Celebramos os 36 anos de ‘Os Bons Companheiros’ e explicamos por que o clássico de Scorsese segue impecável: da montagem revolucionária à recusa de redenção, o filme que definiu o crime drama e influenciou gerações.
Há exatamente 36 anos — em 19 de setembro de 1990 — um filme sobre a máfia chegava aos cinemas sem fazer alarde de revolução. ‘Os Bons Companheiros’ não era o primeiro crime drama de Martin Scorsese, nem seria o último. Mas, décadas depois, é impossível discutir o gênero sem passar por ele. Não como uma referência entre outras: como o marco que redefiniu as regras do jogo.
O aniversário de hoje não é apenas uma data para celebrar um clássico. É uma oportunidade de entender por que esse filme, quase quatro décadas depois, continua sendo o parâmetro contra o qual todo crime drama é medido. E a resposta é mais profunda do que ‘tem boas atuações’ ou ‘a direção é boa’ — é sobre como Scorsese quebrou a espinha dorsal do gênero para reconstruí-lo do zero.
O que ‘Os Bons Companheiros’ fez que ninguém tinha feito antes
Antes de 1990, o crime drama tinha uma gramática estabelecida: o anti-herói trágico, a ascensão e queda, o peso moral do crime. ‘O Poderoso Chefão’ já tinha levado isso ao paroxismo — a máfia como metáfora do capitalismo americano, com cerimônia e tragédia shakespeariana.
Scorsese fez o oposto. Ele pegou a máfia e a despinou de qualquer grandeza. Não há cerimônia aqui. Há um narrador que começa o filme dizendo ‘desde que me entendo por gente, sempre quis ser um gangster’ — e a câmera acompanha essa ambição com a energia de um videoclipe, não com a solenidade de uma ópera. A famosa sequência da entrada no Copacabana, com a steadycam seguindo Henry Hill e Karen pelos fundos do clube, é uma declaração de intenções: o glamour é real, mas é construído nos bastidores, entre propinas e empurrões.
E é aí que mora a genialidade. Scorsese entendeu que o crime não é uma exceção na vida americana — é uma extensão dela. O filme não julga Henry Hill; ele o observa com a mesma fascinação que o próprio Henry sente pelo mundo que escolheu. Essa perspectiva interna, sem distanciamento moral, era revolucionária. Não havia ‘lição’ no final. Havia apenas a queda — e nem ela era trágica no sentido clássico. Era patética, quase cômica.
Como o filme redefiniu o crime drama para sempre
É difícil encontrar um crime drama relevante pós-1990 que não deva algo a ‘Os Bons Companheiros’. A estrutura de voice-over que narra a vida cotidiana do crime — o que se come, como se trai, como se lava dinheiro — foi copiada à exaustão. Filmes como ‘Cassino’ (do próprio Scorsese), ‘O Irlandês’, e até séries como ‘Família Soprano’ e ‘Narcos’ carregam o DNA desse filme.
Mas a influência vai além da narrativa. Scorsese estabeleceu um novo ritmo para o gênero: a montagem frenética, a trilha sonora pop que contrasta com a violência, a alternância entre humor e brutalidade em segundos. Lembra da cena em que Tommy DeVito (Joe Pesci) conta a história ‘engraçada’ para Henry e Morris? A tensão sobe de zero a absoluta em menos de um minuto, e a câmera não pisca. Esse tipo de construção de suspense — que mostra o perigo antes do personagem perceber — é pura gramática hitchcockiana, mas aplicada a um contexto que Hitchcock nunca tocaria. E a montagem de Thelma Schoonmaker, parceira de longa data de Scorsese, é tão essencial quanto a direção: os cortes secos e as elipses definem o ritmo pulsante do filme, transformando a edição em uma personagem invisível que guia nossa ansiedade.
E há algo mais sutil: o filme recusou a redenção. Henry Hill termina como um homem comum, entregue à vida de testemunha protegida, reclamando de ter que pedir molho de tomate no supermercado. Não há catarse. Não há justiça poética. Essa recusa em oferecer conforto moral foi um ato de coragem que poucos filmes do gênero ousaram repetir — e quando tentaram, raramente funcionaram com a mesma eficácia.
Números que impressionam — e resistem ao tempo
Os números contam parte da história. No Rotten Tomatoes, ‘Os Bons Companheiros’ mantém 93% de aprovação dos críticos e 97% do público — uma raridade para qualquer filme, especialmente para um com quase quatro décadas de estrada. Essa discrepância mínima entre crítica e audiência é reveladora: o filme funciona em duas velocidades. Para quem busca entretenimento puro, há ação, humor e tensão. Para quem quer camadas, há um estudo psicológico sobre lealdade, ambição e a banalidade do mal que recompensa revisões infinitas.
Os prêmios também ajudam a explicar a longevidade. Foram cinco BAFTAs — incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor — e o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Joe Pesci, que transformou Tommy DeVito em um dos personagens mais citados e imitados da história do cinema. Pesci, com seus 1,60m e uma capacidade de alternar entre charmosa ameaça e violência explosiva em milissegundos, criou um arquétipo que ainda hoje é referência para qualquer ator que precise interpretar um capanga imprevisível.
Mas os prêmios são consequência, não causa. O que mantém o filme vivo é que ele continua sendo redescoberto por novas gerações — e cada geração encontra algo diferente. Quem assiste hoje, no streaming, talvez note detalhes que passavam despercebidos no cinema: a paleta de cores quentes que envelhece conforme a vida de Henry se deteriora, ou a forma como a câmera de Michael Ballhaus (que também fotografou ‘A Última Tentação de Cristo’) se move em sintonia com o estado emocional dos personagens. A trilha sonora — que vai de Tony Bennett a Sid Vicious — reforça a energia caótica de uma vida vivida no limite, onde cada música parece um comentário irônico sobre a cena.
Scorsese, De Niro e o auge de uma parceria histórica
Discutir ‘Os Bons Companheiros’ é inevitavelmente discutir o lugar de Scorsese na história do cinema. E aqui preciso ser direto: este é o filme em que Scorsese encontrou o equilíbrio perfeito entre sua veia autoral e o entretenimento puro. ‘Taxi Driver: Motorista de Táxi’ é uma obra-prima, mas é uma experiência desconfortável, quase claustrofóbica. ‘Cabo do Medo’ é um exercício de tensão brilhante, mas menor em ambição. ‘Assassinos da Lua das Flores’, seu trabalho mais recente, é um épico maduro e necessário — mas carrega o peso de um cineasta octogenário refletindo sobre a história americana.
‘Os Bons Companheiros’ não tem esse peso. É Scorsese no auge da energia, com 47 anos, ainda com fome de provar algo. A parceria com Robert De Niro — que já tinha rendido ‘Taxi Driver’, ‘Touro Indomável’ e ‘O Rei da Comédia’ — aqui se expande para um elenco coral onde De Niro interpreta Jimmy Conway, o mentor que esfria conforme o filme avança. É uma das melhores performances de De Niro, sim, mas o filme pertence a Ray Liotta, que infelizmente nos deixou em 2022, e cuja narração cansada dá o tom de nostalgia amarga que atravessa toda a obra.
Curiosamente, ‘Os Bons Companheiros’ é frequentemente citado nas conversas sobre qual é o melhor filme de Scorsese. E eu entendo o argumento. Mas prefiro pensar que é o mais puro Scorsese: todos os seus temas — violência, masculinidade, culpa católica, a sedução do poder — estão aqui, mas sem a pretensão de serem ‘importantes’. E é exatamente essa falta de pretensão que torna o filme tão duradouro. Ele não tenta ser mais do que é. Ele apenas é — perfeitamente.
O legado que não envelhece
Ao completar 36 anos, ‘Os Bons Companheiros’ ocupa um espaço raro no cinema: é ao mesmo tempo um artefato de sua época e um filme que parece não envelhecer. As referências culturais — o corte de cabelo de Tommy, a frase ‘as funny as a fucking clown’, a entrada no Copacabana — já fazem parte do imaginário coletivo. Mas o que impressiona é que o filme continua sendo descoberto, não apenas revisitado.
E a pergunta que fica é: quantos filmes de 2026 terão essa mesma capacidade daqui a 36 anos? Em uma era de blockbusters serializados e universos compartilhados, ‘Os Bons Companheiros’ é um lembrete de que o cinema de gênero pode ser arte sem deixar de ser entretenimento. Não precisa de sequência. Não precisa de universo expandido. Precisa apenas de uma visão clara, um elenco no auge e um diretor que entende que violência não é o assunto — é apenas o idioma.
Se você nunca viu, os 36 anos são um bom pretexto. Se já viu, talvez seja hora de rever com outros olhos — prestando atenção na montagem, na trilha sonora, na forma como Scorsese constrói cada cena para servir à narrativa interna de Henry. E se você discorda que este é o crime drama que definiu o gênero, eu quero ouvir: qual filme ocuparia esse lugar na sua lista? Porque essa é uma discussão que, assim como o filme, não parece ter data para acabar.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Os Bons Companheiros’
Onde assistir ‘Os Bons Companheiros’?
‘Os Bons Companheiros’ está disponível para streaming na Netflix e para aluguel em plataformas como Amazon Prime Video, Google Play e Apple TV.
Quanto tempo dura ‘Os Bons Companheiros’?
O filme tem 2 horas e 25 minutos de duração. Apesar do ritmo intenso, a narrativa é fluida e não há cenas desnecessárias.
‘Os Bons Companheiros’ é baseado em história real?
Sim. O filme é baseado no livro ‘Wiseguy’ de Nicholas Pileggi, que conta a história real do ex-mafioso Henry Hill e sua vida no crime em Nova York.
Qual a classificação indicativa de ‘Os Bons Companheiros’?
No Brasil, o filme é classificado como 16 anos, devido à violência explícita, linguagem forte e uso de drogas.
‘Os Bons Companheiros’ tem cenas pós-créditos?
Não. O filme termina de forma conclusiva e não há cenas durante ou após os créditos.

