A Euphoria 4ª temporada só teria futuro criativo se Cassie e Maddy fossem escritas por vozes que conhecem o trabalho sexual por dentro. Este artigo explica por que tirar Sam Levinson do centro autoral é condição, não detalhe.
Falar em Euphoria 4ª temporada depois da terceira soa menos como expectativa e mais como controle de danos. O ponto, porém, não é apenas continuar a franquia: é decidir quem tem legitimidade para conduzi-la. Se a HBO quiser extrair algo criativamente viável do colapso recente, o caminho mais interessante está em Cassie e Maddy. Mas esse possível spin-off ou continuação só faz sentido se Sam Levinson deixar o centro autoral e abrir espaço para roteiristas, consultoras e trabalhadoras sexuais com experiência real nesse universo.
Esse é o coração do debate. Não basta mudar a trama; é preciso mudar o olhar. Porque o problema da temporada anterior não foi só excesso ou provocação. Foi a sensação insistente de que personagens femininas estavam sendo observadas de fora, manipuladas para gerar ruído, e não compreendidas por dentro.
Cassie e Maddy ainda são a única faísca dramática que sobrou
No meio do caos narrativo, a dupla formada por Cassie e Maddy continuou tendo uma energia que a série perdeu em quase todas as outras frentes. Sydney Sweeney e Alexa Demie sustentam cenas que, no papel, muitas vezes flertam com o absurdo. E isso ficou claro justamente nos momentos em que o roteiro tentou forçar choque: a reação das duas, mais do que a engenharia do enredo, era o que mantinha alguma verdade emocional em cena.
Se a ideia é imaginar um futuro para a franquia, faz sentido partir delas. Cassie e Maddy funcionam porque incorporam impulsos diferentes da série: desejo de reinvenção, narcisismo, trauma, performance social e uma relação ambígua entre afeto e rivalidade. Há material dramático aí. O risco está em transformar esse material, outra vez, em vitrine de degradação estilizada.
A proposta de colocá-las num ambiente ligado a conteúdo adulto e monetização do próprio corpo pode render algo interessante. Não por si só, mas porque toca em temas que ‘Euphoria’ sempre quis abordar — imagem, consumo, intimidade, validação — sem nunca demonstrar maturidade suficiente para fazê-lo. Nas mãos erradas, vira exploração. Nas mãos certas, pode virar um estudo sobre trabalho, poder e autoencenação na internet.
O problema não é só Sam Levinson: é o ponto de vista que esgotou
Dizer que Levinson deve sair não é um gesto performático. É uma conclusão criativa. Ao longo das temporadas, especialmente quando a série tratou suas personagens femininas em contextos de sexualização extrema, o olhar autoral pareceu menos interessado em consequência do que em impacto imediato. A sensação recorrente era de uma dramaturgia que confundia intensidade com profundidade.
Isso aparece não apenas na escrita, mas na forma. A mise-en-scène de ‘Euphoria’ sempre foi sedutora: luzes de néon, pele brilhando, câmera flutuando, trilha empurrando emoção. O problema é quando essa sofisticação visual passa a embelezar dinâmicas que pediriam mais distanciamento crítico. Em vez de desmontar o espetáculo, a série frequentemente se encantava com ele.
É aí que a autoria pesa. Quando uma narrativa sobre exposição sexual, plataformas pagas e economia do desejo é criada sem participação substantiva de quem conhece esse trabalho por dentro, o resultado tende à caricatura. Não por má-fé obrigatória, mas por limitação de perspectiva. E depois de três temporadas, essa limitação já não parece um tropeço pontual; parece método.
Se o futuro passa por OnlyFans, a série precisa ouvir quem vive esse mercado
Uma Euphoria 4ª temporada centrada em Cassie e Maddy só se sustenta se abandonar a fantasia de que observação externa basta. O universo de plataformas como OnlyFans envolve negociação de imagem, gestão emocional, fronteiras entre persona e vida privada, segurança digital, autonomia financeira e também exploração. Reduzir isso a fetiche de roteiro seria repetir o erro que afundou a credibilidade recente da série.
Por isso, a discussão não deveria parar em ‘contratar consultoria’. Consultoria é o mínimo. O salto real seria trazer trabalhadoras sexuais, ex-criadoras de conteúdo adulto e escritoras que conhecem esse ecossistema para dentro da sala de roteiro, da produção e da construção estética. Não como carimbo de autenticidade, mas como força criativa.
Há um precedente claro no audiovisual recente. Produções que se aproximaram desse universo com mais inteligência entenderam que representação não nasce só de pesquisa; nasce de voz. Quando consultoras com experiência prática participam da escrita, a narrativa ganha detalhes que um olhar de fora normalmente perde: a lógica da monetização, o cálculo de risco, o vocabulário do trabalho, as ambiguidades entre agência e vulnerabilidade.
Sem isso, Cassie e Maddy correriam o risco de virar outra vez aquilo que a série tantas vezes fez delas ser: objetos de observação. Com isso, podem finalmente se tornar sujeitos dramáticos completos.
Há um caminho criativo melhor — e ele é menos voyeurístico
O que tornaria esse desdobramento interessante não seria a promessa de escândalo, mas a possibilidade de reorientar o foco. Cassie poderia ser escrita não apenas como espiral de carência, e sim como alguém tentando transformar performance em sustento. Maddy, por sua vez, tem o cinismo, a inteligência social e a leitura de poder que poderiam fazer dela a personagem mais apta a entender as regras desse mercado.
Uma série realmente boa encontraria tensão justamente onde ‘Euphoria’ costuma simplificar: nos bastidores. Em vez de insistir só em nudez e colapso, valeria observar contratos, algoritmos, gerenciamento de imagem, ciúme entre amigas-sócias, exaustão emocional e a diferença entre autonomia vendida e autonomia real. Isso é drama. E é drama mais rico do que a velha lógica do choque.
Também ajudaria recolocar a franquia em perspectiva dentro da própria TV de prestígio. ‘Euphoria’ nasceu como retrato exagerado de uma juventude hiperestetizada, algo entre melodrama e pesadelo pop. O problema é que o exagero, sem autocrítica, envelhece rápido. Uma eventual reformulação com Cassie e Maddy poderia preservar o interesse da marca, mas com um registro menos adolescente no pior sentido e mais atento às estruturas materiais que cercam essas personagens.
Até tecnicamente isso exigiria mudança. A montagem não precisaria vender cada cena como clímax emocional. A fotografia poderia continuar estilizada, mas sem erotizar tudo o que enquadra. E a trilha, em vez de funcionar como anestesia cool, teria de servir a uma dramaturgia mais precisa. Em suma: menos intoxicação visual, mais observação.
Para quem essa continuação faria sentido — e para quem não faria
Se você ainda enxerga potencial em Cassie e Maddy como personagens, existe um argumento forte a favor de continuar. Elas ainda concentram conflitos férteis, e Alexa Demie e Sydney Sweeney têm presença suficiente para carregar um projeto mais focado. Para esse público, a franquia ainda pode ser recuperável.
Agora, se a expectativa é ver a série repetir a fórmula de excesso visual, erotização e trauma embalados como provocação artística, talvez seja melhor parar por aqui. Repetir esse modelo seria insistir justamente no que tornou a marca criativamente exausta.
O futuro de Euphoria 4ª temporada, portanto, depende menos de enredo do que de poder autoral. Cassie e Maddy podem sustentar um novo capítulo. O que não dá mais é colocá-las, de novo, sob um olhar que as reduz a superfície. Se a HBO quiser salvar esse universo, não precisa apenas trocar de assunto. Precisa trocar de comando.
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Perguntas Frequentes sobre Euphoria 4ª temporada
A 4ª temporada de ‘Euphoria’ já foi confirmada?
Até o momento, a confirmação oficial depende do estágio de desenvolvimento da HBO e de decisões criativas sobre o futuro da franquia. O projeto pode surgir como nova temporada, reformulação ou até derivação focada em personagens específicas.
Sam Levinson vai sair de ‘Euphoria’?
Não há anúncio definitivo de desligamento em todos os cenários possíveis. O debate em torno da saída de Levinson é principalmente criativo: muitos espectadores e críticos veem a troca de comando como necessária para renovar a série.
Cassie e Maddy podem ganhar um spin-off?
Não existe confirmação oficial, mas a possibilidade faz sentido dentro da lógica da franquia. As duas personagens ainda têm apelo, conflito dramático e atrizes capazes de sustentar uma narrativa mais concentrada.
Por que há tanta discussão sobre trabalhadoras sexuais em ‘Euphoria’?
Porque, se a série quiser abordar plataformas adultas, monetização de imagem e trabalho sexual com mais seriedade, precisa incluir pessoas com experiência real nesse mercado. Sem isso, a representação tende a ficar superficial ou voyeurística.
Vale a pena continuar ‘Euphoria’ depois da 3ª temporada?
Vale apenas se a continuação aceitar uma reformulação real. Manter o mesmo olhar criativo e repetir a lógica de choque dificilmente resolveria os problemas que desgastaram a série.

