Como ‘Vingadores: Doutor Destino’ prova que Doom é pior que Thanos

Em ‘Vingadores: Doutor Destino’, a escala da equipe revela a escala da ameaça. Analisamos por que Doom pode ser pior que Thanos, como Quarteto Fantástico e X-Men mudam o conflito, e por que a ausência de Eternos e Guardiões importa.

Lembro da sensação exata no cinema quando os portais se abriram em ‘Vingadores: Ultimato’. A montagem segura o silêncio por alguns segundos, a trilha de Alan Silvestri cresce como se estivesse puxando o público pela gola, e então Doutor Estranho convoca praticamente todos os heróis disponíveis para enfrentar Thanos. Foi o ápice do espetáculo blockbuster da Marvel. Mas há um detalhe que costuma ser esquecido pela catarse: os Vingadores, mesmo com Wakanda, Asgardianos, Mestres das Artes Místicas e Guardiões na mesma batalha, tecnicamente não venceram aquela guerra no braço. A salvação veio de um improviso desesperado com viagem no tempo, roubo das Joias do Infinito e o sacrifício de Tony Stark.

É por isso que ‘Vingadores: Doutor Destino’ soa mais ameaçador do que apenas mais um crossover gigante. Você não mede a força de um vilão só pelo tamanho do exército dele; mede pelo tamanho da coalizão necessária para contê-lo. E, se a Marvel precisa reunir Vingadores, Quarteto Fantástico, X-Men e ainda novas formações derivadas para enfrentar Victor Von Doom, a leitura é clara: Doom não está sendo tratado como um Thanos 2.0. Ele está sendo tratado como um problema estrutural para o próprio universo.

Este texto não parte da ideia de que mais personagens automaticamente significam um filme melhor. Pelo contrário: elenco inchado é uma das maiores armadilhas do MCU pós-‘Ultimato’. A questão aqui é outra. A escala da resposta revela a escala da ameaça. E, nesse sentido, ‘Vingadores: Doutor Destino’ começa a provar por que Doom pode ser pior que Thanos antes mesmo de entrar em cena.

Doom é mais perigoso porque exige os três pilares da Marvel ao mesmo tempo

Doom é mais perigoso porque exige os três pilares da Marvel ao mesmo tempo

Thanos exigiu uma aliança sem precedentes, mas a linha de frente ainda girava em torno do núcleo dos Vingadores. Os Guardiões da Galáxia eram a ponte cósmica, Wakanda funcionava como potência tecnológica terrestre, e os feiticeiros abriam o campo de batalha. Ainda assim, a gramática narrativa era simples: um exército contra outro exército, uma Manopla contra uma resistência desesperada.

Com Doom, a lógica muda. A presença dos três grandes pilares da Marvel — Vingadores, Quarteto Fantástico e X-Men — não é só fan-service. É uma declaração de gênero. Cada equipe representa uma dimensão diferente da editora: os Vingadores são a resposta institucional ao impossível; o Quarteto Fantástico é a ficção científica familiar, exploratória e arrogante; os X-Men são a política do medo, da mutação e da sobrevivência. Quando esses três sistemas precisam operar juntos, o vilão deixou de ser apenas uma ameaça física. Ele virou uma crise de realidade, ciência, poder e identidade.

A diferença para Thanos está aí. O Titã Louco queria impor uma solução brutal a um problema universal. Doom, historicamente, não quer apenas vencer. Ele quer provar que deveria governar. Nos quadrinhos, especialmente em ‘Secret Wars’ de 2015, Victor Von Doom não é assustador porque destrói mundos, mas porque os reorganiza à sua imagem. Ele não se vê como monstro. Ele se vê como o único adulto numa sala cheia de deuses incompetentes.

O Quarteto Fantástico transforma a ameaça em conflito pessoal

A entrada do Quarteto Fantástico é o sinal mais importante dessa equação. Doom não é um vilão genérico de ameaça cósmica; ele é o espelho distorcido de Reed Richards. Os dois pertencem à mesma categoria de mente, mas partem de princípios opostos. Reed acredita na exploração, no erro, na colaboração científica. Doom acredita em controle, hierarquia e genialidade como direito divino.

Isso muda tudo. Contra Thanos, os heróis enfrentavam uma ideologia simplificada: matar metade para salvar metade. Contra Doom, o conflito pode ser mais incômodo, porque ele costuma ter argumentos que parecem racionais até o momento em que viram tirania. É o tipo de vilão que não precisa convencer o público de que é bom; basta convencer parte do mundo de que é eficiente.

Essa é a função dramática do Quarteto. Sem Reed, Sue, Johnny e Ben, Doom vira só um homem de armadura com magia. Com eles, ele ganha contexto emocional, histórico e intelectual. A batalha deixa de ser apenas sobre impedir o fim do mundo e passa a ser sobre quem tem o direito de redesenhar o mundo quando tudo já está quebrado.

Os X-Men ampliam Doom para além da pancadaria

Os X-Men ampliam Doom para além da pancadaria

A presença dos X-Men é igualmente reveladora. Mutantes não entram numa história apenas para somar poderes coloridos ao quadro. Eles carregam outra camada: perseguição, medo social, controle estatal, diferença biológica e política de sobrevivência. Se Doom opera como soberano, cientista e figura messiânica, os X-Men são o grupo ideal para tensionar esse discurso.

Imagine a lógica: um governante absoluto prometendo ordem em meio ao colapso multiversal. Para humanos comuns, isso pode soar como salvação. Para mutantes, soa como o começo de mais uma máquina de controle. Essa tensão política é algo que a batalha contra Thanos nunca teve de verdade. Em ‘Guerra Infinita’ e ‘Ultimato’, a questão era existir ou desaparecer. Com Doom, a pergunta pode ser pior: existir sob quais condições?

É aqui que ‘Vingadores: Doutor Destino’ tem chance de ser mais interessante do que uma repetição de ‘Ultimato’. A Marvel não precisa fazer uma batalha maior. Precisa fazer uma batalha mais ideológica. Se Doom for apenas um vilão que lança raios verdes enquanto heróis fazem poses em câmera lenta, a oportunidade será perdida. Mas se ele for tratado como alguém capaz de seduzir governos, manipular realidades e explorar traumas de cada equipe, aí sim teremos um antagonista à altura.

A ausência dos Eternos é uma lacuna que a Marvel precisa explicar

É aqui que a cabeça de quem acompanha a mitologia começa a coçar. Se Doom representa uma ameaça à realidade, onde estão os Eternos? O filme de 2021 apresentou esses personagens como seres imortais ligados diretamente aos Celestiais, com uma função cósmica que atravessa milênios. A cena em que Arishem surge no céu e arranca Sersi, Kingo e Phastos da Terra não é pequena. Visualmente, é uma das imagens mais agressivas do MCU recente: um deus espacial literalmente julgando o planeta.

Por isso a ausência deles em uma crise multiversal seria difícil de engolir sem explicação. Se os Eternos foram criados para interferir em ameaças planetárias e se relacionam com entidades de escala cósmica, Doom deveria estar no radar. A Marvel pode justificar isso de algumas formas: Arishem pode estar segurando os Eternos fora do tabuleiro; a ameaça de Doom pode ser mais mística e dimensional do que celestial; ou a própria franquia dos Eternos pode ter sido deixada em suspensão por razões industriais, não narrativas.

A terceira opção é a mais perigosa. Quando o universo compartilhado ignora peças que ele mesmo colocou no tabuleiro, o público percebe. E ‘Vingadores: Doutor Destino’ não pode se dar ao luxo de parecer uma reunião seletiva feita apenas por conveniência de agenda. Se os Eternos não aparecerem, a ausência precisa ser transformada em informação, não em esquecimento.

O silêncio dos novos Guardiões indica que a ameaça não é só cósmica

O silêncio dos novos Guardiões indica que a ameaça não é só cósmica

A outra ausência incômoda é a nova formação dos Guardiões da Galáxia. No fim de ‘Guardiões da Galáxia: Vol. 3’, Rocket assume a liderança de uma equipe em Knowhere, com Groot, Kraglin, Cosmo, Adam Warlock, Phyla e Blurp. A cena tem tom de encerramento, mas também de passagem de bastão. O espaço não ficou vazio depois da despedida de Peter Quill.

Em ‘Guerra Infinita’, os Guardiões eram essenciais porque Thanos era uma ameaça cósmica em deslocamento físico. Ele passava por naves, planetas, colecionadores, forjas estelares. O conflito tinha mapa. Se os novos Guardiões ficam fora de ‘Vingadores: Doutor Destino’, isso sugere que Doom não será combatido como invasor espacial tradicional. Ele pode estar agindo em camadas mais abstratas: linhas temporais, realidades colapsadas, universos remendados, talvez até uma versão cinematográfica do Mundo Bélico de ‘Secret Wars’.

Essa ausência, portanto, pode ser uma pista. Rocket e sua equipe seriam úteis contra uma frota, um império ou uma criatura cósmica. Contra Doom manipulando a arquitetura da realidade, talvez o arsenal mais importante não esteja em Knowhere, mas em Reed Richards, nos mutantes e nos poucos heróis capazes de compreender anomalias multiversais. Ainda assim, a pergunta permanece: se o universo está em risco, por que o espaço não responde?

Robert Downey Jr. como Doom só funciona se o filme não tratar isso como piada

O retorno de Robert Downey Jr. ao MCU como Victor Von Doom é uma escolha explosiva porque carrega uma sombra inevitável: Tony Stark. A Marvel pode usar essa semelhança como ruído metalinguístico ou como tragédia. A segunda opção é muito mais interessante.

Se Doom for apenas uma provocação visual ao legado do Homem de Ferro, o filme corre o risco de diminuir o vilão. Mas se a escalação for usada para contaminar emocionalmente os heróis — especialmente aqueles que ainda veem Tony como símbolo de sacrifício —, Doom ganha uma arma psicológica antes mesmo de erguer a mão. A imagem de um rosto familiar por trás de uma ética oposta pode ser devastadora.

Doom precisa ser tratado como Victor Von Doom, não como Tony Stark com capa. A armadura, a ciência e a arrogância são pontos de contato, mas a alma do personagem é outra. Tony era um homem tentando compensar o dano que causou. Doom é um homem convencido de que o mundo seria salvo se todos aceitassem sua superioridade.

Por que Doom pode ser pior que Thanos

Thanos venceu porque reuniu as Joias do Infinito. Doom é mais perigoso porque, em suas melhores histórias, ele não precisa apenas de uma arma: ele transforma conhecimento, magia, política e trauma em sistema de governo. Thanos elimina. Doom administra. E isso é mais assustador para uma saga que já brinca com multiverso, variantes e realidades quebradas.

A formação de ‘Vingadores: Doutor Destino’ indica que a Marvel entendeu uma coisa fundamental: depois de Thanos, não basta aumentar a escala. É preciso mudar a natureza da ameaça. Socos, portais e exércitos já não bastam. Contra Doom, a guerra precisa ser de intelecto, legitimidade, manipulação e controle da realidade.

O filme será um teste de fogo para a coesão do MCU. Se justificar as ausências dos Eternos e dos novos Guardiões, se usar Quarteto e X-Men como forças dramáticas reais, e se tratar Doom como uma ideia perigosa — não apenas como um vilão poderoso —, a Marvel pode finalmente encontrar um antagonista capaz de superar Thanos. Não por matar mais gente. Mas por oferecer algo pior: uma ordem sedutora o bastante para fazer o caos parecer escolha.

Para quem acompanha o MCU só pelos grandes eventos, ‘Vingadores: Doutor Destino’ deve funcionar como espetáculo. Mas o filme parece mirar especialmente quem conhece o peso de Doom nos quadrinhos e entende que sua ameaça nunca foi apenas física. Quem espera outro ‘Ultimato’ talvez se frustre. Quem espera uma versão mais política, científica e sombria de ‘Secret Wars’ tem motivo para prestar atenção.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Vingadores: Doutor Destino’

Quando estreia ‘Vingadores: Doutor Destino’?

‘Vingadores: Doutor Destino’ tem estreia prevista para dezembro de 2026 nos Estados Unidos. A data brasileira pode variar conforme o calendário da Disney no país.

Robert Downey Jr. será o Doutor Destino?

Sim. Robert Downey Jr. foi anunciado pela Marvel como Victor Von Doom, o Doutor Destino. A grande dúvida é se o filme tratará o personagem como uma variante ligada a Tony Stark ou como uma versão independente de Doom.

Preciso assistir ao filme do Quarteto Fantástico antes?

Provavelmente sim. Como Doom é historicamente ligado ao Quarteto Fantástico, entender Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm deve ajudar a acompanhar o peso pessoal do conflito.

Os Eternos aparecem em ‘Vingadores: Doutor Destino’?

Até agora, não há confirmação sólida de que os Eternos terão papel importante no filme. A ausência chama atenção porque os personagens estão ligados a ameaças cósmicas e aos Celestiais.

‘Vingadores: Doutor Destino’ é continuação direta de ‘Vingadores: Ultimato’?

Não exatamente. O filme continua o MCU depois de ‘Ultimato’, mas deve funcionar mais como culminação da Saga do Multiverso, conectando Vingadores, Quarteto Fantástico, X-Men e possíveis elementos de ‘Secret Wars’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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