O fim de Homelander em ‘The Boys’ e o que Daenerys mereceu

O Final The Boys acerta ao dar a Homelander uma queda humilhante, mas repete um problema que feriu Daenerys em ‘Game of Thrones’: a pressa. Esta análise mostra por que o destino funciona melhor que o ritmo do desfecho.

Quando uma série constrói um vilão por anos, o payoff precisa equilibrar expectativa e consequência. O Final The Boys entrega a catarse mais óbvia — Butcher enfim destruindo Homelander —, mas tropeça justamente no ponto em que grandes finais de TV costumam se perder: o ritmo da queda. A morte é satisfatória. O processo até ela, nem tanto.

Há prazer dramático em ver aquele falso deus, sustentado por medo, propaganda e Compound V, reduzido a um homem em pânico. A ideia funciona porque sempre esteve inscrita no personagem: por trás do sorriso plastificado e da postura messiânica, Homelander nunca foi força pura, e sim uma criança deformada pela necessidade de adoração. O problema é que a série encontra essa verdade e passa por ela rápido demais.

Antony Starr encontra a cena certa, mas a série sai cedo demais dela

Antony Starr encontra a cena certa, mas a série sai cedo demais dela

A melhor escolha do desfecho está numa virada simples: quando Homelander perde o controle da situação, Antony Starr abandona a rigidez calculada e deixa aparecer o que o personagem sempre escondeu. Não é só medo de morrer. É pavor de ser comum. Esse detalhe faz toda a diferença, porque sua crueldade ao longo da série sempre veio menos de um projeto ideológico e mais de um narcisismo infantil incapaz de aceitar frustração.

Por isso, a cena em que ele finalmente implora funciona. Ela reinterpreta retrospectivamente o personagem inteiro. De repente, os acessos de fúria, a necessidade de aprovação pública, a relação doentia com figuras maternas e o ressentimento contra qualquer limite deixam de parecer apenas traços de um sociopata superpoderoso e se reorganizam como sintomas de alguém que nunca suportou a própria vulnerabilidade.

Mas é justamente aí que o Final The Boys se apequena. A série encontra um filão dramático potente — ver Homelander encarar a própria pequenez — e o comprime em poucos minutos. O que poderia ser um corredor de humilhação moral vira um golpe seco. Catártico, sem dúvida. Completo, não.

O que Homelander tem em comum com Daenerys não é moral: é estrutura

A comparação com Daenerys Targaryen exige cuidado. Elas não ocupam o mesmo lugar ético. Daenerys foi escrita, por anos, como libertadora, conquistadora e figura messiânica ambígua; Homelander, ao contrário, sempre operou como monstro em exposição progressiva. A semelhança entre os dois finais não está no tipo de personagem, mas no tipo de aceleração narrativa.

Em ‘Game of Thrones’, o problema nunca foi a ideia de Daenerys romper de vez com qualquer limite moral. Havia sinais anteriores: a crença no próprio destino, a lógica punitiva, a facilidade em confundir justiça com extermínio. O desastre foi o ritmo. A série pediu ao público que aceitasse, em tempo recorde, uma transformação que precisava de mais fricção dramática, mais conflito interno visível, mais resistência antes da ruptura.

Com Homelander acontece o espelho invertido. Aqui, o destino final é mais orgânico. Diferentemente de Daenerys, ele não precisava ser ‘virado’; precisava ser desmontado. E a desmontagem exigia duração. O personagem merecia alguns passos a mais entre a onipotência e o desespero, porque esse intervalo é o verdadeiro pagamento dramático. O desfecho de Homelander tem a justiça narrativa que muita gente sentiu faltar em Daenerys, mas sofre da mesma pressa em executar o movimento decisivo.

Grandes finais entendem que a queda não basta; é preciso mostrar o eco

Grandes finais entendem que a queda não basta; é preciso mostrar o eco

O que separa um final apenas catártico de um final memorável é a capacidade de explorar aftermath. ‘Breaking Bad’ entendeu isso com precisão cirúrgica. ‘Ozymandias’ não é devastador só pelos eventos em si, mas pela maneira como a montagem estica cada consequência até ela doer: a família destruída, a ilusão de controle evaporando, Walt reduzido ao que realmente é. Não basta derrubar o rei; é preciso fazer o reino olhar para o vazio que sobra.

‘The Boys’ sempre trabalhou bem a sátira da cultura de celebridade, da política como espetáculo e da fabricação midiática de monstros. Por isso, o colapso público de Homelander pedia mais do que violência física. Pedia reação social, pedia reverberação política, pedia tempo para observar o que acontece quando a figura tratada como divindade revela, sem o escudo do poder, a mediocridade assustada que sempre existiu por baixo.

Esse é o ponto em que o final parece apressado. Não pela ausência de crueldade ou coragem, mas pela falta de respiração. O confronto encerra o arco biográfico do vilão, só que mal toca no abalo simbólico da sua queda. Para uma série tão interessada em instituições, culto de personalidade e manipulação de massas, isso pesa.

Há uma escolha técnica eficiente no confronto, mas ela comprime demais o impacto

Em termos de encenação, a sequência funciona pela brusquidão. A direção evita transformar o momento num balé heroico e prefere um desfecho feio, seco, quase humilhante. Isso combina com a lógica moral da série: Homelander não merecia grandeza nem na morte. Merecia ser reduzido.

A atuação de Starr ajuda, e o contraste com Karl Urban torna a cena ainda mais agressiva. Butcher entra como força terminal, sem romantismo, quase como a materialização de um acerto de contas acumulado desde Becca. Há eficiência também na montagem, que não adorna o confronto com solenidade excessiva. O golpe vem com brutalidade anticlímax, o que em tese reforça a ideia de que monstros podem acabar de forma indigna.

Mas a mesma economia que dá força imediata à cena rouba parte de sua permanência. Uma montagem mais paciente, um uso mais dilatado do silêncio ou mesmo alguns minutos adicionais de exposição ao colapso psicológico de Homelander teriam ampliado o efeito. A sequência acerta o tom. Erra a duração.

Para quem esse final funciona — e para quem ele vai soar insuficiente

Se você assistia a ‘The Boys’ principalmente pela promessa de ver Homelander pagar por tudo, o encerramento provavelmente funciona. Há justiça, há violência e há uma imagem final coerente com o que a série vinha prometendo. Nesse nível mais direto, o payoff chega.

Mas, para quem esperava um grande estudo sobre a decomposição de um tirano televisivo, o gosto é mais ambíguo. Falta observar o personagem sem a armadura do mito por tempo suficiente. Falta ver a série saborear o que ela mesma construiu tão bem: a diferença entre parecer invencível e ser apenas um homem quebrado.

É por isso que a comparação com Daenerys faz sentido. Não porque os dois casos sejam iguais, mas porque ambos lembram uma verdade incômoda sobre finais de TV: acertar o destino não basta. É preciso merecer cada passo até ele.

No saldo final, o Final The Boys é narrativamente satisfatório, até corajoso na recusa de glamourizar Homelander. Ainda assim, deixa a sensação de que vimos o esqueleto de um grande encerramento, não sua versão plena. A catarse existe. O peso, nem sempre.

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Perguntas Frequentes sobre o Final de ‘The Boys’

Homelander morre no final de ‘The Boys’?

Sim. No desfecho analisado aqui, Homelander encontra um fim definitivo nas mãos de Butcher, encerrando o principal conflito da série.

Por que o final de Homelander foi comparado ao de Daenerys?

A comparação não é moral, e sim estrutural. Nos dois casos, o problema está no ritmo: a ideia do destino pode fazer sentido, mas a execução parece acelerada demais para o peso dramático que a história construiu.

O final de ‘The Boys’ foi satisfatório?

Em termos de catarse, sim. Para quem queria ver Homelander pagar por seus crimes, o final entrega. Já para quem esperava um epílogo mais desenvolvido e mais consequências dramáticas, ele pode soar apressado.

Preciso ver todas as temporadas para entender o final de ‘The Boys’?

Sim. O impacto do desfecho depende de anos de construção da relação entre Butcher e Homelander, além do histórico de traumas, manipulação e violência que a série desenvolve desde o início.

Onde assistir ‘The Boys’?

‘The Boys’ está disponível no Prime Video. Como é uma produção original da Amazon, a série permanece vinculada à plataforma salvo mudanças futuras de licenciamento.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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