Analisamos as 8 melhores animações fora da Disney que definiram a década — de ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’ a ‘Guerreiras do K-Pop’ — e por que quatro vitórias consecutivas no Oscar provam que a liderança criativa da indústria mudou de mãos.
Por décadas, a frase “animação de qualidade” foi quase sinônimo de Disney. De ‘Branca de Neve’ a ‘Toy Story’, o estúdio definiu o que esperávamos de um desenho animado. Mas algo mudou nos últimos cinco anos. As melhores animações fora da Disney não apenas rivalizam com o estúdio — elas o superaram em ambição, ousadia e, principalmente, em prêmios.
O Oscar conta essa história melhor que qualquer indicador. Desde que ‘Encanto’ levou a estatueta em 2022, a Disney não venceu mais nenhuma vez na categoria de Melhor Animação. Em quatro anos consecutivos, o prêmio foi para ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’, ‘O Menino e a Garça’, ‘FLOW’ e, mais recentemente, ‘Guerreiras do K-Pop’. Não é coincidência. É uma mudança de guarda criativa.
Quatro vitórias consecutivas no Oscar: o sintoma de uma revolução silenciosa
Quando ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’ venceu em 2023, muita gente tratou como uma exceção — um grande nome do cinema autoral levando um prêmio de prestígio. Mas aí veio ‘O Menino e a Garça’, de Hayao Miyazaki, em 2024, consolidando a tendência. No ano seguinte, ‘FLOW’, um filme letão sem diálogos e feito com orçamento independente, derrotou produções de estúdios gigantes. E em 2026, ‘Guerreiras do K-Pop’ — um fenômeno da Netflix — completou a sequência.
Isso não é um acaso estatístico. É um sintoma de que a indústria da animação mudou de eixo. A Disney, por anos, dominou não só o mercado, mas o imaginário do que uma animação deveria ser. Enquanto isso, estúdios como DreamWorks, Sony e produtoras independentes começaram a arriscar em linguagens visuais novas, histórias mais adultas e processos artesanais. O público respondeu — e a Academia, também.
Oito obras que definem esse momento
Não vou fazer um ranking. Esses oito filmes, juntos, representam o que há de mais empolgante na animação contemporânea fora do império do Mickey. Cada um à sua maneira, eles provam que o futuro do meio não passa por fórmulas repetidas, mas por vozes autorais e experimentação.
‘Guerreiras do K-Pop’: quando a Netflix virou o jogo
Lançado em junho de 2025, ‘Guerreiras do K-Pop’ chegou como uma aposta ousada da Netflix e se tornou o título original mais assistido da história da plataforma, com mais de 180 milhões de horas assistidas nas primeiras quatro semanas. A trama acompanha Rumi, Mira e Zoey, integrantes do grupo HUNTR/X, que equilibram a carreira pop com uma missão secreta de caçar demônios. Parece fórmula, mas a execução é tudo menos genérica.
A animação tem identidade própria — mistura a energia dos videoclipes de K-pop com coreografias de ação que lembram os melhores animes. As músicas viraram hits fora do filme, o que é raro para uma produção animada. E a vitória no Oscar não foi só um prêmio de consolação: foi o reconhecimento de que a animação pode ser pop, engajada e visualmente inventiva ao mesmo tempo. Assisti duas vezes — uma sozinho, outra com minha sobrinha de 12 anos — e as duas experiências foram completamente diferentes. Isso é cinema.
‘Robô Selvagem’: a emoção em cada pincelada
A DreamWorks tem um histórico irregular, mas com ‘Robô Selvagem’ (2024) ela entregou um de seus filmes mais comoventes. Dirigido por Chris Sanders (de ‘Como Treinar o Seu Dragão’), o longa adapta o livro de Peter Brown e conta a história de Roz, uma robô que naufraga numa ilha e acaba adotando um ganso órfão chamado Brightbill.
O que me impressionou não foi só a história — é a textura visual. A animação tem uma qualidade pictórica, quase aquarelada, que faz a natureza parecer um livro ilustrado ganhando vida. Lupita Nyong’o dá a Roz uma calorosidade que nunca apaga sua natureza mecânica. Tem uma cena específica, quando Brightbill aprende a voar pela primeira vez, que eu juro que me pegou desprevenido. Não é manipulação barata; é construção emocional paciente. O filme faturou mais de US$ 330 milhões e foi indicado ao Oscar. Merecia mais, mas o prêmio nem sempre é justo.
‘FLOW’: o silêncio que fala mais que mil diálogos
Imagina um filme de animação sem uma única linha de diálogo, protagonizado por um gato preto, e que ainda assim te deixa mais envolvido do que muita produção blockbuster. É exatamente o que o letão Gints Zilbalodis fez com ‘FLOW’ (2024).
A premissa é simples: uma inundação colossal destrói o lar do gato, que embarca num barco com outros animais — uma capivara, um lêmure, uma ave — e eles precisam sobreviver juntos. A ausência de palavras não é um truque; é uma escolha narrativa que nos aproxima da perspectiva animal. A câmera flutua com o gato, e a tensão é construída pelo som, pelo ritmo e pela direção de arte.
Quando ‘FLOW’ venceu o Oscar em 2025, foi uma vitória para todos os que acreditam que animação não precisa de estúdio gigante nem de fórmula testada. Feito com um orçamento de apenas US$ 3,7 milhões — uma fração do que a Disney gasta em marketing, quanto mais em produção — o filme provou que a criatividade supera qualquer orçamento.
‘Homem-Aranha: Através do Aranhaverso’: a sequência que superou o original
‘Homem-Aranha: No Aranhaverso’ (2018) já havia redefinido as possibilidades do CGI mainstream. A sequência, ‘Através do Aranhaverso’ (2023), tinha uma missão quase impossível: superar aquele impacto. E conseguiu — de forma avassaladora.
O filme leva Miles Morales a diferentes dimensões, cada uma com seu próprio estilo de animação. Tem universo em aquarela, em quadrinhos, em esboço a lápis. É um festival de linguagens visuais que nenhum estúdio tradicional teria coragem de financiar. Mas o que me prendeu não foi só o espetáculo. É o conflito entre Miles e Miguel O’Hara, que discute se ser Homem-Aranha exige aceitar tragédias como inevitáveis. É uma discussão filosófica sobre destino e livre-arbítrio embutida numa aventura de super-herói.
Faturou mais de US$ 690 milhões e recebeu indicação ao Oscar. Perdeu para ‘O Menino e a Garça’, mas isso não diminui sua importância. A cena em que Miles é perseguido por toda a sociedade do Aranhaverso — com cada dimensão colapsando visualmente ao seu redor — é uma das sequências mais ambiciosas já feitas em animação comercial.
‘O Menino e a Garça’: Miyazaki no auge da maturidade
Hayao Miyazaki anunciou aposentadoria tantas vezes que ninguém mais acredita. Mas ‘O Menino e a Garça’ (2023) não é só mais um filme do mestre — é uma obra que dialoga com toda a sua carreira e com sua visão de mundo.
Ambientado no Japão durante a Segunda Guerra, acompanha Mahito, um garoto que perde a mãe e se muda para o campo com o pai. Lá, uma garça cinzenta misteriosa o conduz a um mundo fantástico. A lógica do filme é onírica, quase surrealista. Não tente entender tudo numa primeira assistida; deixe-se levar.
O visual é deslumbrante, com a tradicional animação 2D do Ghibli em seu auge. Mas o que me marcou foi a maturidade emocional. Mahito lida com luto, culpa e a necessidade de seguir em frente. A vitória no Oscar de 2024 foi justa — e simbólica: o maior nome da animação mundial fora da Disney levando o prêmio que a Disney dominou por anos.
‘As Tartarugas Ninja: Caos Mutante’: adolescentes de verdade, animação de verdade
As Tartarugas Ninja já foram rebootadas tantas vezes que qualquer nova versão parece desnecessária. Mas ‘Caos Mutante’ (2023) encontrou uma razão para existir: lembrar que Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello são, antes de tudo, adolescentes.
O filme usa dubladores adolescentes reais, o que dá às conversas uma energia caótica e autêntica. A animação é propositalmente “suja”, com traços que lembram um caderno de esboços rabiscado. Nada de superfícies polidas — aqui, a textura é parte da narrativa.
A história mostra as tartarugas querendo ser aceitas pelos humanos, lutando contra a rejeição e o medo. É uma metáfora sobre adolescência que funciona em vários níveis. Raramente um reboot estabelece uma identidade tão própria já no primeiro filme. É a prova de que franquias antigas podem ganhar vida nova quando há coragem para mudar a linguagem visual.
‘Gato de Botas 2: O Último Pedido’: a mortalidade no coração do Shrekverso
Quando anunciaram uma sequência para ‘Gato de Botas’ (2011), onze anos depois do original, ninguém esperava grande coisa. O que veio foi uma das animações mais surpreendentes da década.
‘O Último Pedido’ (2022) começa com o Gato descobrindo que já usou oito de suas nove vidas. De repente, o herói destemido se vê diante da mortalidade. A jornada para encontrar a Estrela dos Desejos se torna uma meditação sobre morte, arrependimento e o que dá sentido à vida. É um filme infantil com uma alma adulta — daqueles que as crianças assistem pela aventura e os pais saem refletindo.
Visualmente, a DreamWorks abandonou o estilo 3D padrão e adotou uma estética mais estilizada, com cores vibrantes e movimentos inspirados em storyboards. A cena em que o Gato tem seu primeiro ataque de pânico — com os olhos dilatados e a respiração ofegante — é um momento de pura vulnerabilidade que raramente vemos em animações mainstream. Faturou US$ 480 milhões e foi indicado ao Oscar. Perdeu para ‘Pinóquio’, mas a indicação já era uma vitória para um spin-off de uma franquia satírica.
‘Pinóquio por Guillermo del Toro’: a obra-prima do stop-motion
No mesmo ano em que a Disney lançou seu remake live-action de ‘Pinóquio’ (que foi um fiasco criativo), Guillermo del Toro entregou uma versão em stop-motion que redefine completamente a história de Carlo Collodi.
O diretor mexicano ambienta a trama na Itália fascista dos anos 1930. Geppetto, um velho carpinteiro que perdeu o filho humano, esculpe Pinóquio num momento de desespero. O boneco ganha vida, mas não é uma fábula moralista sobre obedecer — é uma reflexão sobre desobediência, morte e o que torna uma vida significativa.
O trabalho de stop-motion é artesanal, com cada boneco carregando texturas e expressões que nenhum CGI consegue replicar. Foram mais de 2.500 painéis de fundo pintados à mão e 40 bonecos feitos sob medida. Del Toro usa o contexto histórico para dar peso político à história: Pinóquio é um ser que não se encaixa, que questiona autoridade, que escolhe amar apesar da dor. A vitória no Oscar de 2023 não foi só um prêmio; foi o começo da sequência que mudou a história da categoria.
O que isso significa para o futuro da animação
Esses oito filmes não são apenas obras isoladas — são evidências de uma transformação estrutural. A animação fora da Disney deixou de ser alternativa para se tornar a vanguarda. Estúdios como DreamWorks, Sony e produtoras independentes entendem que o público adulto está disposto a pagar por animações que o tratem com inteligência.
Não estou dizendo que a Disney não produz mais nada de bom. ‘Encanto’ (2021) é um ótimo filme, e ‘Robô Selvagem’ foi uma exceção digna. Mas o centro de gravidade criativo se deslocou. A prova está nos prêmios, nas bilheterias e, principalmente, na ousadia estética.
Se você ainda acha que animação é “coisa de criança”, esses filmes vão te fazer repensar. Se você já é fã, eles são um lembrete de que o melhor do meio está acontecendo agora, fora do radar tradicional. Fica a pergunta: quanto tempo a Disney vai levar para perceber que o jogo mudou?
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Perguntas Frequentes sobre as Melhores Animações Fora da Disney
Qual foi a primeira animação fora da Disney a vencer o Oscar?
O primeiro filme fora da Disney a vencer o Oscar de Melhor Animação foi ‘Shrek’ (2001), da DreamWorks. Mas a sequência recente começou com ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’ em 2023, seguido por ‘O Menino e a Garça’, ‘FLOW’ e ‘Guerreiras do K-Pop’.
Onde assistir ‘FLOW’, o filme do gato sem diálogos?
‘FLOW’ está disponível na MUBI e também pode ser alugado no Prime Video e Apple TV. O filme letão de Gints Zilbalodis tem 85 minutos e foi feito com orçamento de US$ 3,7 milhões.
‘Guerreiras do K-Pop’ é baseado em história real?
Não. ‘Guerreiras do K-Pop’ é uma obra original da Netflix, criada por Maggie Kang e Chris Appelhans. O filme mistura ficção com elementos reais da indústria do K-pop, mas a trama de caça a demônios é totalmente fictícia.
Quantas vezes a Disney venceu o Oscar de Melhor Animação?
A Disney (incluindo Pixar) venceu 14 vezes desde a criação da categoria em 2001. Mas desde 2022, com ‘Encanto’, não vence mais — a sequência de quatro vitórias consecutivas foi toda de estúdios fora do império Disney.
Qual a duração de ‘O Menino e a Garça’?
‘O Menino e a Garça’ tem 2 horas e 4 minutos de duração. Foi o filme mais caro da história do Studio Ghibli, com produção que levou sete anos para ser concluída.

