De Queen a Trem da Alegria: os Easter eggs na trilha de ‘Mestres do Universo’

Esta análise da trilha sonora Mestres do Universo mostra como o filme usa Queen, The Cure, SNAP! e até Trem da Alegria para contar a história, não só acionar nostalgia. O foco está no valor narrativo dos Easter eggs musicais e no que eles revelam sobre Adam e o tom do reboot.

Reboots de brinquedos dos anos 80 costumam pecar pelo excesso de nostalgia vazia — aquela tentativa de acionar memória afetiva sem dar função dramática a ela. Mas o que Travis Knight faz aqui é mais inteligente. A trilha sonora Mestres do Universo não entra só para colorir a ação: ela comenta a cena, antecipa viradas, ironiza o protagonista e, em pelo menos dois momentos, transforma referência pop em payoff narrativo. Em vez de apenas listar músicas conhecidas, o filme usa canções como parte da própria dramaturgia.

Daniel Pemberton, compositor de Homem-Aranha: No Aranhaverso e Ferrari, assina um score que troca a pompa sinfônica do longa de 1987 por uma mistura mais áspera de sintetizadores, guitarras e pulsação de arena rock. Essa escolha conversa com o projeto inteiro: um Mestres do Universo menos solene do que o original, mas também mais consciente de como a iconografia oitentista pode servir à história. O melhor da trilha está justamente aí: nos Easter eggs musicais que parecem piada privada, mas acabam organizando o arco de Adam.

Por que a piada com ‘Highlander’ e Queen é mais do que fan service

Por que a piada com 'Highlander' e Queen é mais do que fan service

O achado mais esperto da trilha vem de uma piada plantada cedo e paga depois. No início, Adam está na Terra, desorientado, tentando explicar que vem de Eternia e precisa recuperar sua espada. A reação que recebe é de deboche: tratam sua história como delírio de alguém que se acha saído de ‘Highlander: O Guerreiro Imortal’. Em muitos blockbusters, isso morreria como referência lateral. Aqui, vira estrutura.

Quando Adam enfim retorna a Eternia e a narrativa muda de chave, entram os acordes de ‘Princes of the Universe’. A música não foi escolhida ao acaso: ela foi composta pelo Queen para ‘Highlander’ em 1986, num casamento quase inseparável entre cinema e rock de arena. O efeito da cena funciona em duas camadas. Na superfície, é catarse. Debaixo dela, é um trocadilho dramatizado: aquilo que antes soava como insulto passa a funcionar como coro heroico.

Essa é a diferença entre referência gratuita e referência com função. A canção ajuda a completar um arco. Adam começa tratado como um lunático fantasiado e termina enquadrado pela própria mitologia que o mundo ridicularizou. A montagem entende isso: segura a entrada da faixa até o momento exato em que o personagem recupera presença física. Não é só a música que cresce; é o corpo dramático dele que finalmente encontra escala.

Há ainda um detalhe técnico importante. Pemberton não joga a faixa pronta por cima da imagem como se fosse agulhada de playlist. O desenho sonoro prepara o terreno, abrindo espaço para a entrada do rock sem quebrar a unidade do filme. É um uso mais próximo de musicalização narrativa do que de compilação nostálgica. E o envolvimento de Brian May no score reforça essa ponte entre canção licenciada e identidade sonora do longa.

The Cure e SNAP!: quando a trilha comenta o fracasso de Adam

Boa parte dos anos de Adam na Terra poderia cair na fórmula do herói desterrado em montagem de derrota. O filme escapa disso porque as músicas não apenas acompanham o estado emocional; elas o interpretam. Quando ‘Boys Don’t Cry’, do The Cure, entra em cena, a escolha é mais precisa do que parece à primeira escuta. Não se trata só de tocar um clássico oitentista reconhecível. A faixa fala de contenção afetiva, máscara, incapacidade de expor vulnerabilidade — exatamente o tipo de rigidez que define esse Adam exilado, preso entre a vergonha da queda e a obrigação de continuar parecendo príncipe.

O contraste entre letra e imagem dá espessura ao personagem. Em vez de o roteiro verbalizar sua frustração, a música a codifica. Isso torna a sequência mais rica do que um simples resumo de tempo passado. Para quem conhece a tradição do cinema de fantasia dos anos 80, essa operação também tem algo de revisionista: o herói musculoso e mítico ganha uma moldura emocional melancólica, quase antiépica.

‘The Power’, do SNAP!, aparece no melhor registro de ironia do filme. A faixa explode justamente quando Adam recupera a Espada do Poder, e o refrão parece anunciar a catarse inevitável: ‘I’ve got the power’. Só que a espada falha. O momento, que poderia ser montado como ápice triunfal, vira gag de humilhação. A trilha sonora de ‘Mestres do Universo’ faz algo raro em franquias desse tipo: ela ri do próprio mecanismo mitológico.

Essa piada funciona porque a montagem respeita a batida da música para criar expectativa antes de quebrá-la. O corte não desmente a canção; deixa a canção se comprometer sozinha. É um recurso de timing. A trilha promete glória, a imagem entrega frustração, e dessa fricção nasce o humor. Mais do que uma escolha espirituosa, é uma maneira de evitar que a jornada de Adam fique pomposa cedo demais.

O que a música do Trem da Alegria revela sobre a nostalgia brasileira

O que a música do Trem da Alegria revela sobre a nostalgia brasileira

O Easter egg mais específico — e, para parte do público brasileiro, o mais inesperado — é a inclusão de ‘He-Man’, do Trem da Alegria. Em teoria, seria o tipo de referência fácil que existe apenas para arrancar risada de reconhecimento. Mas a cena escolhe outro caminho. Em vez de tratar a música como meme, o filme a posiciona num momento de retorno e reencantamento.

Isso muda tudo. A canção não entra para ridicularizar a memória infantil; entra para validá-la. Para muita gente no Brasil, Mestres do Universo não foi primeiro um filme nem um desenho isolado, mas um pacote cultural feito de brinquedos, vinhetas de TV, álbuns, chamadas comerciais e músicas derivadas. O longa reconhece essa camada de recepção sem fazer cara de superioridade. É um gesto pequeno, mas raro: admitir que a memória pop latino-americana do personagem não é idêntica à americana.

Também há valor narrativo aí. Ao colocar a faixa num momento de ascensão, Travis Knight sugere que o heroísmo de Adam não pertence só à mitologia interna de Eternia; pertence ao repertório afetivo de quem cresceu consumindo aquele universo de forma fragmentada. Não é apenas uma piscadela local. É uma tradução cultural da fantasia.

Se a escolha funciona para todos os públicos é outra conversa. Para quem não tem essa memória, a faixa pode soar excêntrica ou até deslocada. Ainda assim, ela merece crédito por correr esse risco. Em vez de usar uma referência global e previsível, o filme aposta numa lembrança regional que amplia a leitura sobre como franquias oitentistas circularam fora do eixo anglófono.

Como o score de Daniel Pemberton segura a unidade do filme

Os Easter eggs chamam mais atenção, mas o score original é o que impede o filme de virar coletânea de hits. Pemberton cria uma base que mistura impulso sinfônico e textura de hard rock, conectando as canções licenciadas a um mesmo horizonte estético. O resultado não é o de um filme que para para tocar música; é o de um filme cuja música já estava em combustão antes mesmo de a faixa conhecida entrar.

Isso aparece especialmente nas transições de escala. Nas cenas em Eternia, a percussão e as guitarras constroem peso sem abandonar a clareza melódica necessária a uma aventura mitológica. Nas passagens terrestres, o arranjo abre espaço para um som mais seco e menos majestoso, como se o mundo tivesse drenado a energia épica de Adam. Esse contraste ajuda a contar a diferença entre exílio e pertencimento sem depender de exposição verbal.

Vale notar também o papel do som em sala. Em tela grande, as guitarras têm corpo, e a pressão dos graves dá ao retorno da mitologia um efeito mais físico do que doméstico. Não é detalhe irrelevante: esse tipo de trilha, construída para alternar ironia e grandiosidade, perde impacto quando comprimida em reprodução casual. Em cinema, a música ocupa espaço dramático; em streaming, corre mais risco de parecer apenas ‘playlist boa’.

Dentro da filmografia de Pemberton, o trabalho dialoga com sua habilidade de usar identidade sonora muito marcada sem sacrificar legibilidade narrativa. Não tem a colagem agressiva de ‘No Aranhaverso’, mas compartilha a mesma inteligência de desenho: cada textura existe para definir mundo, personagem e energia de cena.

Onde a trilha de ‘Mestres do Universo’ realmente funciona melhor

Nos créditos de abertura, a faixa ‘Mestres do Universo’, da The Darkness, já deixa claro o que o filme pretende ser: grande, espalhafatoso, melodioso e sem vergonha de soar maior do que a vida. É uma abertura que funciona quase como manifesto estético. A influência de Queen na banda ajuda a preparar, por tabela, o terreno para o grande payoff posterior com ‘Princes of the Universe’.

Nos créditos finais, ‘Eternia’, parceria de Pemberton com Brian May, faz a síntese do projeto. A faixa combina heroísmo melódico e guitarra em primeiro plano, fechando o arco de um filme que tentou aproximar fantasia pulp, ironia pop e devoção sincera ao material de origem. É um encerramento mais eloquente do que muitos diálogos do terceiro ato.

Para quem quiser ouvir depois, vale algum cuidado. Em streaming, há playlists oficiais e compilações ‘inspiradas no filme’ que misturam material usado em cena com faixas adjacentes, o que embaralha a experiência. O ideal é buscar o álbum do score oficial de Daniel Pemberton e as canções efetivamente presentes no longa, separando trilha original de seleção licenciada. Sem isso, parte do desenho narrativo se perde.

No fim, o maior acerto da trilha sonora Mestres do Universo é entender que nostalgia, sozinha, não sustenta cena. O filme acerta quando usa Queen para pagar uma piada, SNAP! para desmontar um clímax fácil e Trem da Alegria para localizar afetivamente o mito num contexto brasileiro. É aí que os Easter eggs deixam de ser ornamento e viram escrita dramática. Para quem gosta de observar como a música pode contar a piada, aprofundar o personagem e ainda ampliar o mundo do filme, há mais substância aqui do que a embalagem de reboot sugere. Para quem espera apenas faixas conhecidas tocando sobre luta de espada, a riqueza provavelmente passa batida.

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Perguntas Frequentes sobre a trilha de ‘Mestres do Universo’

Quem compôs a trilha sonora de ‘Mestres do Universo’?

O score original é assinado por Daniel Pemberton. O filme também combina essa trilha instrumental com canções licenciadas de artistas como Queen, The Cure, SNAP! e The Darkness.

‘Princes of the Universe’, do Queen, toca mesmo em ‘Mestres do Universo’?

Sim. A faixa aparece como parte de um payoff narrativo ligado a uma piada anterior com ‘Highlander: O Guerreiro Imortal’. Por isso, a música funciona no filme como referência e como clímax dramático.

A música do Trem da Alegria está realmente no filme?

Sim, o filme inclui ‘He-Man’, do Trem da Alegria, como Easter egg musical. É uma referência que conversa especialmente com a memória afetiva do público brasileiro que conheceu a franquia nos anos 80 e 90.

Onde ouvir a trilha sonora de ‘Mestres do Universo’?

O mais seguro é procurar o álbum oficial do score de Daniel Pemberton nas plataformas de música. Algumas playlists de streaming misturam faixas do filme com músicas apenas inspiradas nele, o que pode confundir quem quer ouvir a trilha correta.

A trilha de ‘Mestres do Universo’ vale a pena para quem não é fã da franquia?

Vale se você gosta de trilhas que usam canções pop com função dramática. Mesmo sem apego à franquia, há interesse em observar como o filme transforma referências dos anos 80 em comentário de personagem, humor e construção de clímax.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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