Em ‘Impunity’, filme com Ana de Armas e Sebastian Stan, o diretor Felipe Gálvez usa a estrutura do thriller de espionagem como cavalo de Troia para expor a burocracia da injustiça chilena. Uma análise de como o gênero pode subverter o espetáculo da impunidade de Pinochet.
Existe um tipo de filme que opera em dois níveis simultaneamente: na superfície, entretém como um thriller de espionagem competente; nas profundezas, questiona as estruturas que permitem a injustiça histórica prosperar. ‘Impunity’ é exatamente esse tipo de obra — e a escolha do diretor Felipe Gálvez em usar a linguagem do gênero hollywoodiano como ‘cavalo de Troia’ para debater o trauma chileno é uma operação cirúrgica.
Ana de Armas e Sebastian Stan estrelam este thriller que se passa nos anos 1990, explorando os bastidores do caso contra Augusto Pinochet — o ditador que enfrentou acusações de terrorismo e genocídio oito anos após deixar o poder. Mas ‘Impunity’ não é um documentário dramatizado. É um filme que usa a maquinaria do espionage thriller para revelar como a justiça pode ser negociada, atrasada e transformada em espetáculo.
O Gênero como Ferramenta de Desmascaramento
Quando Gálvez diz que quer usar ‘a linguagem do gênero de espionagem, não para celebrar conspirações, mas para revelar como a justiça pode ser negociada’, ele está fazendo algo que poucos cineastas conseguem: subverter um gênero de dentro. Filmes de espionagem tradicionais — pense em ‘007: Sem Tempo para Morrer’ ou ‘Missão Impossível’ — frequentemente tratam a justiça como um objetivo binário: o bem vence, o vilão cai.
‘Impunity’ inverte essa premissa. A estrutura do thriller é mantida (mercenários, envios secretos, conspiração revelada), mas o ‘inimigo’ não é um vilão cartunesco — é um sistema inteiro que funciona para proteger poderosos. Gálvez cresceu ouvindo histórias inacabadas, conversas interrompidas pelo medo. Agora, ele usa a adrenalina do gênero para forçar o espectador a confrontar essas páginas apagadas da história.
É uma escolha formal arriscada. Poderia ter sido um drama histórico reverente. Em vez disso, é um thriller — o que significa que o público não pode se desligar. Você está investido na trama, na ação, no mistério. E enquanto segue o fio da espionagem, você inevitavelmente segue o fio da impunidade.
Stan e de Armas: Estrelas a Serviço da Subversão
A presença de Sebastian Stan e Ana de Armas não é acidental — é estratégica. Stan vem de uma década como Bucky Barnes na Marvel, mas provou sua capacidade de complicar figuras de poder com a assombrosa interpretação de Donald Trump em ‘O Aprendiz’, que lhe rendeu indicação ao Oscar. De Armas seguiu trajeto inverso: de blockbusters como ‘Blade Runner 2049’ e a Bond girl em ‘007: Sem Tempo para Morrer’, consolidou sua legitimidade crítica em ‘Blonde’.
O fato de ambos serem produtores executivos do filme revela que não estão aqui pela visibilidade ou pelo salário. Estão investindo em uma visão. Eles funcionam como o próprio filme: usam o apelo das estrelas globais para atrair o público para uma narrativa que questiona o próprio sistema de espetáculo que os consagrou.
A Burocracia do Mal na Rua 38 de Londres
‘Impunity’ adapta o livro de 2025 de Philippe Sands, ’38 Londres Street: On Impunity, Pinochet in England, and a Nazi in Patagonia’. O título já delimita o terreno: a história se concentra em um endereço específico de Londres, onde Pinochet foi detido em 1998. Não é uma narrativa épica sobre toda a ditadura. É íntima, específica, focada em um momento onde a justiça pareceu possível antes de ser engolida pela diplomacia.
Gálvez e seus co-roteiristas Mariano Llinás e Antonia Girardi tiveram que fazer escolhas estruturais difíceis. Como transformar um livro de não-ficção sobre direito internacional em um thriller cinematográfico? A resposta está em focar nos personagens secundários — o mercenário e o enviado que operam nos bastidores. É uma mudança de foco brilhante: em vez de olhar para o ditador, olhamos para os operários do sistema que o protege. O espectador não está apenas observando a história; está sendo arrastado pela engrenagem burocrática que transforma justiça em negociação.
Gálvez e o Cinema como Mecanismo de Confronto
A carreira de Gálvez sugere que ‘Impunity’ é uma progressão natural. Seu filme anterior, ‘The Settlers’, confrontou a colonização do sul do Chile com uma linguagem visual onde a paisagem era cúmplice da violência — os tiros saíam de fora do quadro, a barbárie era sugerida pela geometria da cena. Ganhou o FIPRESCI em Cannes e 94% no Rotten Tomatoes. Não é um cineasta que faz concessões.
Com ‘Impunity’, ele mantém a equipe técnica de ‘The Settlers’ — o editor Matthieu Taponier, o compositor Harry Allouche, a diretora de fotografia Simone D’Arcangelo. Isso indica que a mesma rigidez formal será aplicada aos corredores londrinos. Se em ‘The Settlers’ a natureza silenciava os crimes, aqui serão as cortesias diplomáticas e os processos jurídicos a ocultar a violência.
O Risco de Transformar Trauma em Espetáculo
O risco de usar a gramática do thriller para debater trauma histórico é real. A injustiça pode virar plot twist, a dor pode virar clímax catártico. Gálvez parece ciente disso. Há uma meta-consciência na sua abordagem: o filme usa o espetáculo (o cinema comercial) para questionar o espetáculo (a justiça transformada em show midiático).
Se funcionar, será porque o filme recusa respostas fáceis. A própria escolha de adaptar um livro sobre impunidade — sobre como Pinochet escapou de condenação — já sinaliza que não haverá o conforto do vilão derrotado no terceiro ato.
Por Que Este Filme É Urgente em 2026
Há algo particularmente urgente em um filme sobre impunidade agora. Vivemos um momento onde a responsabilidade de líderes autoritários é continuamente contestada, onde a justiça internacional é tratada como moeda de troca e a memória histórica é reescrita em tempo real.
‘Impunity’ não é apenas sobre o fantasma de Pinochet. É sobre o padrão que ele representa — e que continua se repetindo. Um filme que questiona como sistemas inteiros se mobilizam para proteger poderosos é relevante porque essa engrenagem nunca parou de funcionar. Gálvez usa o cinema de gênero não como escapismo, mas como mecanismo de confronto histórico. E essa é a maior aposta de ‘Impunity’.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Impunity’
‘Impunity’ é baseado em fatos reais?
Sim. O filme adapta o livro ’38 Londres Street: On Impunity, Pinochet in England, and a Nazi in Patagonia’, do jurista Philippe Sands, que investiga a detenção do ditador chileno Augusto Pinochet em Londres em 1998 e como ele escapou da condenação.
Quem dirige ‘Impunity’?
O filme é dirigido pelo chileno Felipe Gálvez, cineasta conhecido pelo aclamado ‘The Settlers’ (2023), vencedor do Prêmio FIPRESCI em Cannes.
Qual o gênero de ‘Impunity’?
‘Impunity’ é um thriller de espionagem político. O diretor usa os códigos do gênero hollywoodiano para explorar os bastidores das negociações que permitiram a impunidade de Pinochet.
Onde assistir ‘Impunity’?
O filme ainda não tem data de estreia ou plataforma definida. Como é uma produção da Pathé com estrelas globais, deve passar por festivais antes de chegar aos cinemas e, posteriormente, ao streaming.
Ana de Armas e Sebastian Stan são apenas atores em ‘Impunity’?
Não. Além de estrelarem como os protagonistas, Ana de Armas e Sebastian Stan também assinam como produtores executivos do filme, indicando envolvimento direto na visão criativa do projeto.

