Analisamos como a endossação de George R.R. Martin aos livros de ‘The Last Kingdom’ revela o segredo por trás de suas batalhas viscerais e o desfecho maduro que o autor de ‘Game of Thrones’ invejou. Entenda por que o muro de escudos é mais assustador que dragões.
Quando pensamos em ‘Game of Thrones’, imaginamos George R.R. Martin como um arquiteto de universos cruéis. Mas até arquitetos leem. E o autor de Westeros não esconde sua devoção por uma obra que, não por acaso, se tornou uma das séries mais brutais da televisão. Se você assistiu a The Last Kingdom e sentiu o impacto físico das batalhas de Uhtred de Bebbanburg, saiba: Martin sentiu exatamente o mesmo nas páginas originais — e foi justamente essa brutalidade tátil que o fez declarar a série de livros como uma de suas favoritas de todos os tempos.
O elogio que agarra pelo pescoço
Em 2020, Martin usou seu ‘Not a Blog’ para fazer uma confissão que qualquer escritor de fantasia histórica deveria levar a sério. Ele declarou que Bernard Cornwell, autor dos livros que originaram a série, é um dos escritores que ‘nunca falha em me agarrar pelo pescoço’. Não é um elogio rasgado ou uma cortesia de colega de profissão. É a admissão de um construtor de tronos de que a ficção histórica de Cornwell faz o que todo bom drama deve fazer: sufoca o leitor com urgência.
Martin sempre soube que a política de Westeros só funciona porque há a ameaça constante da espada cortando carne. Em Cornwell, a espada corta primeiro, a política vem depois. O autor de ‘Game of Thrones’ devorou a saga The Saxon Stories e deixou claro que aquele era o seu ponto de referência para ficção histórica de qualidade. Se o mestre do sofrimento medieval aplaude assim, é porque há algo ali que transcende o gênero.
Por que as batalhas de ‘The Last Kingdom’ são o padrão-ouro
A crítica mais comum a cenas de batalha no cinema e na TV é que são um caos indistinguível. Você não sabe quem está lutando, onde estão ou por quê. Martin sabe disso melhor que ninguém, e é por isso que seu elogio à obra de Cornwell é tão cirúrgico. Ele disse que o autor ‘dá vida a batalhas como ninguém mais’, destacando especificamente os muros de escudos da Era das Trevas.
Na tela, The Last Kingdom traduz essa literatura com uma brutalidade coreografada rara na TV moderna. Enquanto ‘Game of Thrones’ frequentemente sacrificava a lógica tática pelo espetáculo (veja a infame e estúpida carga de cavalaria de Jon Snow em ‘Battle of the Bastards’), a série da Netflix filmou o muro de escudos com a geometria suja de uma luta real — cotoveladas, respiração ofegante, o baque surdo de madeira contra metal. A batalha de Ethandun na 3ª temporada é o exemplo perfeito: a câmera fica no nível do olho de Uhtred, transformando estratégia militar em experiência física.
O luto de Martin e o fim da saga de Uhtred
O que mais revela sobre a admiração de Martin, porém, não é o elogio à ação, mas a sua reação emocional ao fim da saga. Ao falar sobre ‘War Lord’, o 13º e último livro da série, Martin desabafou que o desfecho doeu. ‘Nós o seguimos desde a infância, mas ele está muito velho agora, em seu terceiro rei… terei saudades dele’, escreveu o autor.
A diferença é que Martin, como escritor que lida há mais de uma década com a pressão de fechar sua própria saga, entende o custo narrativo dessa escolha — e talvez sinta inveja da coragem de Cornwell. Uhtred não morre em uma explosão espetacular de glória; ele envelhece, percebe que seu tempo acabou e aceita o ciclo da vida. É um desfecho melancólico e realista que a TV mainstream raramente tem coragem de abraçar, preferindo o espetáculo fácil à dignidade do desgaste natural.
Como a Netflix enxugou 13 livros em uma saga implacável
Para quem só conhece a adaptação, é surpreendente pensar que aquele ritmo acelerado de cinco temporadas e um filme na verdade comprime mais de uma década de publicações. A 1ª temporada abrange os dois primeiros livros; a 2ª, os volumes 3 e 4; e assim por diante, até a 5ª temporada esgotar os eventos até ‘The Flame Bearer’. O encerramento definitivo veio em 2023 com o longa ‘Seven Kings Must Die’, que puxa dos romances finais para fechar a conta da unificação da Inglaterra.
A Netflix condensou a obra, cortando subtramas, mas preservou o miolo: a relação de Uhtred com sua identidade dividida entre saxões e dinamarqueses permanece o conflito central. É a eterna dor de pertencer a dois mundos e não ser plenamente aceito em nenhum — o mesmo sentimento que Cornwell escreveu e que Martin tanto admira.
A endossação de Martin não é um mero carimbo de qualidade para The Last Kingdom. É um mapa. Se o criador de ‘Game of Thrones’ se debruça sobre as páginas de Cornwell para entender como escrever guerra e amadurecimento, nós deveríamos fazer o mesmo. Se você busca fantasia com peso histórico e batalhas que fazem seus músculos tensarem, a jornada de Uhtred é obrigatória. Se prefere dragões resolvendo conflitos, fique em Westeros. Mas saiba: o muro de escudos da vida real não precisa de fogo mágico para ser aterrorizante.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘The Last Kingdom’
Quantos livros a série ‘The Last Kingdom’ abrange?
A série adapta os 13 livros da saga ‘The Saxon Stories’ de Bernard Cornwell, publicados entre 2004 e 2020. O conteúdo foi condensado em 5 temporadas e o filme conclusivo ‘Seven Kings Must Die’.
George R.R. Martin ajudou a escrever ‘The Last Kingdom’?
Não. Martin é apenas um fã declarado dos livros de Bernard Cornwell, elogiando publicamente a série em seu blog, mas não tem nenhum envolvimento na produção do show da Netflix.
‘The Last Kingdom’ é baseado em história real?
Sim e não. O protagonista Uhtred de Bebbanburg é inspirado em uma figura histórica homônima, mas sua trajetória na série é em grande parte fictícia. Já os eventos, reinos e batalhas (como a formação da Inglaterra e as invasões vikings) são baseados na história real dos séculos IX e X.
Qual é a ordem cronológica para assistir ‘The Last Kingdom’?
Assista primeiro as 5 temporadas da série principal (2015-2022) e, em seguida, o filme conclusivo ‘The Last Kingdom: Seven Kings Must Die’ (2023), que finaliza a saga da unificação da Inglaterra.
Por que ‘The Last Kingdom’ terminou com um filme em vez da 6ª temporada?
A Netflix decidiu encerrar a história com um longa-metragem para concluir a saga de forma mais cinematográfica e direta, cobrindo os eventos finais dos últimos livros de Cornwell sem alongar a narrativa em uma temporada inteira.

