Analisamos o erro estrutural de matar Berlin cedo em ‘La Casa de Papel’ e como a crítica social ‘Robin Hood’ e o grito de ‘Bella Ciao’ salvaram a série da obsolescência, além do impacto dos spin-offs na franquia.
É irônico que uma série obcecada por planejamento milimétrico tenha cometido seu maior erro estratégico logo na segunda temporada. Quando Álex Pina escreveu a morte de Berlin, ele encerrava uma história finita, desenhada para o canal espanhol Antena 3. Não fazia ideia de que aquele projeto se transformaria em um fenômeno global após ser adquirido pela Netflix. O criador recentemente admitiu o erro, e a verdade é que La Casa de Papel carrega essa fratura estrutural até hoje — mas sobreviveu a ela graças a um trunfo que vai muito além do roteiro de suspense.
A amputação de Berlin: como a série perdeu seu polo magnético
Matar Berlin na segunda temporada foi uma amputação da qual a série nunca se recuperou totalmente. Em um elenco repleto de personagens moralmente complexos, ele era o polo magnético indiscutível. Doente terminal, misógino, arrogante, mas dotado de um charme cruel que Pedro Alonso esculpiu com olhares e pausas precisas. Ele era o mestre de obras interno, o contrapeso perfeito para o cálculo frio do Professor.
A cena de sua morte, na ponte, segurando a polícia para garantir a fuga dos outros, é comovente e bem executada. Mas o payoff imediato custou caro nos anos seguintes. A série passou as três temporadas seguintes tentando preencher esse vazio com flashbacks — usando um fantasma para tentar colar uma rachadura estrutural. A dinâmica de poder interna do grupo perdeu a tensão visceral que somente Berlin proporcionava. A morte funciona quando encerra uma jornada; aqui, ela interrompeu a de um personagem que ainda tinha muita lenha para queimar. O arrependimento de Pina é o reconhecimento tardio de que o melhor anti-herói da série foi sacrificado no altar de um formato de minissérie que deixou de existir.
Bella Ciao e os milhões do céu: a crítica social que salvou o roteiro
Se a morte prematura de Berlin foi a fratura, a crítica social foi a cola que impediu a casa de desmoronar. Qualquer thriller competente consegue entregar reviravoltas e tiroteios, mas poucos conseguem transformar simpatia em militância. A genialidade da série está na sua camada ‘Robin Hood’ e no uso brilhante de ‘Bella Ciao’ como grito de guerra. A canção antifascista italiana não é apenas trilha sonora; é a ponte narrativa que liga o assalto à Casa da Moeda com a resistência popular real.
Eu me lembro de assistir àquela sequência na terceira temporada, quando milhões de euros são jogados do céu sobre Madri. No momento, não é apenas um gesto espetacular de televisão — é a narrativa se legitimando. O público, tanto o dentro da série quanto o na sala de estar, passa a torcer pelos criminosos porque o sistema roubou deles primeiro. As máscaras de Salvador Dalí e os macacões vermelhos se tornaram ícones de protesto real mundo afora por um motivo: a série vestiu a estética do pop, mas falou a linguagem da revolta. É isso que separa esta obra de dezenas de shows de crime que têm estilo, mas zero substância.
Spin-offs e a tentativa de minerar o ouro enterado
A expansão do universo prova que a franquia sabe de onde vem sua força. Não é coincidência que o primeiro grande spin-off tenha sido ‘Berlin’ (2023). Ambientado antes de sua doença, seguindo sua vida como ladrão de joias, a série é uma tentativa de dar a Pedro Alonso o tempo de tela que ele foi privado na obra original. A primeira temporada do spin-off teve uma recepção mais morna (70% na crítica), mas cumpriu seu papel de explorar o carisma do ator sem o peso da fatalidade iminente.
Com a segunda temporada de ‘Berlin’ chegando em 15 de maio de 2026 — agora focada em uma vingança contra aristocratas que o chantageiam —, a franquia parece determinada a minerar o ouro que enterrou cedo demais. E as possibilidades não param por aí. Uma série sobre o passado de Nairobi, a falsificadora favorita dos fãs, tem potencial dramático enorme. Até mesmo Cincinnati, o filho de Denver e Estocolmo, representa uma porta aberta para uma saga de família do crime no futuro. A mitologia aguenta, mas os spin-offs coreanos e de Berlin mostram que repetir a fórmula não garante o mesmo impacto. O original alcançou 94% de aprovação da crítica porque misturava urgência social com personagens em constante ebulição.
No fim das contas, o legado desta franquia é o de uma obra que sofreu com o próprio sucesso, esticando uma narrativa fechada e pagando o preço mais alto com a morte de seu personagem mais fascinante. Mas sua pulsação social e a ousadia de vestir o público com a mesma máscara dos assaltantes a elevam acima do ruído. Para quem busca um thriller de precisão robótica, ‘La Casa de Papel’ pode frustrar com seus buracos lógicos; para quem busca catarse e relevância social, poucas séries entregam tão bem. Fica a reflexão: será que os próximos capítulos desse universo conseguirão encontrar a mesma urgência sem repetir os erros do passado, ou a sombra de Berlin sempre será maior do que a casa que construíram?
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Perguntas Frequentes sobre ‘La Casa de Papel’
Por que o criador de ‘La Casa de Papel’ se arrependeu de matar Berlin?
Álex Pina admitiu que matar Berlin na 2ª temporada foi um erro porque a série foi inicialmente pensada como uma minissérie. Com a continuação na Netflix, a ausência do personagem mais carismático criou um vazio estrutural que os roteiros tentaram preencher com flashbacks, sem o mesmo impacto.
Onde assistir ‘La Casa de Papel’ e o spin-off ‘Berlin’?
Tanto a série original ‘La Casa de Papel’ quanto o spin-off ‘Berlin’ estão disponíveis exclusivamente na Netflix, já que a plataforma é a proprietária e produtora da franquia.
Quando estreia a 2ª temporada do spin-off ‘Berlin’?
A segunda temporada de ‘Berlin’ está prevista para estrear em 15 de maio de 2026 na Netflix. A nova temporada acompanhará o personagem em uma vingança contra aristocratas que o chantageiam.
Qual é o significado da música ‘Bella Ciao’ em ‘La Casa de Papel’?
‘Bella Ciao’ é um canto antifascista italiano da Segunda Guerra Mundial. Na série, ela funciona como um símbolo de resistência contra a opressão do sistema financeiro, conectando os assaltantes à luta das classes populares e justificando moralmente os crimes da equipe.
‘La Casa de Papel’ é uma série finalizada?
Sim, a história principal de ‘La Casa de Papel’ encerrou definitivamente na 5ª temporada, lançada em 2021. No entanto, o universo continua expandido através de spin-offs, como a série ‘Berlin’ e a versão coreana ‘La Casa de Papel: Coreia’.

