Em Euphoria 3 Nate Jacobs, o problema não é uma possível redenção, mas a destruição da agência do personagem. Analisamos como a série troca um antagonista ativo por uma figura passiva e por que isso enfraquece o drama.
Nate Jacobs sempre foi o tipo de antagonista que organizava a própria monstruosidade. Nas duas primeiras temporadas de ‘Euphoria’, ele não funcionava apenas porque era cruel, mas porque cada gesto de controle parecia nascer de uma lógica interna muito clara: vigiar, intimidar, encurralar, vencer. Era um personagem odioso, sim, mas dramaticamente útil porque movia a história com a própria vontade. Em Euphoria 3 Nate Jacobs, o problema não é ele ter sido punido. O problema é pior: ele perdeu agência, presença e até o impulso de agir.
E isso é mais danoso do que uma redenção mal escrita. Redenção clichê ainda seria uma escolha de roteiro; o que a temporada faz aqui é algo mais raso. Em vez de transformar Nate, ela parece esvaziá-lo.
O que fazia Nate Jacobs funcionar como antagonista
Nate nunca foi interessante por ser apenas violento. O que o tornava incômodo era a combinação entre cálculo, repressões mal resolvidas e necessidade absoluta de domínio. Quando ele manipula Maddy, quando usa o medo como ferramenta e quando encena segurança para esconder pânico, ‘Euphoria’ constrói um vilão que age. Mesmo nos momentos em que o personagem desmorona, esse desmoronamento ainda vinha atravessado por desejo de controle.
A série sempre sugeriu que sua masculinidade era performance defensiva: postura rígida, fala econômica, explosões estratégicas, sexualidade tratada como campo de guerra. Sam Levinson podia exagerar, mas havia coerência. Nate era o produto tóxico de uma casa dominada por segredo, vergonha e poder. Não era um personagem sutil, porém era legível.
Por isso sua presença gerava expectativa. Quando Nate entrava em cena, havia a sensação de que alguém seria manipulado, traído ou pressionado. Dramaticamente, isso importava. Um antagonista não precisa ser simpático; precisa produzir atrito. E Nate, até aqui, fazia exatamente isso.
O ponto em que ‘Euphoria 3’ troca evolução por apagamento
Uma série pode enfraquecer um personagem sem destruí-lo. Pode expor fragilidade, humilhar, inverter hierarquias, mostrar perda de poder. Tudo isso seria válido se a narrativa mantivesse algum senso de interioridade. O problema de ‘Euphoria 3’ é que, a partir da metade da temporada, Nate deixa de reagir como alguém reconhecível. Ele não parece recalibrar estratégia; parece simplesmente ter sido reprogramado.
O contraste fica gritante nas cenas em que Cassie passa a ocupar todo o centro de decisão da dinâmica. A ideia de inverter o eixo de poder entre os dois poderia ser forte. Em tese, seria até uma continuação interessante da lógica da série: o controlador finalmente encurralado por alguém tão instável quanto ele. Mas a encenação não sugere um Nate derrotado que pensa o próximo movimento. Sugere um Nate sem movimento algum.
Essa diferença importa. Personagem derrotado ainda escolhe. Personagem humilhado ainda responde. Personagem subjugado ainda guarda alguma reserva de intenção, nem que seja rancor, medo ou cálculo. Aqui, muitas vezes, o texto parece interessado apenas em rebaixá-lo cena após cena, sem preservar aquilo que o definia como força narrativa.
Por que a perda de agência é pior do que uma redenção forçada
Existe um receio recorrente em séries de prestígio: transformar um homem terrível em anti-herói compreensível demais. Se ‘Euphoria’ resolvesse limpar a barra de Nate com trauma, lágrimas e um gesto sacrificial na reta final, seria um problema. Seria o velho truque de pedir empatia sem cobrar proporcionalmente pelos danos causados.
Mas até isso teria estrutura. Uma redenção ruim ainda reconheceria que Nate é alguém que precisa escolher mudar, confrontar o próprio passado e lidar com consequências. A temporada atual adota um caminho mais fraco porque retira justamente o que tornaria qualquer destino dramático relevante: a capacidade de decisão.
Nate não é reescrito como homem melhor nem como monstro mais refinado. Ele é reduzido a uma figura passiva, quase decorativa, que absorve humilhação e serve de escada para o arco de outros personagens. Em termos de escrita, isso empobrece o conflito. Sem agência, não há confronto real; há apenas exposição ao sofrimento.
É por isso que certas cenas soam vazias. Ver um personagem sofrer pode ser catártico quando existe relação clara entre escolha e consequência. Foi assim, por exemplo, quando a série anteriormente encostou Nate contra a parede: a tensão vinha do fato de ele continuar sendo Nate mesmo acuado. Agora, quando a temporada o coloca em situações de humilhação, falta aquele resíduo de vontade que transformaria a queda em tragédia, ironia ou punição. Resta apenas degradação.
A cena que resume o problema: humilhação sem contragolpe
O melhor exemplo está nas sequências em que Nate é publicamente rebaixado e reage quase como figurante da própria história. A mise-en-scène insiste no constrangimento: enquadramentos que o diminuem dentro do quadro, bloqueios de cena em que outros corpos ocupam a imagem com mais autoridade, e uma montagem que não cria suspense sobre a resposta dele porque a resposta nunca vem. A humilhação vira ponto final, não vírgula.
Isso seria potente se o objetivo fosse mostrar um colapso psicológico minucioso. Mas a direção não acompanha esse colapso por dentro. Não há construção gradual de paranoia, nem deslocamento emocional preciso, nem um desenho sonoro que nos coloque no interior dessa impotência. O que existe é repetição. Cena após cena, Nate é esvaziado sem que a série explique como aquele homem, antes obsessivamente controlador, chegou a um estado de docilidade tão absoluta.
A fotografia continua interessada em rostos e superfícies, como sempre foi em ‘Euphoria’, mas aqui o brilho visual trabalha contra a dramaturgia. A série enquadra o personagem como ruína antes de nos convencer da ruína. É imagem forte sem preparação equivalente. Em vez de assistir a uma implosão, assistimos a um resultado já dado.
Cassie cresce no caos, Nate encolhe até sumir
Parte da frustração vem do fato de que Cassie, por mais exagerada que pareça em alguns caminhos, ainda preserva um eixo reconhecível. Sua necessidade de validação sempre foi extrema, sua relação com o desejo sempre foi confusa, e a ideia de levá-la a uma exposição mais radical do próprio corpo ou da própria intimidade não soa incompatível com o que a personagem já foi. Pode soar excessivo. Mas não soa estrangeiro.
Com Nate acontece o contrário. A dinâmica entre os dois deixa de parecer uma escalada tóxica entre pessoas que se alimentam mutuamente e passa a lembrar outro roteiro, com outro homem, colado por cima do nome Nate Jacobs. Falta continuidade psicológica. Falta a sensação de que estamos vendo o mesmo personagem pressionado por novas circunstâncias.
Esse é o ponto central do artigo: não se trata de defender Nate ou pedir que ele volte a ser dominante. Trata-se de reconhecer que um antagonista perde valor dramático quando a série apaga sua identidade em vez de transformá-la. Um Nate quebrado poderia ser fascinante. Um Nate domesticado sem processo é só um buraco no centro da trama.
Sem um Nate ativo, ‘Euphoria’ perde uma de suas principais fontes de tensão
‘Euphoria’ sempre dependeu de atrito emocional extremo. Rue leva a série para o campo da autodestruição; Maddy, para o orgulho ferido; Cassie, para a carência convertida em desastre. Nate ocupava a zona do controle violento. Tirar dele essa função sem substituí-la por outra igualmente forte deixa um vazio perceptível.
Isso também afeta o espectador. O ódio que Nate provocava era produtivo; ele organizava expectativa, medo e até catarse. Quando a série o converte em alguém que só recebe impacto, a experiência muda. O público deixa de temer o que ele fará e passa apenas a observar o que farão com ele. É uma troca muito menos dramática.
Há precedentes de antagonistas que perdem poder e ainda assim ganham espessura. Pense em personagens que, ao serem desmascarados, revelam novas camadas de rancor, autoengano ou dependência. A queda, nesses casos, não reduz a personalidade; expõe a personalidade sob outra luz. Em ‘Euphoria 3 Nate Jacobs, a queda parece consumir a própria arquitetura do personagem.
O erro de roteiro não é humanizar Nate, mas esvaziá-lo
Humanizar um vilão não é sinônimo de absolvê-lo. A série poderia mostrar fragilidade, trauma, covardia ou dependência e ainda manter Nate interessante. O erro está em confundir vulnerabilidade com ausência de vontade. Um personagem pode ser humilhado e continuar perigoso. Pode ser submisso em uma relação e continuar manipulador em outras. Pode perder poder social e continuar movido por desejo de retomá-lo.
Quando o texto abandona essas tensões, o personagem para de respirar. E é esse o problema com Nate Jacobs nesta fase: ele não escandaliza mais, não assusta mais, não articula mais. Apenas ocupa espaço narrativo até que outra pessoa faça algo mais interessante.
No fim, a temporada parece acreditar que ver Nate reduzido já basta como comentário moral. Não basta. Drama não se sustenta só com punição visual; precisa de conflito interno, escolha e consequência. Nate Jacobs era alguém que o público queria ver cair porque ele lutava para continuar no controle. Sem essa luta, sobra um corpo em cena e um nome conhecido, mas não sobra exatamente um personagem.
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Perguntas Frequentes sobre Nate Jacobs em ‘Euphoria 3’
Nate Jacobs muda muito em ‘Euphoria’ 3?
Sim. A principal mudança percebida é a perda de agência do personagem: ele deixa de agir como força de controle e passa a reagir de forma passiva aos acontecimentos.
Nate Jacobs tem arco de redenção em ‘Euphoria’ 3?
Não exatamente. Pelo menos nesta leitura, a série não constrói uma redenção clássica. Em vez disso, enfraquece o personagem sem desenvolver de forma convincente um processo real de culpa, mudança ou reparação.
Por que a perda de agência de Nate Jacobs incomoda tanto?
Porque Nate sempre funcionou como antagonista por agir, manipular e pressionar outros personagens. Quando ele perde essa capacidade sem uma transição dramática forte, a série perde tensão e o personagem deixa de parecer ele mesmo.
Cassie e Nate continuam coerentes com as temporadas anteriores?
Cassie parece manter um eixo emocional reconhecível, ainda que levado ao exagero. Já Nate, nesta temporada, soa mais desconectado de sua construção anterior, o que alimenta a sensação de ruptura de roteiro.
Vale a pena acompanhar o arco de Nate Jacobs em ‘Euphoria’ 3?
Vale se você acompanha a série pelo estudo de personagens e quer entender a controvérsia em torno da temporada. Mas quem esperava um confronto psicológico à altura das fases anteriores pode se frustrar com a passividade do arco.

