‘Boardwalk Empire’: a herança de ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Peaky Blinders’

Boardwalk Empire é mais do que uma série de gângster: é um retrato de como crime e política se alimentam. Analisamos por que a HBO troca o glamour de anti-heróis pela frieza histórica e onde ela se aproxima de ‘O Poderoso Chefão’ e se distancia de ‘Peaky Blinders’.

Boardwalk Empire parte de uma ideia que muitas séries de gângster evitam: poder não precisa ser sedutor para ser fascinante. Se Família Soprano nos levava para dentro da intimidade de Tony Soprano e Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas transformava Tommy Shelby em lenda pop, a criação de Terence Winter escolhe outro caminho. Ela observa o crime como extensão direta da política, da máquina pública e do oportunismo americano. Por isso, em vez de mitificar seus anti-heróis, a série os expõe.

É daí que vem sua força. Ao herdar a lógica institucional de O Poderoso Chefão e rejeitar o glamour que tantas obras atribuem ao gangsterismo, Boardwalk Empire se diferencia justamente por trocar o drama psicológico suburbano por maquinações históricas. O centro não é a alma ferida de um chefão: é a engrenagem que permite que ele exista.

Por que ‘Boardwalk Empire’ olha para o poder de um jeito mais político que ‘Família Soprano’

Por que 'Boardwalk Empire' olha para o poder de um jeito mais político que 'Família Soprano'

Em Família Soprano, David Chase usava a terapia, a família e a rotina suburbana para humanizar Tony sem absolver sua violência. Era uma série sobre contradição íntima. Boardwalk Empire, embora também venha da HBO e tenha Terence Winter como elo criativo, muda o eixo da pergunta. Em vez de ‘como um homem desses vive consigo mesmo?’, ela pergunta ‘que tipo de país produz e recompensa homens assim?’.

Nucky Thompson não opera à margem do sistema. Ele é o sistema em Atlantic City. Como tesoureiro do condado, distribui favores, compra lealdades, manipula eleições e transforma a Lei Seca em oportunidade de negócio. A série acerta em cheio ao mostrar que crime e Estado não aparecem como forças opostas, mas como parceiros ocasionais com interesses convergentes.

Esse é o ponto em que a herança de O Poderoso Chefão aparece com mais clareza. Coppola já tratava a máfia como estrutura empresarial e dinastia política; Boardwalk Empire desloca essa lógica para a esfera pública, quase burocrática. O crime não se esconde apenas em restaurantes escuros e reuniões privadas: ele passa por gabinete, campanha, sindicato, polícia e voto. É menos uma saga de família e mais um mapa de contaminação institucional.

A herança de ‘O Poderoso Chefão’ está menos na máfia e mais na estrutura

A comparação com O Poderoso Chefão faz sentido, mas não porque Boardwalk Empire tente reproduzir a aura operística dos Corleone. O parentesco está na percepção de que poder é administração, cálculo e sucessão. Nucky não impõe respeito pela força física nem pelo romantismo da honra antiga. Seu domínio vem da capacidade de negociar com empresários, xerifes, juízes e criminosos sem nunca separar totalmente um campo do outro.

Há uma cena que resume isso com precisão: no piloto dirigido por Martin Scorsese, Nucky circula entre elites políticas, benfeitores e figuras do submundo com a mesma naturalidade com que atravessa o calçadão de Atlantic City. O luxo do ambiente, os discursos públicos e a cordialidade social funcionam como verniz para uma ordem construída sobre propina, chantagem e violência. A sequência já deixa claro que a série não vai tratar o gangster como um fora da lei romântico, e sim como produto refinado da própria América.

Esse desenho ganha força porque a reconstrução de época não vira mero ornamento. Figurino, direção de arte e locações ajudam a explicar a lógica do poder. Atlantic City parece um palco de prosperidade, mas a mise-en-scène insiste em mostrar bastidores, corredores, salões e escritórios onde acordos são fechados longe do espetáculo público. O visual não existe só para impressionar: ele dramatiza a proximidade entre festa, capital e corrupção.

Ao contrário de ‘Peaky Blinders’, a violência aqui não vira pose

Ao contrário de 'Peaky Blinders', a violência aqui não vira pose

Se a comparação com O Poderoso Chefão passa pela estrutura, a aproximação com Peaky Blinders: Sangue, Apostas e Navalhas ajuda a entender a diferença de tom. A série estrelada por Cillian Murphy construiu um universo de coolness calculada: câmera lenta, figurino icônico, trilha pop e uma encenação que muitas vezes transforma brutalidade em imagem de marca. Boardwalk Empire faz quase o oposto.

A violência em Boardwalk Empire costuma ser seca, abrupta e humilhante. Ela não organiza catarse; desorganiza. Um dos melhores exemplos está na execução de Jimmy Darmody ao fim da segunda temporada. A cena não é tratada como clímax heroico nem como duelo entre iguais. O peso está na frieza da decisão, no silêncio, no reconhecimento de que aquela morte reorganiza todo o mundo moral da série. Não há triunfo ali, só decomposição.

Esse tratamento também depende da forma. A montagem evita transformar assassinatos em set pieces celebratórios, e o desenho de som privilegia impacto físico em vez de euforia. Tiros soam duros, corpos caem sem glamour, e os silêncios depois da violência importam tanto quanto o ato em si. É um detalhe técnico decisivo: a série entende que a consequência assusta mais do que a pose.

Por isso, quando comparamos Boardwalk Empire a Peaky Blinders, a diferença principal não está apenas no figurino ou no ritmo, mas na ética da encenação. Uma frequentemente estiliza o gangster como mito moderno; a outra insiste em lembrá-lo como operador de miséria histórica.

Steve Buscemi é a escolha perfeita porque Nucky nunca foi feito para ser mito

Escalar Steve Buscemi como Nucky Thompson foi uma decisão central para o projeto funcionar. Em outra série, o papel talvez fosse entregue a um ator de presença física mais óbvia, alguém capaz de impor autoridade só ao entrar no quadro. Buscemi oferece outra coisa: inteligência nervosa, fragilidade calculada e um rosto que parece sempre revelar desgaste antes de poder. Isso impede que Nucky vire lenda antes da hora.

É justamente aí que Boardwalk Empire se afasta da tradição de anti-heróis carismáticos. Nucky é persuasivo, às vezes até encantador, mas a série jamais o fotografa como ícone redentor. Conforme a história avança, suas escolhas ficam mais mesquinhas, mais cruéis e menos defensáveis. E o roteiro não tenta anestesiar esse processo com desculpas psicológicas em excesso. Há contexto, mas não há absolvição.

Esse movimento fica ainda mais forte porque a série cerca Nucky de figuras historicamente maiores que a vida, como Al Capone, Lucky Luciano e Arnold Rothstein, sem entregar a elas o tratamento de rockstars. Mesmo quando aparecem personagens naturalmente lendários, a narrativa os reintegra ao tabuleiro econômico e político da época. O crime organizado não surge como folclore sedutor, mas como método de ocupação de poder durante a transformação americana do início do século XX.

O que faz a série ser tão consistente do começo ao fim

Falar em consistência, no caso de Boardwalk Empire, não é elogiar apenas regularidade técnica. É reconhecer uma disciplina rara: a série sabe exatamente o que quer dizer sobre poder e nunca trai essa visão para agradar o espectador. Mesmo quando amplia o escopo, muda alianças e introduz novas facções, ela mantém o mesmo princípio dramático: toda ascensão cobra um preço moral, e a história americana costuma apresentar a conta tarde demais.

Há consistência também na maneira como cada temporada reequilibra o tabuleiro sem perder o núcleo. Jimmy Darmody, Chalky White, Gillian Darmody, Richard Harrow e depois as figuras ligadas à expansão nacional do crime não entram apenas para diversificar trama. Cada um encarna uma face do mesmo ecossistema: veteranos destruídos, oportunistas elegantes, sobreviventes perversos, homens racializados negociando espaço dentro de uma hierarquia brutal. A série cresce para os lados sem diluir seu centro.

Outro ponto pouco lembrado é o cuidado formal. A direção de arte e o figurino são frequentemente celebrados, com razão, mas a consistência vem também da fotografia de tons amadeirados e frios, que evita tanto o brilho nostálgico quanto a sujeira caricatural. Atlantic City parece viva, porém sempre corroída. Essa textura visual reforça a ideia de um país vendendo prosperidade enquanto apodrece por dentro.

O desfecho da série confirma essa integridade. Em vez de oferecer redenção confortável ou uma coroação trágica em chave operística, Boardwalk Empire fecha o arco de Nucky de forma coerente com tudo o que vinha construindo. O impacto não está em um choque gratuito, mas na percepção de inevitabilidade histórica e moral. Quando termina, a sensação não é de exaltação. É de esvaziamento.

Vale a pena ver ‘Boardwalk Empire’ hoje?

Vale, sobretudo para quem gosta de séries que tratam crime como estrutura social e não como fantasia de poder. Se você procura a intimidade psicológica de Família Soprano, talvez sinta falta de uma relação mais calorosa com o protagonista. Se quer a estilização pop e a energia quase mitológica de Peaky Blinders, talvez ache o ritmo mais sóbrio e menos sedutor. Mas, para quem busca uma série de época que entenda o gangsterismo como braço informal da política americana, Boardwalk Empire continua uma das obras mais consistentes da HBO.

No fim, a herança de O Poderoso Chefão e Peaky Blinders ajuda a localizar a série, mas não a define por completo. Boardwalk Empire é melhor quando recusa o glamour de ambos e insiste em algo mais incômodo: impérios criminosos não nascem apenas da ambição individual, e sim da cumplicidade entre capital, Estado e espetáculo. É isso que a torna menos sedutora que seus pares e, ao mesmo tempo, mais difícil de esquecer.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Boardwalk Empire’

Onde assistir ‘Boardwalk Empire’ no Brasil?

‘Boardwalk Empire’ costuma estar disponível no catálogo da Max, plataforma que reúne séries da HBO. Como licenciamento pode mudar, vale checar a busca do serviço antes de assinar.

Quantas temporadas tem ‘Boardwalk Empire’?

‘Boardwalk Empire’ tem 5 temporadas, exibidas entre 2010 e 2014. Ao todo, a série soma 56 episódios.

‘Boardwalk Empire’ é baseada em história real?

Parcialmente. A série se inspira no livro Boardwalk Empire: The Birth, High Times, and Corruption of Atlantic City, de Nelson Johnson, e mistura personagens fictícios com figuras históricas reais, como Al Capone, Lucky Luciano e Arnold Rothstein.

Precisa gostar de ‘Família Soprano’ ou ‘Peaky Blinders’ para curtir ‘Boardwalk Empire’?

Não. Embora haja pontos de contato, ‘Boardwalk Empire’ funciona muito bem sozinha. Ela é mais histórica e política que ‘Família Soprano’ e bem menos estilizada que ‘Peaky Blinders’.

‘Boardwalk Empire’ tem final fechado?

Sim. A série termina com um desfecho conclusivo para Nucky Thompson e para seu arco de poder, sem depender de continuação ou spin-off para fazer sentido.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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