‘Synchronic’ na Netflix: a droga que torna a viagem no tempo um pesadelo

Analisamos ‘Synchronic’ na Netflix: como a droga sintética e as regras implacáveis transformam viagem no tempo em terror existencial, e a conexão com o universo Lovecraftiano de Benson e Moorhead.

Existe um tipo de filme de viagem no tempo que trata o conceito como um truque de mágica: piscou, mudou o passado, tudo se resolve. Raramente vemos produções que encarem a ideia com o peso que ela merece — o peso de mexer com causa e efeito, com a própria realidade. É exatamente essa raridade que coloca Synchronic na Netflix em um patamar diferente. Dirigido pela dupla Justin Benson e Aaron Moorhead, o filme não usa máquinas, nem portais, nem raios de luz azulada. A viagem aqui vem de uma droga sintética que age direto na glândula pineal do cérebro, criando uma espécie de falha temporal. E o resultado é menos uma aventura e mais um mergulho em um pesadelo lúcido.

Talvez seja por isso que o filme funciona tão bem. Ao associar a viagem no tempo ao uso de drogas, Benson e Moorhead capturam algo que a maioria das produções do gênero ignora: a imprevisibilidade. Quando você toma um comprimido, não sabe exatamente o que vai sentir. No caso de ‘Synchronic’, você também não sabe para onde vai — ou melhor, para quando vai. E essa incerteza é o motor do terror.

Como ‘Synchronic’ na Netflix transforma a viagem no tempo em terror puro

Como 'Synchronic' na Netflix transforma a viagem no tempo em terror puro

Esqueça a ideia de escolher uma época e um lugar. Em ‘Synchronic’, viajar no tempo é como rolar dados espaciais. Os personagens podem acabar no calor escaldante do deserto do Saara, no meio da Idade do Gelo cercados por animais extintos, ou em um campo de batalha histórico. Em uma das sequências mais perturbadoras, um dos personagens cai no meio de um ritual de um culto aterrorizante. E não há como controlar nada disso.

O que torna tudo ainda mais aterrorizante é o conjunto de regras rígidas que o filme estabelece. Quem viaja tem uma contagem regressiva invisível de sete minutos. Se a pessoa se afastar mais de vinte pés do ponto de aterrissagem antes do tempo zerar, fica presa permanentemente no passado — séculos ou milênios distante de qualquer chance de retorno. Eu lembro de assistir a essa cena específica e sentir o estômago embrulhar: a câmera fica fixa no personagem, o relógio imaginário correndo, e você sabe que qualquer movimento em falso é fatal. Não é um suspense construído com sustos fáceis; é uma tensão existencial.

E as regras não param por aí. O filme estabelece que um ferimento sofrido no passado pode deixar você sangrando no presente. Essa lógica implacável tira qualquer glamour da viagem no tempo. Não há espaço para turismo temporal ou para corrigir erros do passado com um sorriso. Há apenas sobrevivência.

É claro que, como quase todo filme do gênero, ‘Synchronic’ carrega seus paradoxos e contradições internas. Mas a diferença é que a dupla de diretores garante que a narrativa siga uma lógica própria, coerente do início ao fim. Aliás, a fotografia de Justin Benson e a montagem de Michael Felker trabalham juntas para sustentar essa coerência: os cortes secos e a paleta dessaturada reforçam a sensação de que o tempo é um ambiente hostil, não um playground. O resultado é um filme que termina de forma satisfatória, ainda que com uma ambiguidade que convida à reflexão — e, para quem conhece o trabalho dos diretores, essa ambiguidade não é um defeito, é uma assinatura.

O universo Lovecraftiano por trás de ‘Synchronic’ na Netflix

Quem acompanha o trabalho de Benson e Moorhead sabe que eles não são novatos. Antes de dirigirem episódios de ‘Loki’, ‘Cavaleiro da Lua’ e ‘Demolidor: Renascido’ no MCU, a dupla construiu uma filmografia de terror indie altamente aclamada. E o mais interessante: todos esses filmes se conectam em um universo compartilhado de horror lovecraftiano.

Conhecido carinhosamente pelos fãs como “Shitty-Carl Universe”, esse universo inclui ‘Resolution’, ‘O Culto’, ‘Primavera’, ‘Synchronic’ e ‘Something in the Dirt’. Cada um desses filmes mergulha em ficção científica de alto conceito com uma camada de horror cósmico que lembra o mestre H.P. Lovecraft — não no sentido de monstros tentaculares, mas na ideia de forças incompreensíveis que estão além do controle humano.

Essa conexão adiciona uma camada de profundidade a ‘Synchronic’ que passa despercebida para quem assiste sem esse contexto. A droga, a glândula pineal, as viagens descontroladas — tudo isso se encaixa em um universo maior onde o desconhecido não é um cenário, mas um antagonista. É a sensação de que existe algo muito maior em jogo do que a história de dois amigos tentando salvar uma jovem.

Para quem quer começar a explorar esse universo, ‘Synchronic’ na Netflix é o ponto de partida ideal. É o mais acessível da safra indie da dupla, com nomes conhecidos como Anthony Mackie e Jamie Dornan, e ao mesmo tempo carrega todas as marcas autorais de Benson e Moorhead. Depois dele, vale a pena buscar os outros títulos e montar o quebra-cabeça amorfo que eles vêm construindo há mais de uma década.

Vou ser direto: ‘Synchronic’ não é um filme para quem busca ação frenética ou respostas fáceis. É um thriller cerebral que exige paciência e recompensa a atenção aos detalhes. Se você curte ficção científica que leva suas premissas a sério e não tem medo de terminar com mais perguntas do que respostas, este é o seu tipo de filme. Se prefere viagem no tempo como entretenimento leve, talvez seja melhor procurar outra coisa. Mas, para mim, é exatamente essa seriedade que faz de ‘Synchronic’ uma joia escondida no catálogo da Netflix — e um lembrete de que o terror mais eficaz não está em monstros, mas na perda de controle sobre o tempo e o espaço.

E você, já assistiu? A contagem regressiva de sete minutos funcionou para você ou achou as regras limitantes demais? Quero saber a sua opinião.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Synchronic’

Onde assistir ‘Synchronic’?

‘Synchronic’ está disponível exclusivamente na Netflix. É um original da plataforma, então não deve migrar para outros serviços.

‘Synchronic’ é baseado em história real?

Não. O filme é uma ficção original escrita por Justin Benson, inspirada em conceitos de horror cósmico e na ideia de drogas que alteram a percepção temporal.

Preciso assistir outros filmes de Benson e Moorhead antes de ‘Synchronic’?

Não. ‘Synchronic’ funciona como filme autônomo. Porém, assistir ‘Resolution’ e ‘O Culto’ enriquece a experiência, pois todos os filmes da dupla compartilham um universo narrativo sutil.

Quanto tempo dura ‘Synchronic’?

‘Synchronic’ tem 1 hora e 41 minutos de duração. O ritmo é deliberado, mas não arrastado, com foco na construção de tensão.

‘Synchronic’ tem cenas pós-créditos?

Não. O filme termina de forma conclusiva, sem cenas extras durante ou após os créditos.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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