência, essa mudança de rota é mais do que uma escolha discutível. É uma crise de identidade.

Se você via em Nate um dos personagens mais perturbadores e bem escritos da série, esta temporada dificilmente convence. Se, por outro lado, prefere reviravoltas externas e um flerte mais explícito com thriller criminal, talvez aceite melhor a guinada. Eu não compro. Um personagem construído para encarnar a brutalidade íntima da masculinidade tóxica merecia um fim menos aleatório e muito mais inteligente.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Euphoria’ temporada 3

Nate morre em ‘Euphoria’ temporada 3?

Sim. Na temporada, Nate Jacobs tem um desfecho fatal no episódio ‘Rain or Shine’, em uma sequência que abandona o registro psicológico das fases anteriores e aposta num choque mais próximo de thriller criminal.

Preciso rever as temporadas anteriores para entender o arco de Nate?

Sim, especialmente a 1ª e a 2ª temporadas. É nelas que ‘Euphoria’ constrói a violência, o controle e os conflitos de identidade de Nate, elementos essenciais para perceber por que a mudança na 3ª temporada soa tão brusca.

A 3ª temporada de ‘Euphoria’ muda de tom em relação às anteriores?

Muda bastante. Em vez de priorizar tensão psicológica, relações abusivas e crises íntimas, a temporada flerta mais com suspense criminal e situações de ameaça física, o que altera a identidade dramática da série.

Para quem essa fase de ‘Euphoria’ pode funcionar melhor?

Ela pode funcionar melhor para quem gosta de reviravoltas mais externas, ritmo de thriller e conflitos menos centrados em psicologia. Já quem acompanhava a série pelo estudo de personagem tende a sentir mais a quebra de coerência.

Onde assistir ‘Euphoria’?

‘Euphoria’ está disponível na Max, serviço de streaming da HBO. A disponibilidade pode variar por país, mas no Brasil a série costuma permanecer no catálogo da plataforma.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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