‘John Rambo IV’ troca Stallone por Noah Centineo e volta ao Vietnã para explicar a origem do trauma. Analisamos por que o recasting pode ser necessário, o papel de David Harbour e como um cameo de Stallone poderia fechar o ciclo.
Há 50 anos, Sylvester Stallone tinha pouco mais de 100 dólares na conta e recusou vender o roteiro de ‘Rocky: Um Lutador’ se outro ator ficasse com o papel principal. O estúdio queria um nome seguro; ele queria apostar no próprio rosto. A teimosia deu origem a uma das imagens mais fortes do cinema popular americano. Por isso, a prequela ‘John Rambo IV’ carrega um peso que vai além de escalação: pela primeira vez em mais de quatro décadas, Rambo deixa de ser o corpo de Stallone para voltar a ser um personagem.
A troca soa quase como heresia pop. Rambo não é apenas um veterano armado; ele é a síntese de uma era em que Hollywood transformou trauma, masculinidade ferida e paranoia nacional em espetáculo de ação. Mas a franquia chegou a um beco sem saída. Depois de ‘Rambo: Até o Fim’ em 2019, que reduziu um personagem nascido do estresse pós-guerra a uma fantasia de vingança brutal e rasa, insistir no presente seria apenas prolongar a decadência. O recasting, aqui, não parece oportunismo. Parece a única forma de devolver sentido ao mito.
Por que trocar Stallone é menos traição do que parece
Hollywood vive a tentação de ressuscitar corpos antigos com de-aging, inteligência artificial e maquiagem digital. O próprio Stallone já havia flertado publicamente com a ideia de interpretar um Rambo jovem em uma história do Vietnã. Seria um erro. O rosto até pode ser suavizado por pixels, mas a postura, o peso do movimento e o olhar denunciam o tempo. O resultado costuma ser menos juventude e mais fantasma.
A escolha por Noah Centineo, portanto, é mais interessante justamente porque rompe com a iconografia muscular de Stallone. Centineo não carrega o físico de aço que o público associa aos anos 1980, nem aquele olhar petrificado de quem já voltou de guerras demais. E essa ausência é útil. O Rambo que chega ao Vietnã ainda não é a arma humana de ‘Rambo: Programado Para Matar’. Ele é um garoto de origem rural, moldado por uma ideia ingênua de dever, país e obediência. A vulnerabilidade de Centineo pode ser o ponto de partida para mostrar não o herói pronto, mas a lenta fabricação de um sobrevivente danificado.
O Vietnã justifica a prequela melhor do que qualquer reboot
A franquia sempre falou do Vietnã como ferida, mas raramente encarou a origem dessa ferida com calma. Em ‘Rambo: Programado Para Matar’, de Ted Kotcheff, o trauma aparece no corpo do personagem: no modo como ele reage a uma abordagem policial banal, no surto dentro da delegacia, na explosão emocional do monólogo final diante de Trautman. A cena funciona porque Rambo deixa de ser ameaça e vira sintoma. Ele não está atacando a cidade; está revivendo a guerra dentro dela.
Uma prequela ambientada no Vietnã só se justifica se entender isso. O interesse não deve estar em mostrar como Rambo aprendeu a matar melhor, mas em como aprendeu a sobreviver desligando partes de si mesmo. A Baker Team, unidade comandada pelo Coronel Trautman e citada como mitologia de fundo nos filmes anteriores, oferece esse caminho. Se o roteiro apresentar esses soldados como homens concretos, e não apenas futuros cadáveres, o filme pode trocar a lógica do herói invencível pela tragédia de um pelotão condenado.
Há uma diferença enorme entre mostrar batalhas e mostrar desgaste. O melhor caminho visual para ‘John Rambo IV’ não seria a guerra limpa de estúdio, com explosões coreografadas e selva plastificada, mas uma abordagem mais suja: som abafado, respiração pesada, chuva constante, montagem que confunda orientação espacial e câmera próxima demais dos corpos. O Vietnã de Rambo precisa parecer menos cenário de ação e mais moedor psicológico.
Jalmari Helander pode ser a escolha certa se controlar o excesso
A presença de Jalmari Helander na direção é um dado curioso. Em ‘Sisu’, ele mostrou habilidade para transformar violência em fábula brutal, quase cartunesca, com um senso de impacto seco e humor negro. Esse instinto pode funcionar em Rambo, mas também é o maior risco. A origem do personagem não pede apenas brutalidade estilizada; pede consequência.
O primeiro ‘Rambo’ era, antes de tudo, um drama sobre um veterano incapaz de voltar para casa. Só depois a franquia se tornou vitrine de músculos, metralhadoras e geopolítica simplificada. Se Helander entender essa diferença, a prequela pode recuperar a aspereza do filme de 1982. Se tentar apenas filmar um ‘Sisu’ no Vietnã, corre o risco de transformar trauma em gimmick.
David Harbour e o peso de reinventar Trautman
Substituir Stallone chama mais atenção, mas reimaginar o Coronel Samuel Trautman talvez seja o desafio mais delicado. Richard Crenna fez de Trautman a única pessoa capaz de olhar para Rambo sem enxergar apenas um monstro. Ele era pai substituto, comandante e cúmplice. Entendia a brutalidade do soldado porque ajudou a construí-la.
David Harbour tem presença física e autoridade para assumir esse espaço, mas o papel exige mais do que voz grave e postura militar. Trautman precisa ser sedutor na mesma medida em que é perigoso. Ele deve convencer um jovem recruta de que quebrar a própria humanidade é uma forma de honra. A química entre Harbour e Centineo será decisiva porque o centro emocional do filme está aí: não na primeira morte de Rambo, mas no momento em que ele percebe que seu mentor o ama como soldado, não necessariamente como homem.
Há ainda uma ironia histórica importante. Kirk Douglas chegou a ser escalado como Trautman em ‘Rambo: Programado Para Matar’, mas deixou a produção após discordar do final. Crenna entrou e acabou definindo o papel. Agora, Harbour enfrenta o mesmo tipo de herança: não basta imitar a autoridade de Crenna, é preciso mostrar o Trautman anterior, aquele que ainda acredita que pode transformar jovens em instrumentos sem pagar o preço moral por isso.
O possível cameo de Stallone precisa ser despedida, não fan service
Quando o projeto começou a circular, Stallone não parecia envolvido. Isso até fazia sentido: a prequela precisava de liberdade para existir sem a sombra constante do astro. Mas sua entrada como produtor executivo em 2026 muda a leitura. Em Hollywood, esse crédito pode ser apenas formal, mas Stallone nunca foi um nome passivo quando o assunto envolve Rocky ou Rambo. Sua presença sugere ao menos uma bênção criativa.
O caminho mais elegante seria um cameo de moldura, não uma participação gratuita. Um Rambo envelhecido poderia surgir em flashforwards, encarando memórias do Vietnã como quem revisita um crime íntimo. Não para explicar demais, nem para entregar a bandana em cena calculada para aplauso fácil, mas para fechar uma ferida que ‘Rambo: Até o Fim’ deixou aberta. Depois daquele epílogo amargo e desajeitado, Stallone merece uma despedida menos barulhenta e mais introspectiva.
O cuidado aqui é essencial. Se o cameo existir apenas para arrancar nostalgia, será um erro. Se funcionar como contraponto entre o garoto que acreditava na guerra e o velho que sobreviveu a ela, pode transformar a prequela em algo mais raro: uma passagem de bastão com sentido dramático.
O risco necessário para manter Rambo vivo
A verdade incômoda é que Rambo não sobreviveria a mais uma continuação convencional. Um novo filme no presente teria de escolher entre envelhecer o personagem com honestidade ou fingir que ele ainda pertence ao mesmo tipo de ação que dominou nos anos 1980. A primeira opção já foi mal explorada. A segunda seria caricatura.
Ao voltar ao Vietnã, ‘John Rambo IV’ encontra a única pergunta que ainda importa: como um homem se torna Rambo? Se a resposta for apenas treinamento, tiros e facas, o filme fracassa. Se a resposta envolver perda, manipulação, culpa e desumanização progressiva, a troca de Stallone por Noah Centineo deixará de parecer sacrilégio e passará a parecer método.
Eu ainda preferia que tivessem deixado o personagem descansar. Mas, se a franquia insiste em marchar outra vez para a guerra, que ao menos volte ao lugar onde sua dor começou. Não para glorificar o nascimento do monstro, e sim para mostrar o custo de tê-lo criado.
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Perguntas Frequentes sobre ‘John Rambo IV’
‘John Rambo IV’ é continuação ou prequela?
‘John Rambo IV’ é tratado como uma prequela ambientada no período da Guerra do Vietnã. A ideia é mostrar a formação de John Rambo antes dos eventos de ‘Rambo: Programado Para Matar’.
Sylvester Stallone vai interpretar Rambo no novo filme?
Não como protagonista jovem. Noah Centineo foi escalado para viver o Rambo da prequela, enquanto Stallone entrou como produtor executivo e pode aparecer em uma participação especial, caso o roteiro use uma estrutura de flashforward.
Quem interpreta o Coronel Trautman em ‘John Rambo IV’?
David Harbour assume a nova versão do Coronel Samuel Trautman, papel vivido por Richard Crenna nos três primeiros filmes da franquia. A função de Trautman deve ser central para mostrar a transformação de Rambo em soldado de elite.
Preciso assistir aos filmes anteriores de Rambo antes da prequela?
Não deve ser obrigatório, já que a história se passa antes do primeiro filme. Ainda assim, assistir a ‘Rambo: Programado Para Matar’ ajuda a entender o trauma, a relação com Trautman e o impacto emocional da origem do personagem.
Quando ‘John Rambo IV’ estreia?
Até o momento, não há data de estreia confirmada. Como o projeto ainda depende de cronograma de produção e distribuição, a previsão oficial deve ser divulgada apenas quando as filmagens avançarem.

