De indie a franquia: o risco do universo ‘Longlegs’ na Paramount

Analisamos os riscos da transição do terror autoral de ‘Longlegs’ para um universo cinematográfico na Paramount. Da perda do dread à pressão por conectividade, explicamos por que expandir uma visão indie pode domesticar o horror.

Em 2024, Longlegs – Vínculo Mortal chegou como um sussurro assustador. Ninguém esperava muito — um thriller de horror independente distribuído pela Neon, liderado por uma Maika Monroe visceralmente tensa e um Nicolas Cage irreconhecível sob prostéticos e sussurros agudos. Depois, o filme fez $128 milhões no mundo todo. De repente, todo mundo estava falando sobre aquele serial killer satânico e aquela atmosfera que parecia saída de um pesadelo indescritível.

Agora, em 2028, voltamos ao universo Longlegs — mas não é mais um sussurro. É um grito corporativo. A Paramount Pictures está trazendo o novo filme. Cage volta. Osgood Perkins (diretor do original) volta. Mas tudo o mais mudou. E essa mudança é exatamente onde as coisas ficam complicadas.

Como ‘Longlegs’ construiu o dread perfeito com quase nada

Como 'Longlegs' construiu o dread perfeito com quase nada

Antes de entender o risco, é preciso entender o milagre. Longlegs – Vínculo Mortal não era um filme que deveria funcionar comercialmente. Horror independente sem franchise estabelecido é um tiro no escuro.

O que Longlegs tinha era textura. Perkins construiu o filme como um thriller que respira dread — o terror não vem de jump scares previsíveis, mas de uma lentidão perturbadora e de escolhas de direção precisas. A câmera demora nos rostos de Monroe, forçando o espectador a sentir a ansiedade da agente Lee Harker. Os diálogos de Cage, sussurrados em um falsete grotesco, criam um desconforto que gruda na pele. O filme funcionava porque respeitava a inteligência do espectador e se recusava a explicar o inexplicável.

A crítica notou. 85% no Rotten Tomatoes. Não são adjetivos comuns para um filme de horror que faturou $128 milhões globalmente. Longlegs funcionou porque era raro. Uma visão autoral com orçamento mínimo que o forçava a ser criativo em vez de caro.

O problema de empacotar terror autoral como ‘universo’

O sucesso gera ambição. E ambição gera franquias.

Em abril de 2026, foi anunciado que Cage e Perkins desenvolviam um novo filme no universo Longlegs. Não é uma sequência direta — é uma expansão. A palavra ‘universo’ é crucial aqui porque significa a adoção do modelo que Marvel e DC popularizaram: múltiplos filmes, múltiplos personagens, uma mitologia compartilhada.

Só que existe um problema fundamental. O sucesso de Longlegs veio precisamente por ser um filme singular, fechado em sua própria lógica onírica. Quando você transforma essa experiência em um ‘universo cinematográfico’, você muda as regras do jogo: o que era mistério perturbador agora precisa se tornar lore explicável.

Da Neon para a Paramount: o que muda além do orçamento

Da Neon para a Paramount: o que muda além do orçamento

A Paramount não é a Neon. A Neon é uma distribuidora de filmes arthouse e indie que entende nichos e deixou Longlegs respirar, permitindo que o boca a boca crescesse organicamente. A Paramount é uma máquina de blockbusters. Ela precisa de retornos previsíveis, pensa em sequências, spin-offs, mercadoria e direitos de streaming.

Isso não é necessariamente ruim — a Paramount sabe lançar horror comercial. Veja Pânico (2022) e Meninas Malvadas (2024). Ambos foram sucessos de abertura. Mas note a diferença: Pânico já era uma franquia estabelecida. Meninas Malvadas é uma adaptação de propriedade intelectual famosa. Ambos tinham DNA pré-existente que o público reconhecia.

Longlegs não tinha nada disso. Seu DNA é exclusivamente de Osgood Perkins. E agora se pede a um grande estúdio para expandir uma visão profundamente pessoal, mantendo a qualidade que a tornou especial. Historicamente, a matemática do estúdio raramente fecha com o terror autoral.

A data de 2028 e a armadilha do fim de semana de MLK

A Paramount agendou o novo filme para 14 de janeiro de 2028 — o fim de semana do Martin Luther King Jr. Estrategicamente, faz sentido. Esse fim de semana é tradicionalmente forte para horror na Paramount (o recorde do estúdio é Cloverfield: Monstro, com $46.1 milhões de abertura em 2008).

Mas aqui está a armadilha: você não escolhe uma data de lançamento baseado em estatísticas de fim de semana quando tenta preservar a essência de um filme que funcionou por ser inesperado. A Paramount está planejando tudo, prevendo tudo, tentando replicar o sucesso através de fórmulas de mercado. Se funcionar, o mercado quer mais Longlegs. Se não funcionar, a franquia morre no berço — a Paramount não investirá em um terceiro filme se o segundo não render os números que a planilha exige exige.

Cage e Perkins retornam: garantia ou ilusão?

Cage e Perkins retornam: garantia ou ilusão?

Cage e Perkins continuam envolvidos. Cage é produtor e ator. Perkins dirige, escreve e produz. Isso é um sinal positivo — significa que não foram substituídos por uma equipe de roteiristas de estúdio que nunca entendeu o tom do original.

Mas produção não é criação. Quando você tem uma Paramount atrás de você — com executivos, com notas de produção, com expectativas de lucro — as coisas mudam. Perkins pode ter tido total liberdade criativa na Neon. Na Paramount, essa liberdade se negocia em salas de reunião.

O verdadeiro perigo: domesticar o terror para vender

O maior risco do universo Longlegs não é falhar comercialmente. É ter sucesso comercial enquanto perde a alma.

Terror genuíno é raro porque exige desconforto. Exige que o filme não se importe em agradar todo mundo. É por isso que Longlegs tem 85% com críticos mas apenas 61% com o público no Rotten Tomatoes — o filme não se preocupa em ser ‘divertido’. Ele quer ser perturbador.

Quando você transforma um filme assim em um universo, há pressão para torná-lo mais acessível, mais conectado, mais explicado. Você precisa de pontos de conexão que o público reconheça, personagens que retornem, uma mitologia racional. Tudo isso é inimigo do dread genuíno, que se alimenta do desconhecido e do irracional.

O aviso de ‘A Hora do Pesadelo’ e a rota de Ari Aster

O aviso de 'A Hora do Pesadelo' e a rota de Ari Aster

Há dois caminhos para o horror indie que faz sucesso. O primeiro é A Hora do Pesadelo (1984): um horror indie que virou franquia e, eventualmente, transformou Freddy Krueger em comediante de si mesmo. O terror morreu em nome da acessibilidade.

O segundo é a rota de Ari Aster e A24. Depois do sucesso de Hereditário, Aster não criou um ‘universo Hereditário’. Fez Midsommar e Beau Is Afraid — projetos distintos que mantiveram sua assinatura autoral sem se curvar a exigências de franquia. O terror de Aster sobreviveu porque ele recusou o modelo de universo.

Perkins está tentando um caminho do meio: expandir a mitologia sem perder a identidade. É a aposta mais arriscada das três.

Como o novo filme pode escapar da armadilha do estúdio

Nem tudo é um caminho sem volta para a diluição. Perkins está no comando criativo. Cage está investido. A Paramount, para seus méritos, tem dado espaço a diretores quando o projeto funciona. Além disso, o novo filme não ser uma sequência direta é inteligato. Significa que Perkins pode explorar outras facetas do universo que criou, em vez de replicar a fórmula original sob pressão.

Se o novo filme tratar o ‘universo’ como uma antologia de tonalidades — onde a mitologia satânica conecta histórias distintas, mas cada uma mantém seu próprio dread — pode haver esperança. O erro seria tentar explicar a bagunça sobrenatural que fez o original funcionar.

O terror genuíno pode sobreviver a um universo?

A questão central permanece: será que um filme de horror genuinamente perturbador pode existir dentro de um universo cinematográfico? Ou será que o próprio conceito de ‘universo’ — com suas demandas de continuidade, conexão e escalabilidade — é fundamentalmente incompatível com o tipo de terror que funciona?

A Paramount aposta que sim. Que Cage e Perkins conseguem fazer novamente o que fizeram uma vez, mas desta vez sob os holofotes corporativos. Talvez consigam. Mas o histórico sugere que o risco é real. Em janeiro de 2028, saberemos se a Paramount conseguiu expandir o pesadelo — ou se o acordou de vez.

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Perguntas Frequentes sobre o universo Longlegs

Quando sai o novo filme do universo Longlegs?

O novo filme do universo Longlegs está agendado para 14 de janeiro de 2028, ocupando o fimade fim de semana do Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos.

Osgood Perkins vai dirigir o novo Longlegs?

Sim. Osgood Perkins retorna ao universo Longlegs não apenas como diretor, mas também como roteirista e produtor, ao lado de Nicolas Cage.

O novo Longlegs é uma sequência direta do filme de 2024?

Não. O comunicado oficial da Paramount deixou claro que não é uma sequência direta, mas sim uma expansão do universo Longlegs, explorando outras facetas e personagens dentro da mitologia criada no primeiro filme.

Por que a mudança da Neon para a Paramount é um risco para Longlegs?

A Neon permitiu que o original fosse um filme autoral e ambíguo, crescendo pelo boca a boca. A Paramount, como grande estúdio, exige retornos previsíveis e tende a pressionar por mitologias mais explicadas e conectadas, o que pode destruir o ‘dread’ e a atmosfera de terror genuíno que fizeram o primeiro filme funcionar.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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