De ‘Mindhunter’ a ‘Hyde’: Holt McCallany volta a caçar serial killers

O filme Hyde marca o retorno de Holt McCallany ao universo dos serial killers em um noir que conversa diretamente com os órfãos de ‘Mindhunter’. Explicamos por que o projeto pode funcionar como sucessor espiritual da série, e não só como notícia de elenco.

O cancelamento de ‘Mindhunter’ na Netflix deixou um buraco específico para quem gosta de thriller psicológico: menos pela falta de respostas e mais pela ausência daquele método frio, quase clínico, de encarar o mal. No centro disso estava Bill Tench. Agora, Holt McCallany volta a esse território em filme Hyde, um noir policial gravado em Bucareste que parece menos uma simples notícia de elenco e mais uma espécie de sucessor espiritual para quem nunca superou a série de David Fincher.

Não é a mesma obra, nem tenta ser. Mas a ideia de ver McCallany outra vez perseguindo um serial killer, agora como o detetive Grimes, já aciona uma memória muito específica: a do investigador exausto, duro por fora e corroído por dentro, que ele soube construir como poucos em ‘Mindhunter’.

Por que ‘Hyde’ fala direto com os órfãos de ‘Mindhunter’

Por que 'Hyde' fala direto com os órfãos de 'Mindhunter'

Em ‘Mindhunter’, McCallany fez de Tench um personagem maior do que seus diálogos. Bastava observar a postura: ombros pesados, voz controlada, olhar de quem já passou tempo demais encarando gente monstruosa. Era uma atuação baseada em desgaste. E é justamente por isso que ‘Hyde’ desperta interesse imediato.

A premissa coloca Grimes na trilha de um serial killer em uma cidade decadente, mas há um detalhe que muda o eixo da história: ele é obrigado a fazer terapia enquanto investiga. Isso sugere um filme menos interessado no quebra-cabeça do crime e mais no custo psicológico de perseguir esse tipo de violência. Se Tench carregava um subtexto de colapso emocional, Grimes parece transformar esse subtexto em trama.

É aí que o filme Hyde encontra seu melhor gancho. Para o público que esperava uma terceira temporada de ‘Mindhunter’, o apelo não está apenas em ver outro detetive atrás de outro assassino. Está em revisitar um tipo de personagem que a TV recente quase abandonou: o investigador que não sai intacto do trabalho, e cuja mente vira parte da cena do crime.

Bucareste pode dar ao filme a textura que o gênero exige

A escolha de Bucareste, na Romênia, ajuda a diferenciar ‘Hyde’ de thrillers policiais intercambiáveis. Em noir, locação não serve só para embelezar o enquadramento; ela define a temperatura moral da narrativa. E a descrição da cidade como base para uma ‘história distorcida’ indica que os diretores Graham e Parker Phillips entendem isso.

Bucareste tem uma mistura visual especialmente útil para esse tipo de projeto: blocos severos, ruas com desgaste histórico, fachadas grandiosas já um pouco corroídas, uma beleza que nunca parece confortável. Em termos de cinema, é o tipo de espaço que favorece profundidade de campo carregada, sombras duras, corredores estreitos e exteriores frios — recursos de fotografia que podem transformar a investigação em sensação física, não apenas em enredo.

Sem ver imagens finalizadas, ainda é cedo para cravar o resultado. Mas a combinação de serial killer, trauma e cidade melancólica aponta para um noir que, se bem fotografado, pode usar a arquitetura como extensão da psique de Grimes. A cidade deixa de ser pano de fundo e vira pressão constante sobre o personagem.

A terapia é o detalhe que pode tirar ‘Hyde’ do procedural comum

A terapia é o detalhe que pode tirar 'Hyde' do procedural comum

Muitos filmes sobre serial killers caem no automático: detetive brilhante, pistas sombrias, revelação final. O elemento mais promissor de ‘Hyde’, até aqui, é justamente o que ameaça quebrar essa fórmula. Bruce Greenwood interpreta Henry Monroe, o terapeuta que Grimes precisa frequentar. Isso coloca a investigação em duas frentes: descobrir quem mata e entender o que essa caça está reabrindo no próprio detetive.

Essa escolha tem potencial dramático real porque desloca o foco da pura competência policial para a vulnerabilidade. Em vez de um investigador definido apenas por método, ‘Hyde’ pode apresentar um homem cuja autoridade profissional convive com rachaduras íntimas. Em cinema, isso costuma render cenas mais fortes do que a descoberta de uma pista qualquer.

Também chama atenção a presença de Nathalie Emmanuel como a detetive Doran, designada para trabalhar com Grimes. A dinâmica entre um veterano endurecido e uma parceira que observa, contesta ou reequilibra esse desgaste é um motor clássico do gênero quando bem escrito. David Harewood, como o tenente Malloy, completa a engrenagem institucional: o chefe que tenta manter a máquina funcionando enquanto tudo ao redor parece falhar.

Esse desenho de personagens sugere um thriller interessado em hierarquia, pressão burocrática e desgaste emocional — três elementos que ajudaram ‘Mindhunter’ a parecer mais adulto do que a média. Se o roteiro souber explorar isso em cena, e não apenas como informação de sinopse, o filme Hyde terá densidade suficiente para fugir do genérico.

Holt McCallany enfim ganha um papel do tamanho da sua presença

Há algo de reparação tardia em ver McCallany liderando um projeto assim. Ao longo dos anos, ele se especializou em papéis de autoridade, homens de fala econômica e presença pesada. Mesmo quando surge por pouco tempo, costuma deixar a impressão de que existe uma biografia inteira por trás daquele rosto cansado. Nem todo ator consegue criar esse efeito; McCallany consegue quase sempre.

Seja em produções de grande estúdio ou em séries, ele pertence à linhagem de coadjuvantes que emprestam gravidade instantânea ao quadro. Por isso, colocá-lo no centro de um thriller noir sobre obsessão e trauma parece uma escolha natural. Mais do que vender dureza, ele sabe sugerir desgaste — e esse detalhe é decisivo em histórias sobre serial killers, nas quais o perigo não está só no criminoso, mas na corrosão de quem o persegue.

Para quem acompanhou seu trabalho como Bill Tench, existe ainda um prazer adicional: observar como ele pode variar um tipo de personagem que conhece bem. A expectativa com ‘Hyde’ não deveria ser a de repetir ‘Mindhunter’, mas a de oferecer uma nova inflexão para essa persona. Menos método acadêmico, talvez, e mais noir psicológico.

Vale a pena ficar de olho no filme Hyde?

Vale, sobretudo se você sentiu falta de thrillers adultos, sombrios e menos guiados por reviravolta fácil. Tudo o que foi revelado até agora indica um projeto com ingredientes corretos: um protagonista ideal, uma cidade com personalidade, um serial killer como gatilho narrativo e uma camada terapêutica que pode aprofundar o conflito.

Ao mesmo tempo, é bom calibrar a expectativa. Quem procura a precisão formal de Fincher talvez não encontre aqui o mesmo rigor de encenação ou a mesma sofisticação procedural. ‘Hyde’ parece mais promissor como herdeiro de atmosfera e tema do que como continuação estética de ‘Mindhunter’.

Para quem é recomendado: fãs de ‘Mindhunter’, noir contemporâneo, policiais melancólicos e histórias em que a investigação importa tanto quanto o desgaste do investigador. Para quem talvez não funcione: quem prefere thrillers acelerados, cheios de ação ou dependentes de grandes viradas a cada 15 minutos.

Se os irmãos Phillips conseguirem transformar essa premissa em cenas com peso, e não apenas em boas ideias de divulgação, ‘Hyde’ pode ocupar um espaço raro: o de filme que conversa diretamente com a frustração deixada por ‘Mindhunter’ sem parecer uma imitação. E, hoje, isso já é motivo suficiente para prestar atenção.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Hyde’

Sobre o que é o filme ‘Hyde’?

‘Hyde’ é um thriller noir sobre o detetive Grimes, que investiga um serial killer em uma cidade decadente enquanto é forçado a enfrentar o próprio passado em terapia.

Holt McCallany será o protagonista de ‘Hyde’?

Sim. Holt McCallany interpreta o detetive Grimes, papel central do filme, em mais um projeto ligado ao universo de crimes violentos e investigação psicológica.

‘Hyde’ tem ligação com ‘Mindhunter’?

Não. ‘Hyde’ não é continuação nem spin-off de ‘Mindhunter’. A conexão é temática e passa pela presença de Holt McCallany novamente em uma história sobre serial killers e desgaste psicológico.

Quem está no elenco de ‘Hyde’ além de Holt McCallany?

Além de McCallany, o elenco anunciado inclui Nathalie Emmanuel, Bruce Greenwood e David Harewood.

Onde ‘Hyde’ foi filmado?

‘Hyde’ foi rodado em Bucareste, na Romênia. A cidade foi escolhida por combinar com a atmosfera noir e decadente buscada pela produção.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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