‘Devs’ e o determinismo: por que a série de Garland merece mais que 82%

Esta crítica de Devs série defende o ritmo contemplativo como parte central da ideia de determinismo em Alex Garland. Em vez de falha, a lentidão funciona como linguagem — e faz muito mais sentido quando a obra é vista em maratona.

‘Devs’ é o tipo de série que muita gente julgou cedo demais. Vista em parcelas, ela pode parecer fria, lenta e até frustrante. Vista em bloco, porém, a proposta de Alex Garland fica muito mais clara: esta não é uma ficção científica sobre descobrir segredos, mas sobre sentir o peso de um universo em que talvez nada possa ser diferente. É por isso que os 82% no Rotten Tomatoes parecem menos um veredito justo e mais um reflexo de recepção apressada.

Quando estreou em 2020, a crítica bateu em pontos previsíveis: ritmo arrastado, diálogos densos, pouca ação. O erro foi medir ‘Devs’ com a régua de um thriller de mistério tradicional. Garland até usa a estrutura do suspense — morte suspeita, empresa opaca, tecnologia secreta —, mas o que o move de fato é outra coisa. O centro da Devs série é o determinismo, e o ritmo contemplativo não atrapalha essa discussão: ele é a própria discussão encenada.

Por que a lentidão de ‘Devs’ não é defeito, mas método

Por que a lentidão de 'Devs' não é defeito, mas método

Garland já vinha trabalhando a ficção científica como laboratório moral em ‘Ex_Machina: Instinto Artificial’ e ‘Aniquilação’. Em ‘Devs’, ele leva essa lógica para a televisão, mas sem se render à necessidade de cliffhangers a cada intervalo. Em vez de acelerar a trama para manter atenção artificialmente, ele cria uma cadência de observação: corredores silenciosos, pausas desconfortáveis, personagens falando como se cada frase carregasse uma tese.

Essa escolha formal importa porque a série trata de um mundo regido por causalidade absoluta. Se tudo está inscrito de antemão, a narrativa não pode se comportar como uma montanha-russa de surpresas arbitrárias. Ela precisa avançar com uma espécie de gravidade. A sensação de inevitabilidade vem daí. Não do susto, mas do arrasto.

Há uma cena que resume bem isso: a primeira entrada de Lily no prédio de Devs. A arquitetura dourada e suspensa, cercada por silêncio quase litúrgico, já comunica que ela não está entrando apenas num laboratório, mas num templo. Garland alonga o momento, insiste na caminhada, no vazio ao redor, na percepção de escala. Em um thriller comum, a sequência seria encurtada para chegar logo à revelação. Aqui, o tempo expandido é a revelação. O espaço existe para esmagar a personagem antes mesmo de qualquer explicação verbal.

Outro exemplo decisivo aparece nas visualizações geradas pela máquina, quando o sistema reproduz eventos do passado e projeta fragmentos do futuro com imagem granulada e som imperfeito. Garland poderia apresentar isso como puro espetáculo tecnológico. Em vez disso, reduz a euforia e enfatiza o desconforto. A baixa definição não é só detalhe estético; ela materializa a ideia de que ver não significa compreender, e de que conhecer o futuro não equivale a escapar dele.

Alex Garland transforma tecnologia em teologia

Um dos méritos menos comentados de ‘Devs’ é perceber que sua ficção científica funciona também como drama religioso. Forest, vivido por Nick Offerman, não é apenas um executivo brilhante. Ele opera como um crente que encontrou uma doutrina capaz de abolir culpa, acaso e responsabilidade. A máquina, para ele, não é uma invenção. É uma via de revelação.

Offerman entende isso com precisão. Sua atuação evita o tom de vilão explícito e aposta numa serenidade quase pastoral. Em vez de explosões, ele oferece convicção. Em vez de histeria, uma tristeza controlada. Isso torna Forest mais perturbador: ele não parece um homem seduzido pelo poder, mas alguém que se agarrou ao determinismo porque precisa desesperadamente que o universo faça sentido.

A mise-en-scène reforça essa leitura o tempo todo. Garland e o diretor de fotografia Rob Hardy enquadram Forest em composições simétricas, frequentemente isolado em espaços limpos e banhados por luz difusa, como se o personagem ocupasse um altar corporativo. O desenho de produção da Amaya mistura minimalismo de big tech com solenidade de santuário. Não é coincidência. ‘Devs’ sugere que o Vale do Silício trocou Deus por processamento.

O som e a imagem fazem a série parecer uma experiência inevitável

O som e a imagem fazem a série parecer uma experiência inevitável

Se há um aspecto técnico subestimado na recepção de ‘Devs’, é o uso de som. A trilha de Ben Salisbury, Geoff Barrow e The Insects evita conduzir emoção de maneira óbvia. Em vez de empurrar suspense, ela constrói um ambiente de suspensão, quase sempre feito de drones, vibrações e camadas que parecem pairar sobre a cena. O resultado não é ‘empolgante’ no sentido convencional. É opressivo. O som trabalha como se o próprio espaço estivesse pensando.

A fotografia e a decupagem seguem o mesmo princípio. Garland prefere quadros fixos, centralidade geométrica e movimentos discretos. Em várias cenas, a câmera demora além do habitual no rosto de Lily ou na imobilidade dos ambientes, recusando o corte que o espectador já espera. Isso cria um efeito importante: a série esvazia a noção de reação imediata e nos força a permanecer dentro de um tempo mais pesado, menos dramático e mais existencial.

É aí que a lentidão deixa de ser simples estilo e vira argumento. O mundo de ‘Devs’ não parece aberto a improviso. Tudo soa calculado, fechado, já inscrito. A forma audiovisual prepara o espectador para aceitar — ou resistir a — essa hipótese.

Lily Chan é menos heroína clássica e mais ponto de atrito contra o sistema

Parte da frustração inicial com a série veio da expectativa de encontrar em Lily Chan uma protagonista mais expansiva, verbal ou carismática. Sonoya Mizuno faz outra coisa. Sua atuação é contida, muitas vezes opaca de propósito, porque Lily não existe para nos guiar com conforto. Ela funciona como um corpo em choque com uma estrutura que quer reduzir tudo a padrão.

Isso faz mais sentido conforme a história avança. Lily não é só a personagem que investiga Devs; ela é a possibilidade de ruído dentro de um sistema que afirma que ruído não existe. A aparente rigidez de Mizuno pode soar limitada em trechos específicos, mas dramaticamente serve à série. Garland não quer uma protagonista que explique o tema ao público. Quer uma presença que confronte, pela própria existência, a pretensão de total previsibilidade.

Esse embate ganha força no terço final, quando a série deixa de funcionar apenas como mistério corporativo e assume de vez sua natureza filosófica. Ali, a pergunta já não é ‘o que a máquina faz?’, mas ‘o que resta de humano quando cada gesto pode ser previsto?’.

Por que ‘Devs’ funciona melhor em maratona

Por que 'Devs' funciona melhor em maratona

A defesa mais importante aqui é simples: ‘Devs’ funciona melhor como maratona. Não porque o espectador precise ‘aguentar’ a série, mas porque sua arquitetura narrativa depende de continuidade. Vendo um episódio por semana, as pausas se diluem, a tensão metafísica esfria e o mistério corre o risco de virar frustração. Em bloco, o efeito é outro. As repetições viram padrão. O desconforto vira imersão. A inevitabilidade vira experiência física.

Isso não significa que a série tenha sido lançada da forma errada, mas ajuda a explicar por que tanta gente a recebeu com reserva. O modelo de discussão semanal favorece obras baseadas em reviravolta, teoria e payoff imediato. ‘Devs’ quer algo menos fragmentado. Ela se aproxima mais de um filme longo em oito partes do que de uma série tradicional movida a ganchos.

Nesse sentido, a comparação mais útil não é com ‘Matrix’, como muita crítica tentou fazer, mas com obras de ficção científica que usam conceito como atmosfera e forma, não só como plot. Há ecos do rigor conceitual de ‘Primer’, da espiritualidade tecnológica de ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’ e da frieza analítica do próprio Garland em ‘Ex_Machina’. Ainda assim, ‘Devs’ encontra uma frequência própria: menos interessada em explicar paradoxos do que em nos colocar sob seu peso.

Os 82% no Rotten Tomatoes dizem menos sobre a série do que sobre a forma de avaliá-la

Seria exagero chamar 82% de injustiça escandalosa. É uma nota boa. Mas parece tímida para uma obra tão coesa em intenção formal. O ponto não é dizer que toda crítica negativa estava errada. ‘Devs’ realmente tem fragilidades: alguns diálogos soam mais conceituais do que orgânicos, certos personagens secundários poderiam ter mais espessura, e a própria Lily nem sempre ganha a dimensão dramática que a série pede.

Ainda assim, o saldo é muito mais ambicioso do que a média do gênero na televisão. Garland constrói uma série em que tema, forma, som, espaço e performance apontam para a mesma questão. Isso é raro. Mesmo quem não embarca completamente na execução precisa reconhecer a consistência do projeto.

Por isso, o problema dos 82% não é o número em si, mas o que ele sugere: uma recepção que viu lentidão onde havia método e viu frieza onde havia rigor. ‘Devs’ talvez nunca fosse unanimidade. Nem deveria. Mas merecia uma discussão crítica menos ansiosa e mais atenta ao modo como sua forma sustenta sua filosofia.

Vale a pena ver ‘Devs’ hoje?

Vale, especialmente se você gosta de ficção científica que prefere ideias, atmosfera e construção formal a ação constante. Se sua referência de sci-fi televisiva passa por séries mais contemplativas e conceituais, ‘Devs’ entrega muito. Se você espera um suspense acelerado, cheio de viradas a cada episódio, a experiência pode soar deliberadamente anticlímax.

Em outras palavras: é uma série para quem aceita ser desestabilizado pelo ritmo, não apenas pela trama. E talvez seja por isso que ela continua merecendo defesa anos depois. Alex Garland fez uma obra sobre determinismo que se move como se já soubesse onde vai chegar. No melhor sentido, a forma é a mensagem. E é exatamente isso que faz ‘Devs’ merecer mais que 82%.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Devs’

Onde assistir à série ‘Devs’?

No Brasil, ‘Devs’ costuma estar disponível no catálogo do Disney+ via Star, mas isso pode variar com o tempo. Vale checar a busca da plataforma ou agregadores de streaming atualizados antes de assistir.

Quantos episódios tem ‘Devs’?

‘Devs’ tem 8 episódios. Como é uma minissérie fechada, a história foi concebida para começo, meio e fim, sem depender de temporadas futuras.

‘Devs’ é baseada em livro ou história real?

Não. ‘Devs’ é uma criação original de Alex Garland. A série usa conceitos reais de física, computação e filosofia, mas sua trama é ficcional.

‘Devs’ tem final fechado?

Tem, sim. A minissérie encerra seu arco principal no oitavo episódio e não depende de gancho para continuação. Mesmo que deixe espaço para interpretação, o desfecho é conclusivo.

‘Devs’ é para quem gostou de ‘Ex Machina’ e ‘Aniquilação’?

Em geral, sim. Se você aprecia o lado mais cerebral de Alex Garland, com ficção científica usada para discutir consciência, identidade e ética, ‘Devs’ tende a funcionar muito bem. Só espere uma narrativa ainda mais contemplativa do que nesses filmes.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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