‘My Name’: o K-drama que mistura ‘Kill Bill’ e ‘Os Infiltrados’

Muito além da soma de suas referências, o My Name K-drama usa a violência física e a paranoia da infiltração para falar sobre luto e o apagamento da própria identidade. Entenda por que a série supera ‘Kill Bill’ e ‘Os Infiltrados’ ao fazer da dor o seu motor.

Todo mundo ama uma boa colagem. Junte a vingança estilizada de ‘Kill Bill’ com a tensão paranoica de ‘Os Infiltrados’ e, na teoria, você tem a receita de um thriller viciante. Na prática, a maioria dos diretores se perde na imitação e esquece a alma. É aqui que o My Name K-drama surpreende: ele não apenas copia a gramática de seus ídolos, mas usa essa linguagem para falar sobre o vazio que a perda deixa. A série não é um mosaico de referências; é um estudo sobre o luto vestido com couro e armas brancas.

Como ‘My Name’ reinventa a paranoia de ‘Os Infiltrados’

Martin Scorsese pegou a premissa de ‘Internal Affairs’ (2002) e a transformou em um duelo de atores em ‘Os Infiltrados’. O conflito era claro: o rato da máfia contra o espião da polícia. O roteiro de ‘My Name’ aproveita essa dinâmica, mas a torce de uma forma brilhante. Yoon Ji-woo (Han So-hee) não é um peão em um lado do tabuleiro — ela é o próprio tabuleiro. Após o assassinato do pai, ela se alia a Choi Mu-jin, o chefão do cartel Dongcheon, e infiltra-se na polícia sob a identidade de Oh Hye-jin.

A genialidade da série está em como ela manuseia a lealdade. Em ‘Os Infiltrados’, você teme a descoberta; em ‘My Name’, você teme a dissolução. Ji-woo alterna entre ser a espiã perfeita de Mu-jin e confiar no parceiro de delegacia, o detetive Jeon Pil-do. O espectador, preso à perspectiva dela, nunca sabe em quem ancorar. Essa desconfiança não é um truque de roteiro barato — é o reflexo de uma mulher que não tem mais chão firme. A paranoia aqui é interna.

A coreografia do luto: por que a violência não é só espetáculo

É impossível ignorar os ecos de ‘Kill Bill’. A Noiva e Ji-woo compartilham a mesma devoção absoluta à retribuição. Mas enquanto o filme de Tarantino transforma a vingança em uma ópera pop, estilizada e quase lúdica, ‘My Name’ faz o caminho inverso. A violência aqui é suada, feia e desesperada.

Pegue as cenas de combate da série. Repare como o diretor de ação evita a elegância gratuita dos filmes de artes marciais convencionais. A câmera costuma ficar colada em Han So-hee, capturando o esforço físico, a falta de ar, a hesitação antes de desferir um golpe fatal. Aquela sequência no beco no episódio 2, onde ela precisa provar seu valor para a máfia, não é coreografada para parecer legal — é coreografada para parecer uma questão de vida ou morte. Os ossos quebram com um peso seco. O som dos impactos é desconfortável. A dor é palpável. O espetáculo físico não existe para entreter, mas para escancarar o tamanho da ferida que ela tenta cauterizar com socos e facas. A ação é o sintoma do luto.

O apagamento de si mesma e o custo da sobrevivência

O apagamento de si mesma e o custo da sobrevivência

O traço mais original da série está no seu tratamento da identidade. A Noiva de Tarantino recupera seu nome e seu passado ao final da jornada. Ji-woo faz o oposto. Para se infiltrar e descobrir quem matou seu pai, ela precisa assassinar quem ela era. O nome da série não é irônico por acaso. Ao assumir a identidade de Oh Hye-jin, ela entrega seu próprio nome em sacrifício.

Esse é o ponto onde ‘My Name’ supera suas referências. O duelo físico com os inimigos é apenas a superfície. A batalha real é psicológica — e a série tem a coragem de mostrar que a vingança não restaura o que foi perdido. A grande conspiração revelada no último arco não apenas muda o jogo de poder: ela destrói o último vestígio de sentido na vida de Ji-woo. O luto, como a série parece argumentar, não tem lógica, e a retribuição cobra um preço que ninguém deveria estar disposto a pagar.

Veredito: muito além da soma de suas partes

Vou ser direto: chamar ‘My Name’ de ‘o K-drama que mistura Kill Bill e Os Infiltrados’ é um elogio que, paradoxalmente, vende o produto errado. Sim, a genética está lá. Mas reduzir a obra a uma soma de influências é ignorar o seu coração opressor e original. Em apenas oito episódios, a série consegue entregar um mistério envolvente e cenas de ação de tirar o fôlego, sem nunca perder de vista o custo emocional de cada gota de sangue derramada.

Se você busca apenas coreografias limpas e um final com todos os laços amarrados, vai se frustrar. A série deixa questões em aberto porque a dor também não tem respostas fáceis. Mas se você aguenta a pressão de ver uma pessoa se desmontar por dentro enquanto quebra os outros por fora, ‘My Name’ é uma daquelas experiências que ficam na garganta dias depois dos créditos. Eu assisti há tempo e, honestamente, ainda não recuperei o fôlego daquele último episódio.

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Perguntas Frequentes sobre ‘My Name’

Onde assistir ao K-drama ‘My Name’?

‘My Name’ é um original Netflix e está disponível exclusivamente na plataforma desde outubro de 2021.

Quantos episódios tem ‘My Name’?

A primeira (e única) temporada tem 8 episódios, cada um com aproximadamente 45 a 55 minutos de duração. A história se encerra de forma conclusiva.

‘My Name’ tem segunda temporada?

Não. A série foi concebida como uma história limitada e o arco narrativo de Yoon Ji-woo se encerra de forma definitiva no último episódio.

Preciso ter visto ‘Kill Bill’ ou ‘Os Infiltrados’ para entender a série?

Não. As comparações servem apenas para ilustrar o tom e o estilo narrativo, mas ‘My Name’ funciona perfeitamente como uma obra independente, com sua própria mitologia e personagens.

A violência em ‘My Name’ é muito explícita?

Sim. Diferente de filmes de ação estilizados, a violência aqui é crua, física e desconfortável, com cenas de combate corpo a corpo bastante realistas e sangrentas. Não é recomendado para quem tem sensibilidade ao tema.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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