Backrooms 2 pode marcar a virada definitiva de Kane Parsons de fenômeno do YouTube a autor completo da A24. Analisamos por que sua entrada no roteiro muda o futuro da franquia — e o risco de o estúdio domesticar a estranheza que fez o original funcionar.
Se alguém me dissesse, em 2022, que uma creepypasta nascida no 4chan sobre salas amarelas infinitas renderia à A24 seu maior fim de semana de estreia, eu provavelmente trataria como exagero de fórum. Mas foi o que aconteceu. ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ chegou a US$ 117,9 milhões globalmente e transformou Kane Parsons, aos 20 anos, num caso raro: um diretor que saiu do YouTube direto para o centro da indústria. Agora, a conversa sobre Backrooms 2 ganha um detalhe mais interessante que a própria confirmação da continuação: Parsons quer coescrever o roteiro.
Esse movimento importa menos como curiosidade de bastidor e mais como sinal de mudança de poder criativo. No primeiro longa, Parsons dirigia; a arquitetura dramática vinha de outro lugar. Na sequela, a ambição parece maior: não apenas filmar o pesadelo, mas definir como ele funciona.
De adolescente do YouTube a autor que quer controlar a própria mitologia
Parsons não apareceu do nada. Aos 17 anos, criou, escreveu e dirigiu a série web ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ no YouTube, transformando uma lenda digital difusa em linguagem audiovisual própria. Foram 24 episódios, de durações muito diferentes, mas com uma assinatura consistente: espaços vazios filmados como armadilhas psicológicas, ruído analógico usado como agressão sensorial e uma noção de escala que fazia corredores comuns parecerem abismos.
Essa origem é decisiva para entender por que Backrooms 2 pode ser mais do que uma continuação automática. Parsons não é apenas um jovem cineasta promovido pela internet; ele é o autor que ajudou a organizar uma mitologia que, antes dele, existia de forma fragmentada, espalhada entre imagens, fóruns e vídeos. No cinema, isso muda tudo. Quem inventa a gramática de um universo geralmente sente, mais cedo ou mais tarde, a necessidade de assumir também a sintaxe narrativa.
O que o primeiro filme acertou — e onde dava para sentir a costura industrial
No longa da A24, Parsons manteve o que já sabia fazer melhor: atmosfera. A sensação de desorientação física continuou forte, sobretudo nas sequências em que o espaço parece se dobrar sobre os personagens. A cena em que Renate Reinsve atravessa um corredor estreito, com o quadro comprimido e o som de passos reverberando como se o ambiente respirasse, é o melhor exemplo disso. Ali, a tensão não vem de susto fácil, mas do desenho do espaço: a câmera segura demais, o corredor parece longo demais, o som chega um segundo antes da imagem. É cinema de ansiedade, não de descarga.
Ao mesmo tempo, havia momentos em que o filme parecia traduzir demais um conceito que nasceu justamente do indizível. Os arcos dramáticos e certas explicações de trama tinham um ritmo mais reconhecível, quase de thriller de estúdio ou procedural televisivo. Isso não arruinou o resultado — a recepção crítica foi forte, com 88% no Rotten Tomatoes, e o público apareceu em massa —, mas criava uma fricção perceptível entre a estranheza radical da premissa e a necessidade de torná-la legível para o multiplex.
É aí que a entrada de Parsons no roteiro da continuação muda o tabuleiro. Se no primeiro filme ele foi o grande responsável por traduzir visualmente o horror do ‘não-lugar’, agora ele tenta proteger também sua lógica interna — ou, mais precisamente, sua falta de lógica domesticada.
Por que Kane Parsons no roteiro de ‘Backrooms 2’ é a notícia central
O terror de ‘Backrooms’ nunca dependeu só de monstros ou lore. Ele depende da sensação de que o espaço não obedece às regras dramáticas que o espectador aprendeu a esperar. Quando tudo fica explicável demais, a ideia perde força. Ao querer coescrever Backrooms 2, Parsons parece reconhecer isso: a ameaça à franquia não é faltar escala, e sim sobrar clareza.
Essa transição de diretor para roteirista também marca sua passagem simbólica de prodígio para autor. Em Hollywood, dirigir cedo impressiona; escrever e dirigir a própria criação é o que consolida poder. Parsons já provou que consegue construir imagens memoráveis. O passo seguinte é mostrar que consegue organizar uma narrativa longa sem neutralizar o caos que tornou sua obra original tão distinta.
Se isso acontecer, Backrooms 2 pode escapar da armadilha comum das sequências de terror contemporâneas: ampliar o universo, aumentar o orçamento e, no processo, reduzir o mistério. O melhor cenário para a A24 seria deixar Parsons radicalizar um pouco mais, não enquadrá-lo num modelo mais seguro.
A24, bilheteria recorde e o risco de domesticar a estranheza
Também é impossível analisar essa mudança sem olhar para a pressão industrial. ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ estreou com US$ 81 milhões domésticos, um número fora da curva para a A24. O estúdio, por anos associado a cinema autoral e terror de prestígio, agora administra uma propriedade com potencial de franquia grande. E franquias grandes costumam pedir mais explicação, mais exposição, mais personagens, mais regras. Nem sempre isso combina com uma ideia que funciona justamente porque parece um erro de realidade.
A presença de produtores como James Wan e Shawn Levy ajuda a entender o tamanho da operação: há interesse em transformar ‘Backrooms’ em marca expansível, talvez até além do cinema. Isso não é necessariamente ruim; pode significar recursos para um horror mais ambicioso em escala. Mas quase sempre traz a mesma pergunta: quanto da aspereza original sobrevive quando o fenômeno underground vira ativo corporativo?
Por enquanto, Backrooms 2 segue em fase inicial de desenvolvimento, sem sinal verde formal nem elenco definido. Esse detalhe importa porque mostra que ainda existe espaço para disputa criativa. E é justamente nessa etapa que a entrada de Parsons como co-roteirista pode definir se a continuação será uma expansão orgânica ou apenas uma repetição maior e mais cara.
O que esperar da sequela — e para quem essa notícia realmente importa
Comparações apressadas com outras franquias serão inevitáveis, mas o caso mais útil talvez nem esteja no terror recente. O que está em jogo aqui lembra menos a simples escalada de orçamento e mais o momento em que um criador jovem tenta impedir que sua invenção seja traduzida demais pela máquina do estúdio. Se Parsons conseguir impor sua assinatura também na escrita, a sequela pode seguir um caminho raro: ficar maior sem ficar mais convencional.
Para quem acompanhou a série original no YouTube, essa é uma notícia animadora porque sugere maior continuidade entre a obra que viralizou e o filme que vem aí. Para quem entrou agora pelo longa da A24, vale moderar a expectativa: coescrever não significa controle absoluto, e escrever um bom longa é um desafio diferente de construir atmosferas curtas e fragmentadas.
Meu palpite é claro: a melhor chance de Backrooms 2 funcionar está justamente em permitir que Kane Parsons seja menos corrigido. O primeiro filme provou que ele sabe filmar o desconforto espacial como poucos diretores de terror da sua geração. A sequela será o teste decisivo para saber se ele também consegue escrever esse desconforto sem explicá-lo até a morte. Se conseguir, não estaremos falando só de mais um hit da A24, mas da consolidação de um autor que saiu da internet e entendeu rápido demais como proteger a própria criação.
Para quem gosta de terror atmosférico, mitologia digital e filmes que tratam espaço como ameaça, a continuação merece atenção. Para quem prefere horror mais direto, com regras claras e payoff mastigado, talvez valha segurar a expectativa. O melhor ‘Backrooms’ sempre foi aquele que deixa alguma coisa fora de alcance.
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Perguntas Frequentes sobre Backrooms 2
Backrooms 2 já foi confirmado pela A24?
A continuação está em desenvolvimento, mas ainda depende das etapas formais de produção. Em termos práticos, a A24 já trabalha o projeto, embora detalhes como cronograma e elenco ainda não tenham sido fechados.
Kane Parsons vai dirigir Backrooms 2?
Tudo indica que sim, e a principal novidade é seu desejo de coescrever o roteiro. Isso ampliaria seu controle criativo em relação ao primeiro filme, no qual sua assinatura estava mais concentrada na direção.
Preciso ver a série do YouTube para entender Backrooms 2?
Provavelmente não será obrigatório, mas ver a série original ajuda a entender a estética e a lógica do universo criado por Parsons. Ela funciona quase como a forma mais pura da ideia antes da adaptação para o cinema.
Backrooms 2 deve seguir o mesmo estilo found footage?
Ainda não há confirmação oficial, mas o mais provável é que a sequência preserve parte da linguagem de registro instável e espaço subjetivo que definiu a franquia. A dúvida é o grau: pode manter a textura do found footage sem ficar presa a ela o tempo todo.
Quando Backrooms 2 estreia?
Até o momento, Backrooms 2 não tem data de estreia anunciada. Como o projeto ainda está em desenvolvimento inicial, um lançamento só deve ser definido depois da aprovação final do roteiro e do início das filmagens.

