‘Normal’: como a dupla de ‘Nobody’ criou o novo thriller de Bob Odenkirk

Analisamos como a parceria entre Bob Odenkirk e Derek Kolstad em ‘Normal’ troca o balé de tiros de ‘John Wick’ pela tensão sufocante de um faroeste gélido. Descubra por que o filme usa o frio real e o pavor de ‘Premonição’ para reinventar a ação.

Quando anunciaram ‘Normal’, o novo filme de Bob Odenkirk, o primeiro impulso do público — e, sinceramente, da crítica também — foi encaixá-lo como uma continuação natural da reinvenção física do ator em ‘Nobody’. A expectativa era óbvia: mais um viés estilo ‘John Wick – De Volta ao Jogo’, com um homem comum deixando a lata de lixo de lado para distribuir socos estilizados. Mas a realidade é que o filme faz algo muito mais interessante. Ele troca o neon dos assassinos de aluguel pela neve e pelo silêncio de um faroeste moderno.

A virada de chave não é acidental. Ela nasce diretamente da dinâmica de cocriação entre Odenkirk e o roteirista Derek Kolstad. Se em ‘Nobody’ a dupla testou os limites de um ator cômico na ação pura, em ‘Normal’ eles decodificam o gênero de uma vez por todas. O resultado é um filme que entende por que a violência na tela funciona — e decide usar isso para construir tensão, e não apenas coreografia.

Por que a parceria Kolstad-Odenkirk trocou explosões por motivação

Por que a parceria Kolstad-Odenkirk trocou explosões por motivação

O grande trunfo deste filme está na origem de seus criadores. Kolstad não é apenas o cara que criou o universo de ‘John Wick’; ele é um entusiasta da estrutura narrativa. E Odenkirk? O homem passou décadas escrevendo e performando comédia de vanguarda e drama pesado em ‘Better Call Saul’. Quando os dois se sentam na mesma sala, a conversa não é sobre o tamanho da explosão, mas sobre a lógica do mundo.

Como o próprio Kolstad revelou, o processo era regido por uma regra simples: ‘o ferro afina o ferro, e a melhor ideia vence’. Isso significa que o roteiro não era um documento estático. Odenkirk, por sua natureza de escritor, questionava as motivações dos personagens até o último dia de filmagem. Há uma diferença colossal entre um ator que apenas decora falas e um que entende a mecânica da cena. Quando a câmera filma Odenkirk na pele de Ulysses, o xerife interino, a gente sente o peso de um cara que está processando a corrupção da pequena cidade, e não apenas esperando a deixa para dar um murro.

A violência que respira: de ‘John Wick’ para a gramática do faroeste

A transição mais radical de ‘Normal’ está na troca de referências. Kolstad deixou claro que o filme bebe muito mais da fonte do faroeste do que do thriller de assassinos. E isso faz todo o sentido quando você olha a premissa: um estranho chega a uma cidade corrupta, assume o cargo de xerife e descobre que a lei local é uma farsa. Substitua o cavalo por uma pickup e o revólver por uma espingarda, e você tem a estrutura clássica de um western — algo que o diretor Ben Wheatley confirmou ao citar o clássico de Gary Cooper como inspiração.

O que essa mudança de gênero proporciona é o espaço para que a ação respire. No estilo ‘John Wick’, a violência é um balé hipnótico e contínuo. Na gramática do faroeste, a violência é um desfecho inevitável de um acúmulo de tensão. Ulysses não quer lutar; ele é forçado a isso quando percebe que a cidade de Normal, em Minnesota, está podre de dentro para fora. A ação aqui tem consequência e cansaço. É uma escolha madura que respeita a idade e a fisicalidade de Odenkirk, usando suas limitações como parte da narrativa.

O elenco congelando de verdade (e por que isso importa)

O elenco congelando de verdade (e por que isso importa)

Um faroeste só funciona se o vilão e os coadjuvantes desafiam o herói de verdade. E ‘Normal’ acerta na montagem de um elenco que parece viver aquele gelo. A escolha de Henry Winkler como o prefeito Kibner é certeira. Winkler traz uma afabilidade natural que mascara perfeitamente as arestas do personagem. Há uma cena específica em que Kibner e Ulysses discutem no meio de uma nevasca. Odenkirk pessoalmente convidou Winkler para o papel, prometendo fazê-lo confortável — e então o colocou para atuar congelando de verdade. O desconforto físico transborda para a tela e dá à cena uma urgência que o estúdio climatizado jamais conseguiria.

O mesmo vale para a tensão silenciosa com a cidade. Jess McLeod, que vive Alex, relatou como sua cena de abordagem policial por dirigir embriagada foi filmada no último dia, dentro de um estúdio sem aquecimento em Winnipeg. Os dentes batendo não eram direção de ator; eram sobrevivência. E é nesse ambiente hostil que o contraste entre os atores funciona: McLeod traz uma energia solta e expansiva que colide com o Ulysses de Odenkirk, um bloco de gelo contido. Aquele bate-e-volta no carro frio é a cena mais ‘faroeste’ do filme — dois estranhos se medindo antes do duelo.

O pavor de ‘Premonição’ no gelo do faroeste

Colocar Ben Wheatley na direção era a garantia de que esse faroeste nunca seria convencional. O diretor tem um histórico de distorcer gêneros (‘Free Fire’, ‘In the Earth’), e aqui não é diferente. A influência declarada de ‘Premonição’ (o filme de 2000 com Devon Sawa) pode parecer um desvio esquisito para um thriller de ação, mas faz sentido na prática. ‘Premonição’ brinca com a morte como uma força invisível e irônica que esmaga os personagens contra a própria mecânica do mundo.

Em ‘Normal’, essa lógica se aplica à cidade. Os acidentes, as armadilhas e a própria corrupção agem como se o ambiente estivesse conspirando contra Ulysses. A morte não é estilizada; ela é abrupta, quase acidental, o que injeta uma dose de pavor genuíno nas sequências de ação. Wheatley entende que o terror do faroeste não está no tiro, mas na espera pelo tiro.

No fim das contas, ‘Normal’ é a prova definitiva de que a parceria entre Odenkirk e Kolstad merece ser levada a sério. Eles poderiam ter feito uma cópia barata de ‘Nobody’ para capitalizar o sucesso, mas escolheram a estrada mais difícil: subverter o próprio estilo que os consagrou. Se você gosta de ação que constrói personagem e não apenas destrói cenário, esse faroeste gélido exige sua atenção. Quantos atores de comédia teriam o faro para olhar para o criador de ‘John Wick’ e dizer ‘vamos fazer um faroeste nevasco em vez de mais um tiroteio’? Poucos. E Odenkirk provou por que é um deles.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Normal’

‘Normal’ é uma sequência de ‘Nobody’?

Não. Embora ambos estrelados por Bob Odenkirk e escritos por Derek Kolstad, ‘Normal’ é um filme totalmente independente, com personagens, premissa e estilo visual diferentes, focado na gramática do faroeste e não no estilo ‘John Wick’.

Quem dirige ‘Normal’?

O filme é dirigido por Ben Wheatley, conhecido por trabalhos que distorcem gêneros clássicos, como ‘Free Fire’ e ‘In the Earth’. Ele substitui o estilo de ação fluida por uma tensão mais ambiental e abrupta.

Por que ‘Normal’ é comparado a um faroeste?

A estrutura narrativa segue a tradição dos westerns clássicos: um estranho chega a uma cidade corrupta, assume o cargo de xerife e confronta as forças locais. A diferença é que o cenário é a neve de Minnesota em vez do deserto.

Qual a ligação de ‘Normal’ com o filme ‘Premonição’?

O diretor Ben Wheatley citou ‘Premonição’ como inspiração visual e narrativa. Em ‘Normal’, a morte e os acidentes funcionam como forças invisíveis e irônicas do ambiente, assim como os escorregões letais de ‘Premonição’, fugindo da violência coreografada tradicional.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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