O funeral de Rich em ‘Welcome to Derry’ transforma uma citação clássica de Stephen King sobre amizade em momento devastador. Analisamos por que Marge era a única pessoa capaz de pronunciar essas palavras — e como a série prova que entende King melhor que a maioria das adaptações.
‘Welcome to Derry’ guarda seu momento mais devastador para o final. Não é uma aparição de Pennywise, não é um jump scare elaborado, não é nem mesmo uma cena de horror. É um funeral. E uma citação de Stephen King que, tirada de seu contexto original no livro, ganha um peso emocional que poucos esperavam de uma série sobre um palhaço assassino.
Quando Marge sobe para falar no funeral de Rich, o que sai de sua boca não é um discurso genérico de despedida. É uma das passagens mais profundas que King já escreveu sobre amizade — e a série da HBO a transforma em algo que transcende o material original.
A citação que define o coração de ‘It: A Coisa’
No livro de 1986, King escreveu: “Talvez não existam amigos bons ou amigos ruins — talvez existam apenas amigos, pessoas que ficam ao seu lado quando você está machucado e que ajudam você a se sentir menos sozinho. Talvez eles sempre valham o medo, a esperança, a vida. Talvez valham morrer por eles também, se for preciso. Sem amigos bons. Sem amigos ruins. Apenas pessoas com quem você quer, precisa estar; pessoas que constroem suas casas no seu coração.”
É uma passagem que muitos leitores citam como favorita. Mas há uma diferença brutal entre ler essas palavras e vê-las pronunciadas por uma adolescente que acabou de perder alguém que morreu por ela.
A série faz algo corajoso: não adapta a citação, não a moderniza, não a “traduz” para uma audiência contemporânea. Ela a entrega inteira, crua, no momento exato em que cada palavra carrega o peso de tudo que vimos ao longo da temporada.
Por que Marge é a pessoa certa para dizer essas palavras
Aqui está o que torna essa escolha narrativa tão eficaz: Marge passa boa parte da série sendo, objetivamente, uma amiga problemática. Ela trai Lily para se enturmar com o grupo popular. Ela mal reconhece a existência de Rich. Ela faz exatamente o tipo de coisa que adolescentes fazem quando estão desesperados para pertencer — e que adultos preferem fingir que nunca fizeram.
Se a série tivesse colocado essa citação na boca de um personagem “moralmente impecável”, seria bonito. Tocante, até. Mas não seria verdadeiro.
Marge pronunciando essas palavras é devastador justamente porque ela sabe que falhou. Quando ela diz “talvez não existam amigos bons ou amigos ruins”, não é filosofia abstrata. É uma garota tentando se perdoar por ter sido uma amiga ruim — e descobrindo, tarde demais, que a pessoa que ela ignorou era capaz de morrer por ela.
O discurso funciona como confissão e epifania ao mesmo tempo. Marge não está apenas homenageando Rich. Ela está processando, em tempo real, o que significa ter sido amada por alguém que ela não soube valorizar.
O sacrifício de Rich e o peso do “talvez”
Quando Marge chega na parte sobre amigos valerem “morrer por eles também”, ela adiciona um “talvez” que não está no original de King. É um detalhe pequeno, mas que carrega todo o conflito interno dela.
Não é que ela questione se o sacrifício de Rich foi válido. É que ela não consegue processar que alguém a considerasse digna disso. O “talvez” é hesitação, é incredulidade, é uma adolescente tentando entender por que um garoto que ela mal olhava decidiu que a vida dela valia mais que a própria.
Rich, interpretado por Arian S. Cartaya, tem um arco que a série constrói com paciência. Ele não é o herói óbvio. Não é o mais corajoso, o mais carismático, o mais preparado. É justamente sua ordinariedade que torna o sacrifício tão impactante. Ele não morre porque é especial. Morre porque, para ele, Marge era.
Como a série conecta passado e futuro através de um nome
O twist de viagem no tempo que ‘Welcome to Derry’ estabelece cria uma camada adicional de significado. A série sugere que Marge, como tantos outros que passam por Derry, provavelmente esquecerá os detalhes específicos do que aconteceu. A cidade tem esse efeito — uma espécie de amnésia coletiva que protege tanto os habitantes quanto o próprio Pennywise.
Mas ela nomeia seu filho Richie.
É o tipo de detalhe que King adora: a memória consciente se vai, mas algo permanece. Uma casa construída no coração, como diz a citação. Marge pode não lembrar por que esse nome parecia certo, mas alguma parte dela sempre soube.
Isso também conecta ‘Welcome to Derry’ diretamente aos filmes e ao livro de uma forma elegante. Richie Tozier, o personagem de Bill Hader nos filmes (e um dos Losers originais no livro), ganha uma origem inesperada para seu nome. Não é apenas uma coincidência de universo compartilhado. É uma herança emocional.
O que ‘Welcome to Derry’ entende sobre Stephen King
Muitas adaptações de King focam no horror e esquecem o resto. Entendem que ele escreve sobre monstros, mas não entendem que os monstros são quase sempre metáforas. ‘It: A Coisa’ nunca foi apenas sobre um palhaço alienígena que come crianças. É sobre infância, trauma, memória e — acima de tudo — sobre as pessoas que nos ajudam a sobreviver às piores partes de crescer.
A série da HBO demonstra que entendeu isso ao fazer sua cena mais memorável ser um funeral, não um confronto com Pennywise. Ao escolher encerrar a temporada não com um cliffhanger de horror, mas com uma adolescente chorando enquanto recita palavras sobre amizade.
É uma escolha que exige confiança no material e na audiência. Nem todo mundo que sintonizou para ver terror cósmico quer sair emocionalmente destruído por um discurso sobre vulnerabilidade. Mas para quem conhece King de verdade, esse é exatamente o ponto.
Por que essa cena vai permanecer
Adaptações vêm e vão. Algumas são esquecidas semanas depois de lançadas. Outras deixam cenas que grudam na memória coletiva — o barco de papel descendo pelo bueiro, o “você também vai flutuar”, Pennywise dançando.
O funeral de Rich tem potencial para entrar nessa categoria, mas por razões completamente diferentes. Não é uma imagem icônica de horror. É um momento de humanidade crua em uma história que poderia facilmente ter se contentado em ser apenas assustadora.
Marge parada diante de um caixão, tentando articular o que significa perder alguém que você não soube valorizar a tempo. Palavras de Stephen King escritas há quase 40 anos encontrando um contexto que as torna mais pungentes do que jamais foram no livro.
Se você assistiu ‘Welcome to Derry’ esperando apenas sustos e Pennywise, essa cena pode ter te pegado desprevenido. Mas se você conhece King — se você sabe que ele sempre escreveu sobre o coração humano tanto quanto sobre os monstros que o ameaçam — então você reconheceu o que a série fez.
Ela não apenas adaptou uma citação. Ela a transformou em televisão. E, no processo, provou que entende ‘It: A Coisa’ melhor do que muitas adaptações que vieram antes.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Welcome to Derry’
Onde assistir ‘Welcome to Derry’?
‘Welcome to Derry’ está disponível na HBO e na Max. A série estreou em 2025 como prelúdio dos filmes ‘It: A Coisa’ de Andy Muschietti.
Preciso assistir os filmes ‘It’ antes de ‘Welcome to Derry’?
Não é obrigatório, mas recomendado. A série funciona como história independente, mas conexões com os filmes (como a origem do nome Richie Tozier) ganham mais impacto se você conhecer o material anterior.
Qual é a citação de Stephen King usada no funeral de ‘Welcome to Derry’?
A citação é do livro ‘It: A Coisa’ (1986): “Talvez não existam amigos bons ou amigos ruins — talvez existam apenas amigos, pessoas que ficam ao seu lado quando você está machucado e que ajudam você a se sentir menos sozinho. (…) Apenas pessoas com quem você quer, precisa estar; pessoas que constroem suas casas no seu coração.”
Quem interpreta Rich em ‘Welcome to Derry’?
Rich é interpretado por Arian S. Cartaya. O personagem tem um arco central na primeira temporada que culmina em um dos momentos mais emocionantes da série.
‘Welcome to Derry’ é muito assustadora?
A série tem elementos de horror típicos do universo de ‘It’, incluindo aparições de Pennywise. Porém, o foco está mais no drama emocional e nas relações entre personagens do que em sustos constantes. É mais perturbadora psicologicamente do que gore.

