O sonho americano estragou a 3ª temporada de ‘Euphoria’, menos a Maddy

A 3ª temporada de ‘Euphoria’ abandona o drama íntimo adolescente para abraçar uma tese sobre o Sonho Americano, deformando personagens como Rue e Jules. Analisamos por que apenas Maddy Perez escapa intacta dessa mudança de tom e o que isso revela sobre os limites da série.

Existe uma maldição clássica em séries de coming-of-age: o que fazer com os personagens quando o ensino médio acaba? O pulo do gato sempre parece ser afastá-los do convívio obrigatório que os unia, espalhando-os pelo mundo adulto. A Euphoria 3ª temporada tenta resolver essa equação com um salto temporal de cinco anos, mas o resultado é uma série que perdeu completamente sua essência. Sam Levinson trocou o drama adolescente distópico e neonato por algo irreconhecível — e o grande culpado disso é uma obsessão temática que esmaga a humanidade do roteiro em prol de uma tese. Se os episódios especiais já haviam provado que a série sabia lidar com a maturidade de forma íntima e contemplativa, a nova temporada joga essa evolução fora.

De drama íntimo a faroeste criminoso: o desvio de tom

De drama íntimo a faroeste criminoso: o desvio de tom

A força dos primeiros anos de Euphoria residia na estética hiper-realista da adolescência — um lugar onde o trauma era internalizado e a câmera flertava com o subjetivo para expressar dor. A versão adulta desses personagens, no entanto, habita um universo que não lhes pertence. Pegue Rue Bennett: a protagonista que antes navegava por alucinações viscerais de dependência química agora atua como mula de drogas e gerente de clube de strip para o chefão Alamo. A série literalmente se transformou em um faroeste criminoso de guerra de territórios.

Há um detalhe até inteligente nessa mudança: quando Rue faz seu pitch de vendas de armas, o tom confiante espelha exatamente sua antiga narração onisciente. O problema é o contexto. Ela trocou um chefe tirano (Laurie) por outro, e na prática, o roteiro trocou a intimidade do luto e da dependência por tensão artificial de gângster. O mesmo vale para Jules. Sua história como ‘sugar baby’ isolada em um penthouse, com cabelos compridos estilo Rapunzel, deveria ser a encarnação visual da série, mas soa apenas melancólica e rasa. Ela abandonou a arte por dinheiro, e a série abandonou a profundidade por choque.

A tese do Sonho Americano e o esvaziamento dos personagens

O tema da temporada é tão explícito que o segundo episódio se chama ‘America My Dream’. E é exatamente essa obsessão em provar um ponto que estraga a narrativa. Quando o roteiro decide que todos os personagens devem espelhar as perversões do capitalismo, eles deixam de ser pessoas para se tornarem avatares de uma tese.

O caso mais flagrante é o de Nate e Cassie. A sátira suburbana do casal perfeito tem seus momentos de entretenimento, mas soa desconectada do universo original. As cenas de Cassie tentando fazer sucesso como criadora de conteúdo adulto existem puramente para o choque e a vulgaridade, esvaziando a personagem. O fato de Nate, o ex-jock intocável, ter o dedo mindinho decepado por dívidas cria um contraste fascinante com sua antiga impunidade, mas eles não se sentem reais. Eles são peões de um tabuleiro temático. O ‘Red Wedding’ deles no terceiro episódio até junta o elenco, mas o encontro só evidencia o quanto a série mudou todos para pior — bem, quase todos.

Maddy Perez: por que o capitalismo não deformou a única personagem fiel a si mesma

Enquanto todos se contorcem para caber na narrativa do capitalismo corruptor, Maddy Perez permanece implacavelmente fiel a si mesma. É irônico como a personagem que mais se jogou nos braços do sonho americano — trabalhando como assistente de uma poderosa agente de talentos de Hollywood — é a única que não foi deformada por ele.

A razão é estrutural: o capitalismo não mudou a essência de Maddy; ele apenas deu um palco maior para ela operar. A cena do segundo episódio em que ela demole os vídeos de OnlyFans de Cassie como ‘desesperados’ e sem gosto é um exemplo perfeito de como a personagem funciona. Por baixo da máscara de conselho gerencial, Maddy está saboreando a vingança, mas as palavras duras são genuinamente honestas e úteis. Ela não se curvou à superficialidade da temporada; ela a observou de cima.

O terceiro episódio, ‘The Ballad of Paladin’, consolida Alexa Demie como a actriz mais subestimada do elenco. Maddy chega ao casamento com um vestido revelador totalmente ‘on-brand’, pronta para ver o circo pegar fogo. Mas a evolução da noite a atinge. Ela desviou de uma bala com o Nate, mas sua dor é legítima: quando adolescente, o único sonho dela era um romance apaixonado e ‘não fazer nada’. Agora, a ex-melhor amiga que a traiu está vivendo isso em uma mansão. A fala maldosa da mãe de Nate na cara dela é o empurrão final.

A dor de Maddy não é a maior do episódio, mas é a mais complexa e camada. É o único momento que me lembrou as temporadas anteriores. Ela volta para seu apartamento simples sentindo o peso da realidade, mas, diferentemente dos recém-casados e da série como um todo, Maddy não foi destruída pelo Sonho Americano. Ela apenas continuou sendo Maddy.

A nova fase da série sofre de um mal comum em criadores que ganham carta branca: confunde grandiosidade temática com profundidade. Ao forçar todos na mesma direção, a obra perdeu a textura que a tornou única. A verdadeira tragédia de crescer não é virar um gângster ou um avatar do capitalismo; é perceber que a vida adulta é confusa, descontínua e sem arco narrativo elegante. A 3ª temporada de Euphoria esqueceu disso, e só sobrevive nos raros momentos em que permite que seus personagens sejam apenas humanos.

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Perguntas Frequentes sobre a 3ª temporada de Euphoria

Onde assistir a 3ª temporada de Euphoria?

A 3ª temporada de ‘Euphoria’ está disponível exclusivamente na HBO Max (atualmente Max). Por ser uma produção original, os novos episódios são lançados semanalmente na plataforma.

Qual é o salto temporal da 3ª temporada de Euphoria?

A nova temporada dá um salto de cinco anos para frente. Os personagens que conhecemos no ensino médio agora estão no início dos seus vinte e tantos anos, lidando com as consequências de suas escolhas na vida adulta.

O que acontece com a Rue na 3ª temporada?

Na 3ª temporada, Rue deixa de lado as alucinações viscerais de sua dependência química e passa a atuar no crime organizado. Ela trabalha como mula de drogas e gerente de clube de strip para um chefão chamado Alamo, em uma trama que se assemelha a um faroeste criminoso.

Por que o tom da 3ª temporada de Euphoria mudou tanto?

O criador Sam Levinson decidiu mudar o foco da série do drama íntimo adolescente para uma crítica explícita ao capitalismo e ao ‘Sonho Americano’. Essa mudança de eixo temático forçou os personagens a se encaixarem em papéis de gângsteres e avatares do sistema, afastando a obra da sua estética subjetiva original.

Maddy tem mais destaque na nova temporada?

Embora o tempo de tela de Maddy Perez ainda seja limitado, sua importância estrutural é enorme. Ela é a única personagem que não é deformada pela tese do Sonho Americano, mantendo a essência e a complexidade que a série tinha nas temporadas anteriores.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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