Em The Testaments ep 9, o assassinato de Dr. Grove não é simples rebeldia: é o encontro entre doutrinação e amor obsessivo por Agnes. A análise mostra por que a ‘justiça divina’ de Becka expõe a hipocrisia de Gilead.
No The Testaments ep 9, Becka mata Dr. Grove, e a cena é mais perturbadora justamente porque não funciona como catarse simples. Seria fácil ler o gesto como rebeldia contra Gilead, quase um acerto de contas feminista. O episódio, porém, é mais cruel do que isso. Becka não age contra a lógica do regime: ela a leva às últimas consequências. O assassinato nasce do encontro entre duas forças que a série vinha preparando com cuidado — o condicionamento brutal de Gilead e o amor protetor que ela sente por Agnes.
É esse choque que torna a personagem tão trágica. Becka não se percebe como alguém rompendo uma ordem injusta; ela acredita estar aplicando a mesma ‘justiça divina’ que ouviu a vida inteira. A diferença é que, desta vez, o alvo não é um inimigo abstrato, mas um homem poderoso que o próprio sistema preferiria preservar.
Becka não quebra a doutrina de Gilead — ela a aplica até o fim
Para entender o crime, é preciso voltar à pedagogia do terror que molda essas meninas. Gilead nunca ensina ética; ensina punição. Desde cedo, Becka aprende que a impureza sexual deve ser respondida com morte exemplar, com corpos expostos como lição moral e medo transformado em catecismo. A série deixa claro que esse tipo de formação não cria justiça: cria fanáticos funcionais.
Por isso, quando Becka conclui que Dr. Grove violentou Agnes, a reação dela não passa primeiro por dúvida, luto ou elaboração. Passa por sentença. Na lógica distorcida que ela internalizou, homens que violam meninas merecem morrer. O mais devastador é que o episódio não trata isso como libertação, mas como evidência de um dano psicológico profundo. Becka virou a arma perfeita de um sistema que finge proteger mulheres enquanto organiza a violência contra elas.
Há um detalhe importante aqui: a força da cena está em mostrar que Becka não mata apesar da doutrinação, mas por causa dela. O regime construiu nela a ideia de que violência pode ser moral se vier revestida de linguagem sagrada. Quando o alvo passa a ser um Comandante, a hipocrisia de Gilead aparece sem filtro.
O jantar com a família Grove é a cena em que a verdade se torna impossível de negar
A virada psicológica de Becka não surge do nada. Ela é preparada numa das melhores cenas do episódio: o jantar em que as tensões deixam de circular como suspeita e se tornam percepção concreta. A força dramática do momento está menos no que é dito do que no que não é dito.
Quando Daisy acusa o Comandante, Becka reage de modo defensivo. À primeira vista, parece negação cega ou lealdade ao patriarca. Mas a cena sugere algo mais específico: ela teme que aquele confronto destrua o único arranjo emocional em que ainda consegue existir, sua proximidade com Agnes. A acusação ameaça seu mundo antes mesmo de ameaçar sua fé.
O ponto de ruptura vem quando Agnes confirma a verdade e Dr. Grove tenta se defender dizendo que ‘nunca tocou na Pearl Girl’. A frase é calculada, e exatamente por isso é condenatória. Ele escolhe negar uma acusação específica, mas deixa intacto o núcleo do horror. Não nega Agnes. Não a nomeia. Não enfrenta o que fez. O silêncio em torno dessa omissão é o instante em que Becka entende tudo.
É uma escolha de escrita e atuação muito precisa. Em vez de um grande discurso explicativo, o episódio confia na pausa, no constrangimento, na maneira como a linguagem falha diante do abuso quando todos na mesa já sabem a verdade. Becka percebe que o monstro não é uma abstração teológica de Gilead. Ele está ali, sentado à cabeceira, protegido por cargo, liturgia e poder doméstico.
O amor por Agnes é o que transforma crença em ação
Se Becka fosse apenas produto da doutrina, o assassinato já seria suficientemente trágico. Mas o episódio ganha espessura justamente porque o afeto complica tudo. O vínculo dela com Agnes — feito de devoção, dependência emocional e um desejo que Gilead jamais permitiria nomear livremente — é o motor que converte dogma em gesto concreto.
Ela não mata Dr. Grove só porque acredita que pecadores devem ser punidos. Mata porque Agnes é a pessoa em torno da qual sua vida emocional se organiza. Isso muda a natureza da cena. O crime vira, na cabeça de Becka, uma forma de cuidado. Uma forma pervertida, terrível, moldada pela violência patriarcal que a série denuncia, mas ainda assim cuidado.
Esse é o centro da dualidade psicológica da personagem: seu impulso mais humano passa por uma linguagem aprendida com o opressor. Em vez de conseguir proteger Agnes por fuga, denúncia ou solidariedade aberta, Becka recorre ao instrumento que Gilead colocou em suas mãos: punição absoluta. É amor traduzido pelo vocabulário da crueldade.
A própria relação dela com o futuro que imagina confirma isso. Escolhas que poderiam parecer pragmáticas ou românticas se reorganizam ao redor de Agnes. Becka quer permanecer perto dela, orbitá-la, existir num raio em que ainda possa vê-la e, se necessário, defendê-la. Seu centro moral já não é Gilead. É Agnes. O problema é que ela só sabe agir com as ferramentas que Gilead lhe ensinou.
A traição de Agnes dói mais porque Becka não consegue deixar de amá-la
Depois do assassinato, o episódio desfere o golpe final: Agnes a entrega aos Olhos. Dramaticamente, a decisão evita simplificações. Não há saída limpa, nem recompensa por sacrifício. Em Gilead, até os gestos feitos em nome do amor retornam como condenação.
O mais triste é que Becka não parece ter estrutura psíquica para transformar isso em raiva plena. Ela sente a traição, claro, mas não reorganiza sua dor como ressentimento. O amor permanece. E é justamente essa permanência que a destrói. A série entende que certas devoções sobrevivem até à evidência de que não serão correspondidas do modo esperado.
Essa devastação também ganha peso no corpo da performance. Segundo relatos de bastidor de Mattea Conforti, a cena em que Becka é arrastada exigiu longas horas de filmagem e um desgaste físico real, a ponto de a atriz perder a voz após tantos gritos. O dado importa porque ajuda a explicar a textura da sequência na tela: o colapso de Becka não parece coreografado para impacto fácil, mas exaustivo, quase humilhante. O corpo da personagem vira extensão visível de tudo o que Gilead consome.
É aí que a ‘traição’ de Agnes ganha sentido mais amargo. Ela não é apenas uma punhalada íntima; é a prova de que o regime conseguiu sequestrar até a possibilidade de confiança entre vítimas. Gilead não destrói só corpos. Destrói a capacidade de amar sem medo e de proteger sem delatar.
Por que a morte de Dr. Grove revela a hipocrisia central de Gilead
O episódio funciona tão bem porque transforma Becka em sintoma do sistema. Gilead prega pureza, castigo e moralidade divina, mas depende de que essas palavras jamais sejam aplicadas aos homens que mandam. Quando uma garota educada nessa fé decide levá-la a sério, o regime reage não com coerência, mas com autopreservação.
Esse é o ponto mais forte de ‘The Testaments’ aqui, e também o que diferencia o episódio dentro da tradição de distopias televisivas: a série não mostra apenas a crueldade do poder; mostra sua inconsistência estrutural. Dr. Grove representa o tipo de homem que Gilead publicamente condena e privadamente protege. Becka, por sua vez, expõe esse curto-circuito ao agir como discípula exemplar.
Em termos de encenação, o episódio reforça isso com sobriedade. Não há glamour na violência. A montagem não trata o assassinato como triunfo operístico, e o peso da cena vem mais da consequência moral do que de choque gráfico. Essa contenção é acertada. Ela impede que a série transforme Becka em heroína de justiça instantânea e preserva a ambiguidade trágica que a personagem exige.
No fim, Becka é destruída porque acreditou demais. Acreditou na retórica sagrada, acreditou na necessidade de proteger Agnes, acreditou que havia algum espaço para verdade dentro de um sistema construído sobre hipocrisia. The Testaments ep 9 deixa claro que sua ‘justiça divina’ não é libertação, mas a prova mais dolorosa de que Gilead fabrica vítimas capazes de reproduzir a própria violência. Para quem acompanha a série pelo estudo psicológico das personagens, este é um dos episódios mais fortes. Para quem procura vingança limpa ou resolução confortadora, provavelmente será também um dos mais devastadores.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘The Testaments’ ep 9
O que Becka faz em ‘The Testaments’ ep 9?
Becka mata Dr. Grove no episódio 9. A ação acontece depois que ela entende a dimensão do abuso envolvendo Agnes e passa a enxergar o crime como uma forma de ‘justiça divina’.
Por que Becka mata Dr. Grove?
Ela o mata por uma combinação de doutrinação religiosa e impulso de proteção por Agnes. Becka age como se estivesse cumprindo a moral de Gilead, mas também tenta salvar a pessoa que mais ama.
Agnes trai Becka em ‘The Testaments’?
Sim. Agnes a entrega aos Olhos, e essa decisão sela o destino de Becka. O gesto é tratado pela série como uma tragédia íntima, não como simples vilania.
Quem interpreta Becka em ‘The Testaments’?
Becka é interpretada por Mattea Conforti. O episódio 9 destaca especialmente sua performance física e emocional nas cenas finais da personagem.
‘The Testaments’ ep 9 é importante para entender a crítica a Gilead?
Sim. O episódio mostra que Gilead não cai apenas pela resistência externa, mas também pela contradição interna de suas próprias leis. Quando Becka leva a doutrina ao pé da letra, a hipocrisia do sistema fica exposta.

