Em ‘Emily em Paris 6’, Darren Star usa suas próprias férias como desculpa narrativa para mandar a personagem à Grécia e Mônaco. Analisamos como a série abandona o choque cultural parisiense para se tornar um catálogo de viagens de luxo sem atrito dramático.
Existe uma ironia deliciosa em acompanhar uma série chamada ‘Emily em Paris’ que passa mais tempo fugindo da capital francesa do que explorando suas ruas. Depois do gancho deixado no final da última temporada, a Netflix confirmou: Emily em Paris 6 vai mesmo mandar a protagonista para a Grécia e Mônaco. Mas o que isso revela sobre o que a série se tornou? Mais do que um estudo sobre choque cultural, a obra de Darren Star virou um guia de viagens da Europa com orçamento ilimitado — e o criador não faz questão de disfarçar.
Da expatriada à nômade de luxo: a premissa que o roteiro esqueceu
Vamos lembrar do começo. Em 2020, a premissa era clara: uma americana deslocada tentando sobreviver aos rigores do mercado de trabalho e da etiqueta parisiense. O atrito cultural era o motor da comédia. Mas a série desenvolveu uma aversão crônica a ficar parada. Depois de passar a quarta e a quinta temporada na Itália — primeiro com o affair com Marcello, depois como gerente da agência em Roma —, a personagem já não é mais uma expatriada perdida. Ela é uma nômade de luxo. Quando o escritório romano dá errado e ela volta para a França apenas para terminar com Marcello após o pedido de casamento e reatar com Gabriel, fica óbvio que Paris se tornou apenas um ponto de conexão. A premissa original morreu, e o deslocamento geográfico constante é a prova no testamento.
Como Darren Star justifica o roteiro (com as próprias férias)
É aqui que a coisa fica fascinante do ponto de vista da autoria. Em entrevista ao ScreenRant no PaleyFest, Darren Star explicou a lógica por trás de Emily em Paris 6 ir para a Grécia, e a justificativa é tão solta que beira o surreal. Segundo ele: ‘A Grécia é o lugar onde eu gosto de ir de férias. Então é ótimo ver a Emily de férias, ter férias na Grécia’. Pausa para digerir. O mesmo homem que construiu a complexidade de ‘Sexo e a Cidade’ está usando suas preferências de viagem pessoal como motor narrativo de uma série que, teoricamente, deveria tratar do cotidiano e do trabalho de uma expatriada. Ele não tenta vestir a escolha com um arco dramático profundo; a razão de Emily ir para as ilhas gregas é porque o showrunner acha o lugar bacana para passar o verão.
Mônaco e o glamour sem atrito: quando o cartão postal substitui o drama
Se a Grécia é o capricho de férias do criador, a inclusão de Mônaco é a ascensão final da série ao glamour estéril. Star descreveu o país como ‘uma parte surpreendente da história’, elogiando o fato de ser ‘quase França, logo ao lado do sul da França’ e ‘um lugar tão glamouroso’. O problema é que, desde ‘Melrose’ e ‘Barrados no Baile’, Star sabe que o glamour funciona como espetáculo, mas precisa de atrito para funcionar como drama. Mônaco é o oposto do atrito. É um playground de bilionários onde o maior conflito possível é escolher qual iate embarcar. Visualmente, a troca é sintomática: a câmera abandona os apartamentos minúsculos e ruas molhadas de Paris — onde a falta de espaço gerava comédia física e tensão — por enquadramentos amplos de vilas azuis e cassinos, onde o único risco é o sol queimar a pele. Ao transformar a série nessa vitrine de luxo deslocada, o criador abandona a graxa do cotidiano parisiense que dava textura às primeiras temporadas. A série deixa de ser sobre cultura e passa a ser sobre cartão postal.
No fim das contas, Emily em Paris 6 consolida uma mudança de identidade que já vinha se desenhando. A série já não quer ser um retrato da desordem urbana e do choque cultural; quer ser um comercial de turismo de alto padrão. Se você consegue aceitar que a premissa original foi deixada no balcão do aeroporto e quer apenas acompanhar roupas bonitas em cenários deslumbrantes, a passagem por Santorini e Mônaco vai ser um deleite visual. Mas se você ainda busca a graça daquela americana perdida tentando pedir um café em francês ruim, melhor ficar por aqui e rebobinar para 2020.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Emily em Paris 6’
Onde assistir ‘Emily em Paris 6’?
‘Emily em Paris’ é uma produção original da Netflix, então a 6ª temporada estará disponível exclusivamente na plataforma de streaming assim que for lançada.
Por que Emily vai para a Grécia na 6ª temporada?
Segundo o criador Darren Star em entrevista ao PaleyFest, a escolha pela Grécia veio de suas próprias preferências de viagem. Ele afirmou que gosta de ir às ilhas gregas nas férias e quis transportar essa experiência para a tela.
‘Emily em Paris 6’ se passa inteiramente na Grécia e Mônaco?
Não. A série deve dividir o tempo entre os novos cenários mediterrâneos e a já tradicional rotina em Paris. No entanto, o foco narrativo e promocional tem se voltado fortemente para as locações fora da França.
Emily volta a trabalhar em Paris na nova temporada?
Após os percalços na agência de Roma na 5ª temporada, Emily retorna à França, mas os deslocamentos constantes indicam que seu status como ‘expatriada fixa’ em Paris continua em segundo plano frente à sua vida nômade de luxo.

