De ‘Suspiria’ a ‘Wicked’, um ranking definitivo dos 10 melhores filmes de bruxas — analisando como cada obra usa a bruxaria para explorar medos, desejos e libertações. Inclui contexto histórico, análise técnica e o motivo de ‘A Bruxa’ ser o melhor de todos.
Existe um momento em que a bruxa deixa de ser coadjuvante na história do cinema e assume o centro do palco. Não é uma data específica — é um acúmulo de décadas em que diretores de todos os gêneros perceberam que a figura da bruxa carrega algo que poucos personagens conseguem: a capacidade de ser simultaneamente assustadora, libertadora, trágica e irresistível. Com ‘Da Magia à Sedução 2’ chegando aos cinemas neste mês de setembro, quase 30 anos depois de Sandra Bullock e Nicole Kidman terem dado vida às irmãs Owens, parece o momento perfeito para revisitar os melhores filmes de bruxas que o cinema já produziu.
Mas atenção: este não é um ranking de filmes que ‘têm uma bruxa’. É uma lista de obras onde a bruxaria é a espinha dorsal da narrativa — o motor que move personagens, conflitos e, principalmente, as perguntas que o filme se propõe a responder. De Dario Argento a Hayao Miyazaki, de 1942 a 2024, o que une essas obras é a compreensão de que a bruxa nunca foi apenas sobre magia. Ela é sobre o que a sociedade teme, deseja e reprime — e sobre o que acontece quando isso tudo vem à tona.
Como o cinema transformou a bruxa em espelho das nossas obsessões
Antes de mergulhar no ranking, vale entender por que a bruxa persiste como uma das figuras mais versáteis da sétima arte. No terror, ela é o medo do desconhecido que se esconde atrás de rostos familiares. Na fantasia, é a liberdade que desafia as regras impostas. Na comédia, é a rebeldia que se recusa a se comportar. Essa flexibilidade é exatamente o que permite que um ranking como este atravesse oito décadas sem perder o fôlego — e é também o que torna tão difícil escolher apenas dez.
O timing deste artigo não é coincidência. ‘Da Magia à Sedução’ foi tratado com frieza pela crítica em 1998, mas o público decidiu o contrário. O filme virou cult, ganhou gerações de fãs e provou que uma boa história de bruxas tem uma vida útil que desafia qualquer previsão de mercado. A volta das irmãs Owens às telas não é apenas nostalgia — é a confirmação de que o apelo dessas histórias é estrutural, não sazonal.
10. ‘Abracadabra’ (1993): o culto que ninguém previu
É difícil encontrar um caso mais bizarro de sobrevivência cultural do que ‘Abracadabra’. Quando estreou, a Disney tratou a comédia das irmãs Sanderson como um produto descartável de Halloween. Três décadas depois, Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy são tão sinônimos de outubro quanto abóboras e doces. O que ninguém percebeu na época é que o filme acertava em cheio numa fórmula rara: a comédia que nunca esquece que suas protagonistas são, tecnicamente, monstros que planejam sugar a vida de crianças.
Midler domina cada cena com uma performance que equilibra teatralidade e ameaça genuína. Mas o verdadeiro truque do filme é a química entre as três — algo que o remake de 2022 tentou replicar sem sucesso total. A sequência da ‘dança da magia’ no salão, com as luzes piscando e a cidade inteira hipnotizada, é um dos momentos mais puramente divertidos que o subgênero já produziu. ‘Abracadabra’ não é um grande filme no sentido técnico, mas é uma prova viva de que os melhores filmes de bruxas às vezes são aqueles que o público escolhe, não os que a crítica consagra.
9. ‘Casei-Me com uma Feiticeira’ (1942): a bruxa glamourosa que fundou um subgênero
Muito antes de ‘A Feiticeira’ virar série de TV, e décadas antes de rom-coms sobrenaturais se tornarem fórmula, René Clair já tinha entendido o apelo da bruxa sedutora. Veronica Lake é Jennifer, uma feiticeira executada no século XVII que retorna para se vingar do descendente do puritano que a condenou. O plano dá errado da melhor maneira possível: ela se apaixona pelo alvo.
Lake tinha uma qualidade cinematográfica que poucas atrizes possuíam — a capacidade de parecer ao mesmo tempo etérea e terrivelmente presente. Sua Jennifer é maliciosa, charmosa e vulnerável na medida exata. Clair, vindo do cinema mudo europeu, imprime um ritmo que mantém a premissa sobrenatural leve sem jamais torná-la descartável. O filme é a fundação de uma linhagem específica de bruxa: a que usa glamour como arma e desejo como campo de batalha. Mais de 80 anos depois, ainda é o exemplo mais puro dessa vertente.
8. ‘Convenção das Bruxas’ (1990): o terror que traumatizou uma geração
Existe um grupo enorme de adultos que carrega cicatrizes emocionais de ‘Convenção das Bruxas’ sem saber que o filme era dirigido por Nicolas Roeg, o mesmo homem por trás de ‘Agora Não Olhe’. A adaptação de Roald Dahl é cruel, desconfortável e absolutamente implacável com seu público infantil — e é exatamente por isso que funciona.
Anjelica Huston entrega uma das grandes performances de vilã do cinema. Sua Grande Bruxa Alteza é magnífica antes mesmo de arrancar o rosto: há uma autoridade na forma como ela comanda o salão que faz qualquer outro vilão de filme infantil parecer um palhaço. E quando a transformação acontece — cortesia da Jim Henson Creature Shop — o resultado é repugnante no melhor sentido. A cena em que ela revela sua verdadeira forma para as crianças ainda causa arrepios. O remake de 2020 com Anne Hathaway tentou, mas errou o tom: Roeg entendeu que o terror não precisa ser suavizado para ser eficaz. Precisa ser levado a sério.
7. ‘Jovens Bruxas’ (1996): a raiva adolescente como combustível mágico
‘Jovens Bruxas’ acerta em algo que a maioria das histórias sobre adolescentes e magia erra: o desejo pelo sobrenatural não é uma fuga da realidade — é uma resposta a ela. Quando Sarah, interpretada por Robin Tunney, chega à nova escola e encontra Nancy, Bonnie e Rochelle, a bruxaria não é um passatempo. É uma válvula de escape para uma raiva que não tem outro lugar para ir.
Mas o filme pertence a Fairuza Balk. Nancy Downs é a personificação da fúria adolescente que encontra um canal — e o que ela faz com esse poder é muito mais interessante do que uma simples descida à vilania. Balk dá a Nancy uma vulnerabilidade que impede o público de simplesmente julgá-la. O visual noventista (as roupas, o batom escuro, a trilha sonora) transformou o filme em cápsula do tempo, mas a razão pela qual ele sobrevive é mais profunda: poucos filmes capturaram com tanta precisão a sensação de ser jovem, invisível e furioso. A cena final no salão do colégio, com as quatro voando pelos corredores, é catártica de um jeito que poucos filmes adolescentes conseguem ser.
6. ‘Kiki’s Delivery Service’ (1989): a bruxa que perdeu a confiança
Hayao Miyazaki raramente faz algo simples, e sua abordagem à bruxaria é um dos exemplos mais sutis de sua genialidade. Kiki tem 13 anos e parte para cumprir seu treinamento tradicional de bruxa, como manda a tradição. Mas o filme rapidamente deixa claro que a magia aqui é quase irrelevante — o que importa é a jornada de autodescoberta de uma garota que precisa aprender a viver sozinha.
O momento mais devastador do filme não envolve feitiços ou voos espetaculares. É quando Kiki perde a capacidade de voar — e, com ela, a confiança em si mesma. Miyazaki transforma a perda de poderes em uma metáfora direta para o esgotamento criativo e emocional que todo jovem adulto enfrenta. O gato Jiji, que antes falava, fica mudo — um detalhe que muitos espectadores só percebem em revisões. É uma escolha narrativa corajosa: a bruxa não precisa de magia para ser interessante. Precisa de humanidade. ‘Kiki’s Delivery Service’ é o oposto exato do cinema de bruxas ocidental — e é justamente por isso que se mantém tão essencial.
5. ‘Wicked’ (2024): a vilã que nunca foi vilã
A Bruxa do Oeste é, provavelmente, a bruxa mais reconhecível do cinema. O que ‘Wicked’ faz é algo que poucos filmes de bruxas tentaram: desconstruir a vilã antes que ela se torne vilã. Cynthia Erivo interpreta Elphaba com uma intensidade que transforma a história em algo muito maior do que uma simples adaptação de musical.
O que funciona em ‘Wicked’ é que Jon M. Chu nunca trata Elphaba como uma futura vilã esperando para acontecer. Ela é uma garota com pele verde que nasceu com poderes extraordinários e que, por causa disso, é rejeitada pela sociedade que deveria acolhê-la. A amizade com Glinda (Ariana Grande, surpreendentemente eficaz) dá ao filme seu coração emocional, mas é a raiva de Elphaba — enraizada na discriminação que sofreu — que dá ao filme sua força. A cena de ‘Defying Gravity’ funciona porque não é apenas um número musical; é a culminação de toda a frustração que Elphaba carregou por duas horas e meia. ‘Wicked’ é um lembrete de que os melhores filmes de bruxas raramente são sobre magia real — são sobre o que a sociedade faz com aqueles que são diferentes.
4. ‘Da Magia à Sedução’ (1998): a estranheza que virou legado
Vou ser direto: ‘Da Magia à Sedução’ é um filme bagunçado. Ele tenta ser romance, comédia, drama familiar e terror sobrenatural ao mesmo tempo, e em vários momentos essas partes não se encaixam. Mas é exatamente essa bagunça que o tornou tão amado. O filme é estranho, e essa estranheza é a sua identidade.
As irmãs Owens — Sally, a responsável, e Gillian, a impulsiva — são interpretadas por Sandra Bullock e Nicole Kidman com uma química que compensa qualquer fraqueza do roteiro. Mas o verdadeiro segredo do filme são as tias: Stockard Channing e Dianne Wiest roubam cada cena em que aparecem. E há algo profundamente reconfortante na forma como o filme trata a família como um refúgio — não apenas um tema, mas um lugar físico: a casa das tias, com suas luzes de fadas e o quintal cheio de ervas, é quase um personagem. A cena das margaritas à meia-noite é icônica por um motivo: ela resume o espírito do filme, que é sobre encontrar alegria e magia mesmo quando o amor dá errado. A sequência em que as irmãs tentam reviver o namorado abusivo de Gillian e acabam com um cadáver que se recusa a ficar morto é uma das coisas mais absurdas que um estúdio grande já lançou. E é maravilhosa.
3. ‘As Bruxas de Eastwick’ (1987): o desejo feminino como força sobrenatural
Jack Nicholson domina ‘As Bruxas de Eastwick’ — isso é inegável. Seu Daryl Van Horne é gloriosamente excessivo, um ego monstruoso que se disfarça de charme. Mas o que faz o filme funcionar é que George Miller (sim, o mesmo de ‘Mad Max’) nunca permite que Nicholson roube a história. O filme pertence a Cher, Michelle Pfeiffer e Susan Sarandon.
As três são mulheres presas em vidas que as diminuem — a viúva, a divorciada, a solteirona. Quando seus desejos reprimidos começam a se manifestar como poderes sobrenaturais, o filme se torna um estudo sobre o que acontece quando mulheres descobrem que não precisam da permissão masculina para serem poderosas. A cena da chuva de cerejas é um dos momentos mais abertamente sexuais que o cinema mainstream já ousou colocar em tela — e funciona porque é sobre prazer, não sobre vulgaridade. O final, com as três unidas contra Van Horne, é a recompensa perfeita: elas não precisam do homem que despertou seus poderes. Elas só precisavam umas das outras.
2. ‘Suspiria’ (1977): a bruxaria como atmosfera
Dario Argento não faz filmes de bruxas — ele cria ambientes onde a bruxaria é o ar que se respira. ‘Suspiria’ é menos sobre feitiços e mais sobre a sensação de que algo está podre dentro da academia de dança onde Suzy Bannion (Jessica Harper) chega para estudar. A descoberta de que a escola é controlada por um coven é quase secundária; o que importa é o caminho até lá.
Argento constrói o terror através de uma paleta de cores agressiva — vermelhos e azuis que parecem gritar da tela — e da trilha sonora do Goblin, que soa como um pesadelo industrial. A cena de abertura, com Suzy tentando entrar na academia durante uma tempestade, é um dos maiores exemplos de suspense puro já filmados. E a sequência da ‘dança’ no corredor, com as luzes piscando e as sombras se movendo de forma errada, é um pesadelo que opera segundo sua própria lógica. ‘Suspiria’ não é um filme para explicar — é um filme para sentir. E é essa entrega total à atmosfera que o coloca tão alto nesta lista.
1. ‘A Bruxa’ (2015): o terror da fé e o convite de Black Phillip
Robert Eggers fez algo que parecia impossível: ele levou a bruxa a sério. Não como metáfora, não como piada, não como espetáculo. ‘A Bruxa’ trata a crença na bruxaria como uma realidade histórica e psicológica — e é exatamente isso que a torna tão aterrorizante. A família de Thomasin (Anya Taylor-Joy, em uma atuação que anunciava uma estrela) vive isolada em uma fazenda na Nova Inglaterra do século XVII, banida de sua comunidade. Quando o filho mais novo desaparece, a suspeita começa a corroer a família por dentro.
O que Eggers entende — e quase nenhum outro filme de bruxas entende — é que o verdadeiro terror não é a bruxa na floresta. É a fé que transforma o medo em paranoia, e a paranoia em violência. A família se destrói não porque a bruxa os ataca, mas porque a crença no mal os corrói. A fotografia usa luz natural de forma implacável, e o dialeto arcaico — fiel ao período — cria uma barreira que nos coloca na mesma posição dos personagens: desorientados, vulneráveis, presos em um mundo onde o diabo é tão real quanto a fome.
E então há o final. Thomasin, sozinha e desamparada, encontra Black Phillip — o bode que pode ou não ser o diabo. Em um dos momentos mais perturbadores e estranhamente libertadores do cinema moderno, ela aceita o convite. A cena em que ela assina o livro e se junta às bruxas na floresta é tudo o que o filme construiu: a fé que a aprisionou se torna a porta de saída. É perturbador, claro — mas é também, de certa forma, uma fuga. A última imagem, com Thomasin flutuando entre as árvores, é inesquecível. Mais de uma década depois, ‘A Bruxa’ permanece não apenas como o melhor filme de bruxas já feito, mas como um dos grandes filmes de terror do século XXI.
O que o futuro reserva para as bruxas do cinema
Com ‘Da Magia à Sedução 2’ chegando, é tentador pensar que o cinema de bruxas está em um momento de nostalgia. Mas a verdade é mais interessante: cada geração reinventa a bruxa à sua imagem. Nos anos 40, ela era glamour e desejo. Nos 70, atmosfera e pesadelo. Nos 90, raiva adolescente e empoderamento feminino. Hoje, com ‘Wicked’ e ‘A Bruxa’, ela é sobre identidade, preconceito e libertação.
O que não muda é o fascínio. A bruxa continua sendo a figura que o cinema usa para explorar o que a sociedade reprime — o medo do desconhecido, o desejo de poder, a raiva contra a injustiça. Ela é o espelho que preferimos não olhar diretamente, mas do qual não conseguimos desviar os olhos. E enquanto houver histórias para contar, haverá bruxas para contá-las.
Se você já viu todos os filmes desta lista, vale revisitar — cada um deles ganha novas camadas a cada assistida. Se ainda não viu algum, este é o momento perfeito. E se você é fã de ‘Da Magia à Sedução’, saiba que a volta das irmãs Owens não é apenas um aceno à nostalgia: é a prova de que as melhores histórias de bruxas são aquelas que nunca morrem de verdade.
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Perguntas Frequentes sobre os Melhores Filmes de Bruxas
Qual é o melhor filme de bruxas de todos os tempos?
‘A Bruxa’ (2015), de Robert Eggers, é amplamente considerado o melhor filme de bruxas já feito. Ele trata a bruxaria como uma realidade histórica e psicológica, explorando a fé, a paranoia e a libertação de forma única. A atuação de Anya Taylor-Joy e a direção de fotografia naturalista elevam o filme a um patamar que nenhum outro do subgênero alcançou.
Onde assistir aos melhores filmes de bruxas?
A maioria dos filmes desta lista está disponível em plataformas de streaming. ‘Suspiria’ e ‘A Bruxa’ estão no Prime Video e no Mubi. ‘Wicked’ está no cinema e chegará ao streaming em breve. ‘Da Magia à Sedução’ está no Max. ‘Jovens Bruxas’ e ‘Abracadabra’ estão no Disney+. ‘Convenção das Bruxas’ está no Prime Video. ‘Kiki’s Delivery Service’ está na Netflix. ‘As Bruxas de Eastwick’ está no Paramount+. ‘Casei-Me com uma Feiticeira’ está no Prime Video.
‘Da Magia à Sedução 2’ é uma sequência direta do filme de 1998?
Sim, ‘Da Magia à Sedução 2’ é uma sequência direta do filme de 1998, retomando a história das irmãs Owens décadas depois. O filme original virou cult após a recepção fria da crítica, e a sequência explora o que aconteceu com a família desde então.
Quais filmes de bruxas são baseados em livros?
Vários dos melhores filmes de bruxas têm origem literária. ‘Convenção das Bruxas’ é baseado no livro infantil de Roald Dahl. ‘Wicked’ é adaptado do musical da Broadway, que por sua vez é baseado no romance de Gregory Maguire. ‘Da Magia à Sedução’ é baseado no romance de Alice Hoffman. ‘Kiki’s Delivery Service’ é baseado no livro de Eiko Kadono.
Qual filme de bruxa é mais assustador?
‘A Bruxa’ (2015) é o mais assustador, mas não por sustos fáceis — o terror vem da atmosfera opressiva, da paranoia religiosa e do desconforto psicológico. ‘Suspiria’ (1977) também é profundamente perturbador, mas de uma forma mais visual e onírica. ‘Convenção das Bruxas’ (1990) é o mais traumático para quem viu na infância.

