Analisamos como ‘Lanterns HBO’ abandona a ópera espacial para abraçar o noir policial de ‘True Detective’. Com Tom King, Damon Lindelof e um elenco de peso, a série surge como o antídoto adulto do DCU contra a fadiga de super-heróis.
Existe uma ironia estrutural em pegar um personagem cujo dom é viajar pelo cosmos e trancá-lo num cenário lamacento para resolver um homicídio. A série Lanterns HBO faz exatamente isso, e a aposta é tão contra-intuitiva que pode ser o melhor movimento do DCU até agora. Quando o público já não sente nada vendo galáxias explodindo em CGI, a única saída é forçar o herói a olhar para o próprio chão.
Do espetáculo cósmico para o asfalto: a aposta noir
A última vez que a DC tentou adaptar o Lanterna Verde para o live-action, recebemos o filme de 2011 — uma aula de como não usar tecnologia digital, mais parecido um videogame de PS3 com síndrome de excesso. A tentação de fazer ‘Guerra nas Estrelas com anéis mágicos’ sempre rondou o personagem, afinal, a mitologia fala de um esquadrão de polícia intergaláctica. Mas a série Lanterns escapa dessa armadilha ao trocar o espetáculo grandioso pelo ritmo arrastado e tenso de um procedural policial. A inspiração declarada não é a fantasia espacial, mas a gramática de True Detective. Em vez de alienígenas e planetas distantes, temos uma investigação de assassinato na Terra. É a mesma estratégia que Watchmen usou em 2019: pegar o mito dos quadrinhos e esfregá-lo no asfalto sujo do mundo real. Visualmente, a promessa é o contraste brutal: o brilho esmeralda do anel cortando a penumbra de um cenário rural lamacento, não iluminando nebulosas distantes.
A química Chandler e Pierre: de ‘Friday Night Lights’ ao DCU
O tom sério da série não é apenas uma promessa de marketing; está escancarado no currículo do elenco. Kyle Chandler, o eterno Coach Taylor de Friday Night Lights, assume o manto de Hal Jordan. Já Aaron Pierre — revelação intensa de Rebel Ridge e ator em The Underground Railroad — vive John Stewart. Nenhum dos dois é conhecido por comédia pastelão ou blockbusters levezinhos. Chandler traz o peso do homem comum sob pressão, e Pierre tem a presença física e a gravidade necessárias para um ex-fuzileiro. Quando os dois dividem a tela como o veterano cínico e o novato idealista, a dinâmica ecoa o ‘buddy cop sombrio’ de Slow Horses — e não a dupla dinâmica de heróis sorridentes dos filmes da Marvel.
A sombra de ‘Watchmen’ e o peso nos bastidores com Lindelof e Tom King
A sombra de Watchmen é longa, e não por acaso. Damon Lindelof, o showrunner da aclamada e polêmica série de 2019 da HBO, está de volta como criador de Lanterns ao lado de Tom King — um escritor de quadrinhos com passado na CIA que sabe como ninguém dessacralizar ícones. O problema é que Lindelof carrega bagagem pesada. Em 2023, o livro Burn It Down, de Maureen Ryan, denunciou um ambiente de trabalho tóxico e racista liderado por ele e Carlton Cuse em Lost, com relatos confirmados pelo ator Harold Perrineau e vários membros do escritório de roteiristas. A presença de Lindelof garante que teremos a mesma densidade temática e o pessimismo de Watchmen, mas exige que a produção seja vigiada de perto. A narrativa pode até lidar com o abismo moral, mas os bastidores não podem se dar ao luxo de repetir os erros do passado.
Por que o procedural terrestre é o antídoto para a fadiga de heróis
James Gunn construiu o DCU até aqui com duas notas musicais: o otimismo retrô de Superman (2025) e o humor sangrento de Pacificador e Comando das Criaturas. Funciona bem, mas estamos em 2026 e a fadiga de super-heróis é uma realidade clínica. The Boys e Invencível já deconstruíram o gênero com sangue e ironia; Coringa e Logan provaram que o drama adulto e isolado vende bilheteria. Onde Lanterns HBO se encaixa? No vácuo do drama adulto que dispensa o escudo da paródia. Ao transformar um conceito fantástico num neo-western de terra batida, a DC reconhece que o público não quer mais só ver céus rasgados e lasers coloridos. Quer sujeira nas botas, dilemas morais sem resolução fácil e um detetive olhando para o abismo. É a mesma razão pela qual Pinguim funcionou tão bem recentemente: a mitologia serve de pano de fundo para o crime, não de desfile de poderes.
A série exige do público a mesma paciência que exige de seus detetives. O anel pode criar qualquer coisa no universo, mas a produção se recusa a criar o óbvio: mais do mesmo. Se a execução acompanhar a ambição, temos um divisor de águas para o gênero na TV. A questão não é se o público de heróis está pronto para o noir, mas se o noir está pronto para a luz verde.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Lanterns’
Onde assistir a série Lanterns do DCU?
‘Lanterns’ será uma produção original da HBO, disponível para streaming na Max. A data de estreia está prevista para o catálogo de 2026.
Quem são os Lanternas Verdes na nova série da HBO?
Os protagonistas de ‘Lanterns’ são Hal Jordan, interpretado por Kyle Chandler, e John Stewart, vivido por Aaron Pierre. A série foca na dinâmica do veterano cínico e do novato idealista.
A série Lanterns tem conexão com o filme de 2011?
Não. ‘Lanterns’ é um reboot completo dentro do novo Universo DC (DCU) comandado por James Gunn. O filme de 2011 com Ryan Reynolds pertence ao antigo universo e é ignorado nesta nova continuidade.
Por que a série Lanterns tem tom de True Detective?
A escolha pelo tom noir e procedural policial é uma estratégia para diferenciar a série das óperas espaciais comuns e combater a fadiga de super-heróis. Os criadores querem focar numa investigação terrestre de assassinato, usando a mitologia do anel como pano de fundo para um drama adulto.
Quem são os roteiristas e criadores de Lanterns?
A série foi criada por Damon Lindelof (Watchmen, Lost) e Tom King (escritor de quadrinhos com passado na CIA), com Chris Mundy (Slow Horses) atuando como showrunner. A equipe sinaliza um tom mais denso e voltado para o drama adulto.

