‘The Boys’: Kripke deixa o comando após final e explica futuro dos spinoffs

O futuro dos The Boys spinoffs passa menos pelo backlash online e mais pela nova divisão de poder no VCU. Analisamos por que Eric Kripke usa audiência para rebater as críticas e por que sua saída do comando diário pode fortalecer, e não enfraquecer, a franquia.

A internet grita, os números sussurram. Quando a quinta e última temporada de ‘The Boys’ chegou ao fim, o barulho nas redes foi de frustração. A nota de audiência no Rotten Tomatoes caiu para 52%, a pior da franquia. Só que Eric Kripke, olhando para dentro da máquina da Prime Video, citou outro retrato: 57 milhões de espectadores em 39 dias. É desse choque entre percepção online e consumo real que nasce a questão mais importante do momento: o que a saída de Kripke do comando diário significa para os The Boys spinoffs?

A resposta mais interessante não é apocalíptica. Kripke não está abandonando o universo; está mudando de função. Sai do posto de showrunner centralizador e assume uma posição de supervisão criativa. Num ecossistema que já flerta com o modelo de universo expandido, essa troca diz menos sobre desgaste pessoal e mais sobre estratégia: preservar a identidade de ‘The Boys’ sem obrigar cada derivação a soar como uma cópia da série-mãe.

Kripke responde ao backlash com um argumento que Hollywood respeita: audiência

Kripke responde ao backlash com um argumento que Hollywood respeita: audiência

Na entrevista à Rolling Stone, Kripke reconheceu a repercussão negativa como um ‘furacão’ desagradável de acompanhar, mas relativizou seu peso. A internet, disse ele em essência, não representa o mundo real. Pode soar como defesa automática, mas os números ajudam a sustentar o argumento. Uma série realmente rejeitada não mobiliza 57 milhões de espectadores em pouco mais de um mês.

Isso não significa que toda crítica ao final seja inválida. Significa apenas que repercussão digital e adesão do público não são a mesma coisa. Em franquias grandes, review bombing, ciclos de indignação e debate algorítmico tendem a produzir uma sensação de desastre maior do que o estrago real. ‘The Boys’ terminou sob contestação, sim, mas não sob indiferença — e, para qualquer plataforma, indiferença é o verdadeiro atestado de óbito.

Há também uma defesa temática possível do desfecho. O arco de Billy Butcher sempre apontou para autodestruição: um homem movido por luto, vingança e uma necessidade doentia de controle dificilmente terminaria em paz. O final pode dividir, mas não trai a lógica moral que a série construiu ao longo de cinco temporadas. Diferentemente de encerramentos que parecem reescritos pela pressa, aqui a amargura já estava no DNA da obra.

A melhor notícia para o VCU é justamente Kripke deixar de centralizar tudo

O dado realmente relevante para o futuro da franquia não é a nota no Rotten Tomatoes. É a reorganização de poder no chamado VCU. Kripke deixará de tocar o dia a dia dos próximos projetos e passará a atuar como conselheiro e guardião de qualidade. Em vez de transformar os spinoffs em linha de montagem, ele sinaliza que cada série precisa de uma voz própria.

Essa é uma decisão mais lúcida do que parece. Universos expandidos começam a enfraquecer quando toda produção repete o mesmo ritmo, o mesmo sarcasmo e o mesmo desenho de conflito. Foi o que aconteceu com parte da Marvel na Fase 4: excesso de interconexão, pouca variação de sabor. Kripke parece tentar evitar esse destino. Se tudo em torno de ‘The Boys’ parecer apenas mais ‘The Boys’, o universo encolhe em vez de crescer.

‘Gen V’ foi a melhor prova disso. A série derivada manteve a sátira institucional e a violência cínica do original, mas encontrou outro pulso: mais juvenil, mais universitário, mais interessado em trauma de formação do que em guerra ideológica em escala nacional. Funcionou porque não foi uma imitação servil. O desafio agora é repetir esse acerto com novos comandantes.

Paul Grellong herda ‘Vought Rising’ com uma oportunidade rara: mudar o gênero sem trair a marca

Paul Grellong herda 'Vought Rising' com uma oportunidade rara: mudar o gênero sem trair a marca

É nesse contexto que entra Paul Grellong, escalado para liderar ‘Vought Rising’. Mais do que continuar uma franquia de sucesso, ele recebe a chance de redefinir seu eixo. A premissa — explorar as origens da Vought e do Soldado Boy — abre a porta para algo diferente da sátira de celebridade e fascismo pop que marcou a série principal.

Se ‘Vought Rising’ for inteligente, não tentará reproduzir Homelander sem Homelander. O melhor caminho é outro: um thriller histórico sobre propaganda, militarização e fabricação de mitos americanos. A Vought sempre funcionou, em ‘The Boys’, como paródia corporativa de marcas que vendem virtude enquanto operam cinicamente nos bastidores. Voltar à origem dessa engrenagem permite mostrar como esse modelo foi construído desde o berço — e como o ‘herói’ nasceu como produto.

Há um risco evidente: explicar demais. Prequelas vivem desse problema. Quando a mitologia é aberta em excesso, o mistério evapora e o mundo parece menor. Em ‘The Boys’, parte da força da Vought vem da sua opacidade: reuniões fechadas, decisões sanitizadas por marketing, crimes enterrados sob linguagem institucional. Se ‘Vought Rising’ transformar tudo isso em exposição didática, perde-se o veneno.

Mas há um caminho promissor. Imagine a estética publicitária da era pós-guerra, jingles patrióticos, noticiários encenados e a fabricação do soldado perfeito como peça de relações públicas. O horror não estaria só no Compound V, mas na embalagem. Essa abordagem daria ao spinoff uma identidade visual e narrativa própria, algo entre drama corporativo de época e thriller paranoico de Guerra Fria.

É aí que a mudança de comando faz sentido. Um showrunner novo pode tratar esse material sem a obrigação de repetir o timbre exato da série original. Kripke, de fora, funciona melhor como filtro do que como autor total: alguém capaz de dizer o que ainda pertence ao universo e o que já virou ruído.

O som do fim em ‘The Boys’ sempre foi mais fúnebre do que catártico

Um dos méritos menos comentados do encerramento está na forma. ‘The Boys’ sempre entendeu que violência gráfica sozinha não sustenta impacto; é o desenho de som que muitas vezes torna a brutalidade desconfortável. Nos momentos decisivos da reta final, a mixagem privilegia estalos secos, pausas e silêncios incômodos em vez de transformar tudo em espetáculo triunfal. Essa escolha reforça a ideia de decomposição moral, não de vitória limpa.

Também na montagem a série evita o impulso de glorificação. Em vez de acelerar cada clímax como se estivesse editando um trailer, ela segura reações, alonga consequências e deixa o desconforto pousar. Isso importa porque ajuda a entender a defesa de Kripke: o final pode ter desagradado parte do público justamente por recusar catarse fácil. A série fecha mais perto de um epitáfio do que de uma celebração.

O ponto frágil da transição: quem vai fechar as histórias que ficaram no meio do caminho?

O ponto frágil da transição: quem vai fechar as histórias que ficaram no meio do caminho?

Nem tudo nessa mudança inspira tranquilidade. O maior teste do modelo de supervisão criativa está nas pontas soltas do universo. Personagens de ‘Gen V’, especialmente Marie Moreau e companhia, não podem virar nota de rodapé numa franquia que depende de continuidade emocional para manter relevância. Kripke prometeu encerramento para essas trajetórias, mas promessas de bastidor valem pouco até aparecerem na tela.

A indústria recente está cheia de exemplos de universos expandidos que anunciam conexão e entregam abandono. Quando a prioridade muda para o próximo lançamento, personagens sem série própria tendem a ser sacrificados. Se o novo arranjo do VCU quiser provar que não é apenas expansão corporativa com branding esperto, vai precisar mostrar memória dramática. Não basta abrir novas frentes; é preciso honrar as antigas.

Para quem os próximos The Boys spinoffs podem funcionar — e para quem talvez não

Se você acompanha ‘The Boys’ pela sátira política, pelo nojo moral e pela vontade de ver um universo de super-heróis tratado como ecossistema de propaganda, os próximos projetos ainda têm potencial. A saída de Kripke do centro pode até ajudar, desde que os novos showrunners entendam que a franquia funciona melhor quando muda de forma sem abandonar sua crueldade analítica.

Mas quem espera apenas repetir a dinâmica entre Butcher, Homelander e companhia talvez se decepcione. Spinoff saudável não é xerox. ‘Vought Rising’ tende a funcionar melhor se for menos uma continuação espiritual direta e mais uma expansão lateral do mesmo veneno. O mesmo vale para ‘The Boys: Mexico’: a pergunta não deveria ser se será ‘como a original’, e sim o que ela pode dizer sobre poder, violência e espetáculo a partir de outro contexto.

O veredito: Kripke sai do volante na hora certa

No curto prazo, a narrativa mais barulhenta é a do backlash. No médio prazo, porém, o movimento realmente decisivo é a transição de comando. Kripke usa os dados de audiência para responder às críticas e, ao mesmo tempo, faz um gesto raro em franquias bem-sucedidas: recusa a tentação de controlar tudo para sempre.

Para os The Boys spinoffs, isso pode ser uma bênção. Um universo só continua vivo quando aceita mutação. Kripke permanecer como conselheiro parece o meio-termo mais inteligente entre coerência e renovação. Se funcionar, o VCU evita virar produto padronizado. Se falhar, os spinoffs confirmarão o medo mais previsível: o de que até uma sátira feroz sobre corporações pode acabar engolida pela lógica corporativa que criticava.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre The Boys spinoffs

Eric Kripke saiu completamente do universo de ‘The Boys’?

Não. Eric Kripke deixará o comando diário como showrunner, mas continuará envolvido como supervisor criativo e controlador de qualidade dos próximos projetos ligados à franquia.

Quais são os próximos spinoffs de ‘The Boys’ em desenvolvimento?

Os títulos mais comentados são ‘Vought Rising’ e ‘The Boys: Mexico’. ‘Gen V’ também segue como peça importante desse universo, mesmo com incertezas sobre o fechamento de alguns personagens.

Preciso assistir ‘The Boys’ para entender ‘Vought Rising’?

Em princípio, não totalmente. Como ‘Vought Rising’ deve explorar as origens da Vought e do Soldado Boy, a série tende a funcionar como prequela. Ainda assim, conhecer ‘The Boys’ ajuda a captar referências, ironias e o peso histórico do universo.

Por que a audiência de ‘The Boys’ importa mais do que a nota no Rotten Tomatoes?

Porque, para a plataforma, alcance e retenção pesam mais do que a temperatura do debate online. A nota de audiência mede reação de um grupo ativo; os números de visualização mostram quantas pessoas de fato deram play e acompanharam a série.

‘Vought Rising’ vai seguir o mesmo estilo de ‘The Boys’?

Provavelmente não no mesmo formato. A tendência é que o spinoff mantenha o cinismo e a crítica ao poder corporativo, mas com outra pegada narrativa, possivelmente mais próxima de thriller histórico e drama de época.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também