Personagens de ‘Supernatural’ que mudaram a série (e ninguém lembra)

Analisamos como personagens esquecidos de ‘Supernatural’, como Gordon e Benny, desconstruíram a moralidade de preto e branco da série. Entenda por que essas figuras periféricas foram cruciais para o amadurecimento da trama e acabaram descartadas por incomodarem demais.

Durante 15 temporadas, ‘Supernatural’ tratou o bem e o mal como um tabuleiro de xadrez: caçadores de um lado, monstros do outro. Mas a evolução da série não está na manutenção dessa regra, e sim em como ela metodicamente a destruiu. Sam e Dean Winchester nunca mudaram de ideia sobre o ofício — para eles, o mundo sempre se dividiu entre o que deve ser salvo e o que deve ser morto. A carga pesada de desconstruir essa visão maniqueísta recaiu sobre figuras que atravessaram a tela por poucos episódios e desapareceram. São os personagens esquecidos Supernatural que, na verdade, carregaram o peso narrativo de amadurecer a série.

Pense bem: os protagonistas estão presos a um arco heroico que não permite flexão. Se Dean começa a ver criaturas sobrenaturais com empatia, a própria premissa do show desmorona. Então, a série precisava de terceiros para sujar as mãos, testar os limites éticos dos irmãos e provar que a caçada raramente é um ato moralmente limpo. O mérito de complicar o universo de ‘Supernatural’ não é de Castiel ou de Crowley — é de figuras periféricas que pagaram o preço da complexidade com o esquecimento.

Como os personagens esquecidos de Supernatural desconstruíram a série

Como os personagens esquecidos de Supernatural desconstruíram a série

A evolução de ‘Supernatural’ depende de atrito. Sempre que os Winchesters se acomodam em sua rotina de sal e ferro, alguém surge para provar que as regras do jogo são falhas. Esses personagens não serviam apenas para empurrar a trama para a frente; eles funcionavam como espelhos deformantes, forçando Sam e Dean a encararem as falhas na própria filosofia de vida. E quando cumpriam seu propósito narrativo, eram descartados.

Gordon Walker: O caçador que era o verdadeiro monstro

Se existe um personagem que chuta a porta da moralidade fácil, é Gordon Walker (interpretado por um Sterling K. Brown antes do sucesso em ‘This Is Us’). Gordon é um caçador veterano que compartilha do mesmo objetivo dos Winchesters: exterminar criaturas da noite. A diferença é que os métodos dele são pura sociopatia. Gordon não hesita em torturar, usar civis como isca ou caçar Sam apenas por uma profecia duvidosa.

O impacto de Gordon está em tirar os Wincestres de sua zona de conforto. Até então, o show tratava caçadores como uma irmandade nobre. Gordon quebra isso ao provar que o lado ‘certo’ da guerra também é capaz de atrocidades. E o destino dele é a ironia perfeita da série: ele é transformado no monstro que tanto odeia e acaba decapitado por Sam. Aquele momento em que Sam gira a cerca de arame farpado e corta a cabeça de Gordon não é só um choque de ação — é a série admitindo que a linha entre herói e vilão nunca passou de uma ilusão.

Benny Lafitte: A humanidade que Dean se recusava a ver

A 8ª temporada introduziu o Purgatório e, com ele, Benny Lafitte. Um vampiro. Em qualquer outra temporada de ‘Supernatural’, a regra era clara: Dean puxa a lâmina e corta a cabeça. Mas Benny salva a vida de Dean no Purgatório, e essa aliança forçada obriga o caçador mais teimoso da TV a conviver com a criatura que ele mais despreza no mundo.

Benny não é um monstro em busca de redenção barata. Ele é um ser dividido que escolheu deixar sua natureza sanguinária para trás por amor a uma humana. A quebra de paradigma acontece sem alarde. Quando Benny decide se sacrificar para salvar Sam, ele faz a escolha mais ‘humana’ do arco inteiro. Dean assiste à morte do vampiro sabendo que Benny tinha mais decência do que vários caçadores que conheceu. O show usou Benny para dar um tapa na cara de Dean: a humanidade não é definida pela espécie, mas pelas escolhas.

Anna Milton: O cinismo burocrático do Céu

Quando ‘Supernatural’ decidiu introduzir anjos na 4ª temporada, o medo era que a série virasse um drama de fantasia edificante. Anna Milton foi o contrapeso necessário. Ela é um anjo caído que recupera a graça, mas em vez de se tornar uma guia espiritual luminosa, Anna se revela tão pragmática e cruel quanto os demônios.

A cena em que ela tenta voltar no tempo para matar Sam e evitar o Apocalipse é o ponto de ruptura da mitologia angelical. Ela não é movida por maldade, mas por uma lógica fria de danos colaterais. Anna desconstrói a ideia de que o Céu é moralmente superior ao Inferno. Através dela, percebemos que os anjos de ‘Supernatural’ são apenas burocratas alados, dispostos a assassinar um humano para manter o status quo cósmico. A série precisava dela para provar que a divindade, nesse universo, é apenas outra gangue com poder de fogo maior.

Mick Davies: O homem que escolheu a humanidade em vez do manual

Na 12ª temporada, os Men of Letters britânicos entraram em cena como a antítese dos Winchesters: caçadores com terno, orçamento ilimitado e um manual de regras rígido. Mick Davies começa como o burocrata obediente da organização, cumprindo ordens sem pestanejar. Mas a convivência com Sam e Dean o força a encarar a realidade nua e crua do campo de batalha.

A virada de Mick é crucial porque acontece de forma orgânica. Quando a organização exige o sacrifício de inocentes pelo ‘bem maior’, ele simplesmente se recusa a seguir a cartilha. Mick percebe que as regras não protegem pessoas; protegem a instituição. O assassinato dele pelos próprios chefes é um lembrete brutal: no mundo de ‘Supernatural’, pensar por conta própria é um crime passível de morte. Ele morre não como um mártir glorificado, mas como um funcionário que acordou tarde demais para a própria humanidade.

Donatello Redfield: O ceticismo como ato de resistência

Em temporadas finais atoladas em mitologia bíblica e guerras entre dimensões, ‘Supernatural’ perdeu muito de seu senso de terreno. Donatello Redfield surge como um profeta de Deus que, ironia das ironias, é ateu. Ele é o espectador exausto dentro da própria série. Donatello não quer saber de missão divina; ele está apavorado com as consequências psicológicas de ser um rádio sintonizado na frequência do Criador.

O valor de Donatello está no seu ceticismo exausto. Enquanto Sam e Dean normalizam viagens no tempo e batalhas contra o próprio Deus, Donatello frisa o quão absurdo e destrutivo esse ciclo é. Ele é a voz do fórum reclamando que a mitologia cresceu demais e esmagou as pessoas comuns no processo. Sua presença prova que, mesmo no fim dos tempos, a dúvida e o cansaço são respostas muito mais humanas do que a aceitação mística.

O preço da zona cinzenta

É mais fácil lembrar de um Castiel desajeitado ou de um Crowley carismático porque eles cabem bem na dinâmica de protagonistas que vencem no fim. Já Gordon, Benny, Anna, Mick e Donatello são incômodos. Eles não permitem que os Winchesters se sintam eticamente confortáveis em suas escolhas. Ao trazer a zona cinzenta para um universo que insistia em ser preto e branco, esses personagens fizeram o trabalho suado que a série exigia para envelhecer bem. Foram eles que transformaram ‘Supernatural’ de um programa sobre matar monstros para um estudo sobre os monstros que carregamos dentro de nós. E o fato de terem sido esquecidos pelo fandom não é um acidente — é a prova de que cumpriram sua função: incomodaram o suficiente para serem descartados assim que a ferida moral cicatrizou.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre personagens de Supernatural

Quem interpreta Gordon Walker em ‘Supernatural’?

Gordon Walker é interpretado por Sterling K. Brown, muito antes de seu sucesso em ‘This Is Us’ e ‘Black Panther’. O ator trouxe uma intensidade perturbadora para o caçador.

Benny Lafitte aparece em quantos episódios de ‘Supernatural’?

O vampiro Benny Lafitte, interpretado por Ty Olsson, aparece em 11 episódios da série, concentrados principalmente na oitava temporada, com uma participação na décima primeira.

Onde assistir ‘Supernatural’ atualmente?

Em 2026, as 15 temporadas de ‘Supernatural’ estão disponíveis na Amazon Prime Video no Brasil. A série já passou por Netflix e HBO Max, mas atualmente tem como casa a plataforma da Amazon.

Anna Milton é um anjo ou um humano em ‘Supernatural’?

Anna é ambos. Ela era um anjo (Anael) que renunciou à sua graça por escolha própria, caindo na Terra e nascendo como humana. Após recuperar sua graça, ela volta a ser um anjo, mas mantém a experiência e a perspectiva de sua vida mortal.

Por que Donatello Redfield é importante se ele é um personagem tão menor?

Donatello é crucial por ser o único profeta ateu da série. Enquanto a mitologia de ‘Supernatural’ se torna cada vez mais grandiosa e divina, ele funciona como a âncora cética e humana, lembrando aos protagonistas o custo psicológico de lidar com forças cósmicas.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também