‘Colony’ entrega ação zumbi, mas esbarra na sombra de ‘Train to Busan’

A nota de 70% de Colony Yeon Sang-ho diz mais sobre a fase atual do diretor do que parece. Analisamos por que a ação convence, mas o filme ainda não recupera o drama humano que fez de ‘Train to Busan’ um marco.

Yeon Sang-ho nunca vai escapar completamente do trem. Em 2016, ele não apenas redefiniu o cinema de zumbi com ‘Train to Busan’, mas provou que o gênero podia servir ao luto, ao sacrifício e ao colapso social sem perder impulso popular. Agora, quase dez anos depois, ele retorna ao apocalipse com Colony Yeon Sang-ho, exibido em Cannes sob o peso inevitável da comparação. A nota inicial de 70% no Rotten Tomatoes não sugere desastre. Sugere outra coisa: um filme eficiente na superfície, mas menos devastador do que o melhor Yeon já fez.

Esse é o ponto central. Em vez de ler os 70% como reprovação automática, vale encará-los como um retrato bastante preciso do momento atual do diretor: a ação continua afiada, o senso de urgência permanece intacto, mas o drama humano, que fez de ‘Train to Busan’ mais do que um ótimo filme de zumbi, parece novamente reduzido.

O que 70% no Rotten Tomatoes significa dentro da filmografia de Yeon Sang-ho

O que 70% no Rotten Tomatoes significa dentro da filmografia de Yeon Sang-ho

Fora de contexto, 70% pode parecer uma nota morna. Dentro da carreira de Yeon, ela é mais reveladora. O diretor alterna obras muito bem recebidas pela crítica com projetos mais divisivos, e sua filmografia recente já mostrou um padrão: quando a ideia visual e o conceito dominam o filme, o elo emocional enfraquece. Foi o que muita gente apontou em ‘Peninsula’ e, em outro registro, também apareceu em ‘Jung_E’.

Por isso, os 70% de ‘Colony’ importam menos como placar e mais como diagnóstico. As primeiras críticas convergem em um ponto: o filme sabe montar perseguições, sabe usar o espaço fechado e sabe transformar infectados em ameaça física imediata. O problema é que esse domínio técnico não parece vir acompanhado do mesmo investimento nos personagens. Em outras palavras, Yeon ainda sabe acelerar o pulso do espectador; o que ele nem sempre consegue agora é apertar a garganta.

Há uma diferença decisiva entre um filme de ação zumbi competente e um grande filme de zumbi. O primeiro entrega perigo, correria e impacto. O segundo faz cada ataque significar perda moral, culpa ou sacrifício. ‘Train to Busan’ operava nos dois níveis. ‘Colony’, pelo que as críticas indicam, funciona mais no primeiro.

Por que a sombra de ‘Train to Busan’ continua tão grande

A comparação não existe só porque ambos são filmes com infectados velozes. Ela persiste porque ‘Train to Busan’ encontrou uma forma rara de unir dispositivo de gênero e arco emocional. O confinamento do trem não era apenas um cenário engenhoso; era uma máquina dramática. Cada vagão reorganizava alianças, expunha egoísmo de classe e pressionava a transformação do protagonista, um pai emocionalmente ausente que aprende tarde demais o custo da indiferença.

É por isso que a cena final daquele filme permanece tão forte: não se trata apenas de sobrevivência, mas de redenção paga com o corpo. Yeon entendia que o choque vinha tanto da mordida quanto do vínculo entre as pessoas. O horror nunca era só biológico. Era social, familiar e íntimo.

Quando um novo filme do diretor recebe elogios pela ação, mas reservas em relação ao drama, a lembrança de ‘Train to Busan’ volta imediatamente porque ali essa fusão parecia orgânica. Não era um blockbuster tentando enfiar emoção entre duas sequências de caos. Era um melodrama de desastre disfarçado de thriller zumbi.

‘Colony’ troca o funil emocional por eficiência de laboratório

A premissa de ‘Colony’ é forte no papel: uma instalação de biotecnologia vira armadilha durante um surto, prendendo uma professora vivida por Jun Ji-hyun ao lado de outros sobreviventes, incluindo Koo Kyo-hwan e Ji Chang-wook. O espaço fechado, com portas blindadas, corredores estreitos e áreas de contenção, parece ideal para devolver a Yeon o senso de compressão dramática que fazia tanta falta em ‘Peninsula’.

E, pelas primeiras reações, esse desenho espacial realmente rende ação. Dá para imaginar por que críticos destacam o resultado: laboratórios oferecem linhas de visão curtas, superfícies frias, obstáculos transparentes e uma arquitetura que favorece suspense em camadas. Uma porta de vidro pode funcionar como barreira, vitrine e contagem regressiva ao mesmo tempo. Se Yeon explora bem esse ambiente, a tensão física tende a surgir quase automaticamente.

Mas há um limite para a boa mecânica. Se os personagens entram na cena apenas para ativar a próxima fuga, a mise-en-scène resolve o movimento, não o envolvimento. O filme pode ser ritmado, até feroz, sem se tornar emocionalmente memorável. Essa parece ser a crítica recorrente em Cannes: ‘Colony’ organiza set pieces com precisão, mas encontra dificuldade em dar a elas um centro humano específico.

É a diferença entre ver alguém tentando escapar e entender exatamente o que essa pessoa não pode perder. Sem essa segunda camada, o espectador reage ao perigo, mas não necessariamente à tragédia.

O erro que Yeon já cometeu em ‘Peninsula’ parece voltar em versão mais controlada

‘Peninsula’ já havia mostrado o risco de ampliar a escala e diminuir a densidade dramática. Ao trocar o confinamento do trem por um cenário aberto, o filme buscou espetáculo e velocidade, mas perdeu parte da pressão psicológica. A sensação era de um diretor mais interessado em desenhar manobras de ação do que em acompanhar o custo moral da sobrevivência.

‘Colony’ parece corrigir parcialmente esse desvio. O ambiente novamente é fechado, o perigo é imediato e a estrutura volta a depender de circulação, bloqueio e improviso. Isso por si só já o aproxima mais do Yeon que entende geografia de suspense. A montagem, pelo que sugerem as reações iniciais, privilegia clareza espacial em vez de caos embaralhado, o que é uma boa notícia num subgênero que costuma confundir histeria com intensidade.

Mesmo assim, a semelhança com ‘Peninsula’ sobrevive no essencial: a prioridade ainda estaria na adrenalina. Não é um problema pequeno. No cinema de Yeon, forma e sentimento funcionam melhor quando uma coisa empurra a outra. Quando a ação existe por si, ela impressiona, mas não permanece.

Se isso se confirmar, ‘Colony’ pode acabar ocupando um espaço curioso na carreira do diretor: mais disciplinado e coeso do que ‘Peninsula’, porém ainda distante da dimensão emocional que tornou ‘Train to Busan’ difícil de superar.

Há técnica, elenco e ameaça real — falta o detalhe humano que transforma caos em perda

Há técnica, elenco e ameaça real — falta o detalhe humano que transforma caos em perda

Esse possível desequilíbrio fica ainda mais evidente porque Yeon não parece ter perdido a mão para o terror físico. Ao contrário. A ideia de infectados comprimindo grupos em corredores de laboratório tem potencial para sequências muito fortes, sobretudo se a direção explorar ruídos metálicos, alarmes, vidro, travas de segurança e o contraste entre assepsia visual e violência corporal. Esse tipo de desenho sonoro e espacial costuma ser decisivo em filmes de cerco: o medo não nasce só do que entra em quadro, mas do que ecoa antes da invasão.

Também ajuda o fato de Jun Ji-hyun carregar presença suficiente para ancorar cenas de crise. Ela é o tipo de atriz capaz de dar autoridade imediata a personagens sob pressão. O problema, se as críticas estiverem corretas, não está no elenco, mas no material dramático entregue a ele. Bons atores podem tornar uma cena funcional mais crível; não podem inventar sozinhos a densidade de um arco mal desenvolvido.

Falta, ao que tudo indica, uma relação central capaz de organizar o afeto do filme. Em ‘Train to Busan’, bastava observar a dinâmica entre pai e filha para entender o que estava em jogo. Em ‘Colony’, o risco parece mais abstrato: muita ameaça, pouca intimidade. E quando a intimidade não existe, a morte volta a ser apenas evento.

Para quem ‘Colony’ funciona — e para quem a comparação vai pesar demais

Se você procura um filme de infestação com ritmo forte, geografia de ação legível e ataques construídos com senso de urgência, ‘Colony’ tem boas chances de funcionar. A nota de 70% indica justamente isso: um longa que entrega profissionalismo, tensão e valor de entretenimento, ainda que sem consenso entusiasmado.

Agora, se a expectativa é reencontrar a devastação emocional de ‘Train to Busan’, o choque pode ser de frustração. Não porque ‘Colony’ pareça incompetente, mas porque opera em outro patamar de ambição dramática. Um é o tipo de filme que você comenta pela eficiência das sequências. O outro é o tipo de filme que você lembra pela dor que deixou.

No fim, a recepção inicial reforça uma leitura mais ampla da fase atual de Yeon Sang-ho. Ele continua sendo um diretor de ideias visuais fortes, excelente em construir cenários de colapso e deslocamento. Mas sua obra alcança outro nível quando o apocalipse serve para revelar pessoas, não apenas para persegui-las. ‘Colony’ pode até justificar o ingresso pela ação. O que os 70% no Rotten Tomatoes sugerem, porém, é que ainda falta aquilo que fez Yeon sair do gênero e entrar no imaginário popular: não os zumbis, mas o peso humano de sobreviver a eles.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Colony’

Qual é a nota de ‘Colony’ no Rotten Tomatoes?

No momento citado no artigo, ‘Colony’ abriu com 70% no Rotten Tomatoes. Como a porcentagem pode mudar com novas críticas, vale checar a página oficial do agregador para o número atualizado.

‘Colony’ faz parte do universo de ‘Train to Busan’?

Pelas informações disponíveis aqui, ‘Colony’ é tratado como um novo filme de apocalipse zumbi dirigido por Yeon Sang-ho, não necessariamente como continuação direta de ‘Train to Busan’. A associação principal é autoral e temática, por causa do diretor e do gênero.

Quando ‘Colony’ estreia nos cinemas dos EUA?

‘Colony’ tem estreia marcada nos cinemas dos Estados Unidos para 28 de agosto. Datas em outros mercados podem variar conforme a distribuição local.

Preciso ver ‘Train to Busan’ para entender ‘Colony’?

Não necessariamente. Pelo que foi divulgado, a principal conexão entre os dois filmes está no estilo de Yeon Sang-ho e na comparação crítica, não numa continuidade obrigatória de enredo.

Vale a pena ver ‘Colony’ se eu gostei de ‘Peninsula’?

Provavelmente sim. As primeiras críticas indicam que ‘Colony’ oferece ação mais controlada, melhor uso de espaço confinado e infectados ameaçadores, o que pode agradar quem gostou do lado mais acelerado de ‘Peninsula’.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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