Projetamos um roteiro especulativo temporada a temporada do Homem-Aranha Arrowverse. Veja como a fórmula da CW — do ‘Team Spidey’ à morte precoce de MJ — trairia a essência trágica do herói em favor do melodrama e da retenção de audiência.
O Homem-Aranha foi criado para ser o herói solitário por excelência. Enquanto os Quartos Fantásticos tinham a família e os X-Men tinham a fraternidade, o apelo de Peter Parker sempre reside no fardo isolado do segredo. Mas e se a história fosse diferente? E se, em vez dos cinemas, o escalador de paredes tivesse caído na armadilha da televisão dos anos 2000? Projetar um roteiro para o Homem-Aranha Arrowverse não é apenas um exercício de ‘e se?’; é dissecar como a máquina de moer dramas da CW obrigatoriamente distorce a mitologia de um personagem para encaixá-lo na grade de 22 episódios por temporada.
A fórmula da CW tem regras claras e inegociáveis: o herói não pode sofrer sozinho (ele precisa de um ‘Team’ e de um bunker), os vilões de grande nome são queimados cedo para segurar a audiência, e o melodrama romântico sempre tem prioridade sobre a lógica criminal. Foi assim com ‘Arqueiro’ e ‘Flash’, e seria assim com o Aranha. Vamos projetar isso temporada a temporada.
A anatomia do drama CW: como o ‘Team Spidey’ trai a essência do herói
Oliver Queen tem o Diggle e a Felicity. Barry Allen tem a Cisco e a Caitlin. A CW não faz séries sobre vigilantes solitários; faz séries sobre centros de operações onde o herói vai desabafar com uma equipe de TI depois de um dia difícil. Peter Parker, por natureza, esconde sua identidade até de quem ama. Na CW, isso duraria três episódios, no máximo.
O ‘Team Spidey’ seria formado por necessidade narrativa e orçamentária. Tínhamos a Aunt May assumindo o papel de voz de razão — um espelho do Detetive Joe West em ‘Flash’. Harry Osborn traria o recurso financeiro e o laboratório (o equivalente ao dinheiro da Queen Consolidated e ao STAR Labs), e Eddie Brock seria o amigo cuja lealdade duvidosa todos já chegam suspeitando. A grande virada estrutural é que Mary Jane e Gwen Stacy descobririam o segredo cedo demais. A tensão do segredo de Peter some, substituída pela dinâmica de grupo e sessões de terapia no bunker. É confortável para a TV? Sim. É bom para a tragédia aracnídea? Absolutamente não.
Queimando a mitologia: por que o Duende Verde na 1ª temporada é um erro clássico
A CW tem um vício documentado: ela consome seus arcos principais mais rápido do que deveria. ‘Smallville: As Aventuras do Superboy’ gastou anos segurando o Superman, mas ‘Arqueiro’ colocou Malcolm Merlyn e a Liga dos Assassinos logo de cara. Num roteiro do Homem-Aranha Arrowverse, a 1ª temporada não teria paciência para vilões menores.
O ano inicial estabeleceria a conspiração em torno da morte do Tio Ben, amarrando-a à Oscorp. No episódio 9, o clássico mid-season finale revelaria Norman Osborn como o Duende Verde. Após a derrota no clímax da temporada, Norman ‘morreria’ (ou simplesmente desapareceria para retornar em temporadas arbitrárias), deixando Harry abandonado e a série sem seu melhor vilão para os próximos anos. É a gramática de ‘Smallville’ aplicada ao Aranha: tudo volta para a corporação dos pais.
Do simbionte ao Rei do Crime: o desgaste do formato nas temporadas 2 e 3
Com o time formado e o vilão principal derrotado, a série cairia no ritmo característico da emissora, alternando altos criativos e baixos constrangedores.
A 2ª temporada traria o simbionte. A CW adora uma história de ‘personalidade sombria’ porque permite ao ator mudar o registro — o equivalente ao Oliver escuro da 1ª temporada de ‘Arqueiro’ ou o Barry de Savitar em ‘Flash’. O Homem-Aranha de roupa negra é um veículo perfeito para o melodrama: a tensão romântica entre Peter, MJ e Gwen seria explodida por um Peter agressivo. O payoff é a criação do Venom, com Eddie Brock saindo do Team Spidey e virando a ameaça central. O arco fecha bem, mas gasta o segundo nome mais pesado da franquia.
Na 3ª temporada, o desespero criativo começa a espreitar. Sem Duende ou Venom, recorremos ao Rei do Crime. A série se torna mais grounded, com Peter e Gwen (agora como Mulher-Aranha, numa evolução que a CW faria para justificar mais figurinos e action figures) nas ruas. É aqui que os crossovers aconteceriam: o Demolidor surge como convidado para bater o martelo do crime organizado. A temporada termina com Peter e MJ finalmente ficando juntos. O público comemora, o roteiro prepara a rasteira.
O ponto sem retorno: a morte de Mary Jane e a queda de Peter
Toda série da CW tem o momento em que ela decide que ser leve não é mais suficiente. Para o Aranha, isso é a 4ª temporada. O Sexteto Sinistro se forma sob a liderança de um misterioso novo Duende — o óbvio Harry Osborn, consumido pela raiva de Peter por sua conexão com MJ. A aparição de Madame Web empurra a série para o misticismo barato que a CW adora (pense nos Deuses da Velocidade em ‘Flash’ ou as entidades mágicas de ‘Legends of Tomorrow’).
E então, o evento. A morte de Mary Jane nas mãos do Sexteto Sinistro. É um choque brutal, mas estruturalmente necessário: a CW não sabe sustentar um relacionamento feliz por muito tempo, e matar a paixão principal dá a Peter o trauma para justificar as temporadas seguintes — o clássico tropo do ‘fridging’. A 5ª temporada é a saga de vingança. Peter caça os membros do Sexteto, quase cruzando a linha do assassinato. A entrada de Kraven, o Caçador, serve como o espelho que mostra a Peter que ele se tornou um monstro. A redenção vem com a chegada de Miles Morales, injetando sangue novo no Team Spidey e permitindo que Peter passe o bastão — um tropo que a emissora adora para justificar a continuação do show com um elenco mais barato.
O colapso criativo: quando Mysterio entra em cena na 6ª temporada
A 6ª temporada de qualquer série da CW é onde os roteiristas claramente perderam o fôlego. Sem os grandes vilões e com o elenco original querendo sair, a série apela para o bizarro. Mysterio entra como o antagonista, trazendo ilusões e um viés sobrenatural que entra em conflito direto com a rua de Nova York. É a temporada onde a audiência cai e as críticas viram piada.
O encerramento dá a Peter um final feliz com Gwen Stacy. É satisfatório para o shipper de plantão, mas uma traição à tragédia fundamental do personagem. Peter Parker não foi feito para ter a vida resolvida em um arco de network television.
Os Crossovers: de Hell’s Kitchen ao estilo ‘Crisis’ Marvel
O único aspecto onde essa realidade alternativa justificaria a assinatura do streaming seria nos eventos crossover. Se a CW tivesse a biblioteca Marvel no mesmo nível que teve a DC, veríamos o Homem-Aranha participando de um evento estilo ‘Guerra Civil’ na TV, dividindo a tela com o Wolverine ou o Hulk. O clímax absoluto seria um equivalente ao ‘Crisis on Infinite Earths’, onde Madame Web abriria as portas do Spider-Verso, reunindo todos os atores que viveram o personagem nas telas em um espetáculo metalinguístico de arrepiar.
Um Homem-Aranha na CW seria uma experiência fascinante e frustrante em partes iguais. Teríamos o melodrama exagerado, os vilões desperdiçados no começo e o time de apoio roubando o tempo de tela do herói. Seria uma série viciante, daquelas que a gente critica na terça e assiste na quarta. Mas o Peter Parker que sobrevive a esse formato não é o herói trágico e solitário dos quadrinhos. É um produto otimizado para reter telespectadores — e a diferença entre os dois é o abismo que separa a tragédia da indústria.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre o Homem-Aranha no Arrowverse
Por que o Homem-Aranha nunca fez parte do Arrowverse na CW?
Os direitos televisivos e cinematográficos do Homem-Aranha pertencem à Sony Pictures, enquanto o Arrowverse é uma produção da Warner Bros. Television em parceria com a DC Comics. Uma parceria entre as duas concorrentes para colocar o Aranha na CW seria virtualmente impossível de negociar.
O que é o ‘Team’ nas séries do Arrowverse?
É a equipe de apoio do protagonista. Em vez de heróis solitários, a CW cria grupos de apoio técnico e emocional (como o Team Arrow ou o Team Flash), geralmente reunidos em um bunker ou laboratório, para facilitar a dinâmica de elenco e o melodrama exigido por 22 episódios por temporada.
O Homem-Aranha já teve uma série em live-action?
Sim. Na década de 1970, a CBS produziu a série ‘The Amazing Spider-Man’ estrelada por Nicholas Hammond. Embora tenha sido cancelada após duas temporadas, foi a primeira adaptação em live-action do personagem e tinha um formato procedural típico da TV da época.
Qual o problema de queimar o Duende Verde na 1ª temporada de uma série?
Na estrutura da CW, o vilão principal é geralmente revelado e derrotado no fim da 1ª temporada para entregar um clímax imediato ao público. O problema é que o Duende Verde é o grande arqui-inimigo do Aranha. Gastá-lo cedo deixa a série sem seu vilão mais pessoal para os próximos anos, forçando o uso de antagonistas menores ou a repetição exaustiva do mesmo vilão.
O que significa o tropo do ‘fridging’ na TV?
‘Fridging’ (ou ‘geladeira’) é um tropo narrativo onde um personagem feminino é ferido, estuprado ou morto apenas para avançar o arco narrativo do protagonista masculino. A morte de Mary Jane no roteiro especulativo da CW é um exemplo clássico: ela serve apenas para dar trauma e motivação a Peter Parker.

