Além do Drácula: 6 filmes de vampiro quase perfeitos dos últimos 20 anos

Listamos os melhores filmes de vampiro dos últimos 20 anos: do terror gótico de ‘Nosferatu’ ao faroeste iraniano de ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’. Entenda por que cada um reinventa o mito de um jeito único.

O vampiro é o monstro mais democrático do cinema. Já foi aristocrata europeu, sedutor imortal, criança solitária, colega de apartamento e até justiceira de chador. Drácula continua sendo a porta de entrada, mas os melhores filmes de vampiro dos últimos 20 anos estão menos interessados no Conde e mais no que o mito pode dizer sobre nós.

Essa é a tese desta curadoria: chamar um filme de ‘quase perfeito’ não significa que ele seja impecável. Significa que, diante de um gênero saturado, ele encontra uma voz tão própria que os defeitos viram detalhes. Os seis títulos abaixo foram escolhidos porque cada um redesenha o vampiro a partir de um ângulo que ninguém tinha tentado antes — do terror gótico de Robert Eggers à comédia mockumentary de Taika Waititi, do faroeste vampírico iraniano de Ana Lily Amirpour ao blues macabro de Ryan Coogler.

O que faz um filme entrar na lista dos melhores filmes de vampiro?

O que faz um filme entrar na lista dos melhores filmes de vampiro?

Antes de começar a contagem, é preciso estabelecer o critério. Os melhores filmes de vampiro dos últimos 20 anos não são necessariamente os mais assustadores, nem os mais fiéis ao livro de Bram Stoker. São aqueles que entenderam que a mitologia vampírica é um recipiente — e que o que importa é o que você coloca dentro dele.

Vampiros já vagaram por subúrbios suecos cobertos de neve, se apaixonaram em Detroit, assombraram uma cidade fantasma iraniana e invadiram um juke joint no Mississippi dos anos 1930. Nenhum deles depende de sustos baratos ou romance adolescente. Cada um trata o vampiro como uma lente para enxergar questões humanas — racismo, solidão, rotina, cansaço existencial. É exatamente isso que os separa do resto.

6. ‘Pecadores’: a noite em que o blues encontrou o diabo

Ryan Coogler passou anos trabalhando dentro de franquias gigantes antes de fazer ‘Pecadores’. Depois de ‘Pantera Negra’ e dos filmes de ‘Creed’, ele finalmente teve a chance de fazer um original — e escolheu vampiros. Michael B. Jordan interpreta os gêmeos Smoke e Stack, que voltam para a cidade natal no Mississippi com o sonho de abrir um juke joint. A noite de abertura atrai visitantes bem mais perigosos do que os gangsters locais.

O que torna ‘Pecadores’ notável não é a coreografia dos sustos, mas o que Coogler faz com o contexto. Estamos em 1930, no coração do Jim Crow. A cultura negra produz o blues, o jazz, a vida — e o vampiro chega para sugar exatamente isso. Coogler usa o mito para perguntar quem tem direito de criar cultura, quem quer possuí-la e o que as pessoas estão dispostas a sacrificar por um lugar a que pertencem. É uma leitura do vampiro como capitalismo predatório: ele se alimenta do que a comunidade cria e devolve apenas morte.

Jordan, em dose dupla, ancora o filme com duas variações do mesmo homem — o sonhador e o sobrevivente — e o diretor ainda brinca com as regras tradicionais do gênero, do convite à luz do sol, sem deixar que elas engulam os personagens. A fotografia de Autumn Durald Arkapaw acompanha a noite escurecendo aos poucos, como se a escuridão também fosse um personagem. Lembro de sair da sessão com a sensação de que Coogler tinha feito algo raro: um filme de terror com consciência histórica que não abre mão do entretenimento.

5. ‘Nosferatu’: o monstro que Eggers esperou a vida inteira para soltar

5. 'Nosferatu': o monstro que Eggers esperou a vida inteira para soltar

Robert Eggers parecia destinado a ‘Nosferatu’. Seus filmes anteriores — ‘A Bruxa’, ‘O Farol’ — já viviam de detalhes de época, folclore e personagens tomando decisões cada vez piores em ambientes opressivos. Trazer o Conde Orlok de volta à tela não parece um remake de um clássico de 1922; parece que Eggers finalmente conseguiu acesso ao monstro que vinha preparando para soltar.

A escolha mais radical de ‘Nosferatu’ é tornar Orlok repulsivo em vez de sedutor. Bill Skarsgård constrói uma criatura que não tenta ser atraente — ele é podridão, poder e fome. Numa era de vampiros romantizados, isso é quase uma purificação do mito. Do outro lado, Lily-Rose Depp dá a Ellen uma desesperação que transforma a relação dela com Orlok em algo muito mais estranho do que uma simples dinâmica de predador e vítima. O triângulo entre Ellen, Thomas e o Conde transforma o próprio desejo em perigo.

Eggers sempre filmou o medo do desconhecido com uma textura quase tátil. Em ‘Nosferatu’, ele usa o expressionismo alemão como linguagem: sombras alongadas, enquadramentos claustrofóbicos, uma fotografia assinada por Jarin Blaschke que parece pintada à mão. É o filme mais ‘Eggers’ da carreira dele — e um dos raros remakes que justificam a própria existência.

4. ‘Deixa Ela Entrar’: o vampiro como solidão congelada

Uma Suécia coberta de neve não parece o cenário natural para um dos grandes filmes de vampiro do século, mas o frio é essencial. Oskar é um menino de 12 anos, solitário e vítima de bullying, que faz amizade com Eli, a vizinha peculiar que só aparece depois do anoitecer. A direção de Tomas Alfredson mantém o sobrenatural contido o suficiente para que a amizade continue sendo o coração do filme.

O que faz ‘Deixa Ela Entrar’ tão perturbador é a compreensão de que o mundo de Oskar já era cruel antes de Eli aparecer. A violência que ela carrega é assustadora, mas é também a única resposta que o menino encontra para a indiferença ao seu redor. A cena em que Eli entra no quarto de Oskar sem ser convidada é o momento mais angustiante do filme — não pelo sangue, mas porque ela quebra a única regra que separava o mundo dela do mundo dele.

A fotografia de Hoyte van Hoytema — o mesmo de ‘Interestelar’ e ‘Duna’ — transforma a neve em uma presença opressiva, e a trilha sonora minimalista de Johan Söderqvist deixa o silêncio trabalhar. O filme entende que a imortalidade pode ser menos aterrorizante do que a solidão. Eli não é uma metáfora da morte; é uma metáfora da diferença. A adaptação americana de 2010 tentou repetir a fórmula e perdeu exatamente essa textura. O original permanece como um lembrete de que menos é quase sempre mais.

3. ‘O Que Fazemos nas Sombras’: quem disse que vampiro não lava louça?

3. 'O Que Fazemos nas Sombras': quem disse que vampiro não lava louça?

Vampiros passaram séculos inspirando terror. ‘O Que Fazemos nas Sombras’ faz a pergunta muito mais importante: quem lava a louça? Taika Waititi e Jemaine Clement transformam a mitologia em uma comédia mockumentary sobre um grupo de imortais dividindo um apartamento em Wellington, na Nova Zelândia. Eles lidam com tarefas domésticas, vida noturna e o inconveniente cotidiano de não se verem no espelho.

A comédia funciona porque Waititi e Clement conhecem a mitologia vampírica profundamente o suficiente para encontrar piadas dentro de cada regra. Eles nunca deixam de ser criaturas assassinas — apenas também são colegas de apartamento mesquinhos, preocupados com a vez de cada um limpar a bagunça do jantar. É essa colisão entre o monstruoso e o banal que gera o humor, não a humanização dos vampiros. A câmera apenas observa, e o absurdo emerge da normalidade.

O filme gerou uma série de TV de sucesso, mas o original permanece compacto e nunca cansa. Há uma economia na direção de Waititi que se perde na adaptação televisiva. Aqui, cada cena tem uma piada que nasce da lógica interna do universo — e nenhuma piada é grátis.

2. ‘Amantes Eternos’: o vampiro como relacionamento de longo prazo

Jim Jarmusch imagina a imortalidade não como um banho de sangue interminável, mas como um relacionamento muito longo. Tom Hiddleston e Tilda Swinton interpretam Adam e Eve, vampiros que são amantes há séculos e acumularam uma quantidade intimidante de conhecimento cultural. Adam vive cercado de música em Detroit; Eve passa os dias entre livros em Tânger.

A existência deles é glamourosa à distância e surpreendentemente cansada de perto. Esses vampiros assistiram a humanidade repetir os mesmos erros por gerações — e Adam, em particular, está exausto do mundo moderno. Hiddleston faz do cansaço uma performance silenciosa e subestimada: o tédio de quem já viu tudo, inclusive o próprio tédio.

Jarmusch transforma o vampirismo em uma história sobre o que significaria permanecer com alguém enquanto tudo ao redor desaparece. É romântico, melancólico, engraçado e diferente de quase qualquer outro filme de vampiro. A cena em que Adam e Eve tomam sangue em taças de cristal enquanto discutem a estupidez humana é o resumo perfeito da proposta: o fim dos tempos, servido com elegância. E o próprio Jarmusch aparece como DJ em uma festa — porque até o diretor precisava entrar nesse universo.

1. ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’: o faroeste vampírico iraniano

1. 'Garota Sombria Caminha pela Noite': o faroeste vampírico iraniano

Ana Lily Amirpour anuncia o tipo de filme que vai fazer antes mesmo de a vampira mostrar os dentes. Filmado em preto e branco, com diálogos em farsi, ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’ se passa na cidade fictícia de Bad City, no Irã. Lá, a garota sem nome interpretada por Sheila Vand — que usa chador, a vestimenta tradicional — percorre as ruas como uma predadora e, ao mesmo tempo, uma justiceira.

A relação do público com a Garota é deliberadamente instável. Ela mata, mas também protege; é uma figura materna e monstruosa ao mesmo tempo. Os encontros dela com Arash introduzem romance sem transformar o filme em uma história de amor sobrenatural convencional. Amirpour pega a mitologia mais explorada do cinema e a remodela ao redor de uma perspectiva individual inconfundível.

Há ecos de Jarmusch — que está nesta lista com ‘Amantes Eternos’ — e do western spaghetti na estética de Amirpour. A fotografia em preto e branco de Lyle Vincent dá às ruas de Bad City uma textura de graphic novel, e a trilha sonora, que mistura música eletrônica e pop iraniano, cria um estranhamento delicioso. ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’ é o exemplo máximo de reinvenção: um filme que parece ter vindo de outro planeta e, por isso, faz o vampiro parecer novo de novo.

O vampiro não morre: ele troca de pele

O que une os seis filmes desta lista é a coragem de perguntar ‘e se o vampiro fosse…?’ — apropriação cultural, solidão, rotina doméstica, cansaço existencial, justiça. Drácula pode descansar em paz: os melhores filmes de vampiro dos últimos 20 anos estão ocupados demais criando novos monstros.

Se você chegou até aqui procurando uma recomendação: ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’ é a experiência mais singular da lista, ‘Deixa Ela Entrar’ é a mais emocionante, e ‘O Que Fazemos nas Sombras’ é a mais divertida. Mas o verdadeiro quase perfeito é aquele que mais combina com o seu momento. O vampiro, afinal, sempre encontra um jeito de se adaptar a quem o assiste.

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Perguntas Frequentes sobre os melhores filmes de vampiro

Qual é o melhor filme de vampiro dos últimos 20 anos?

Não há uma resposta única, mas ‘Deixa Ela Entrar’ (2008) é o mais aclamado pela crítica e costuma aparecer no topo das listas do gênero. Entre os lançamentos recentes, ‘Nosferatu’ (2024) e ‘Pecadores’ (2025) são os que mais geraram discussão.

Onde assistir ‘Garota Sombria Caminha pela Noite’?

‘Garota Sombria Caminha pela Noite’ está disponível no MUBI e para aluguel digital em plataformas como Apple TV, Google Play e Amazon Prime Video. Por ser um filme independente, a disponibilidade pode variar conforme o país.

‘Nosferatu’ (2024) é um remake do clássico de 1922?

Não é uma cópia. Robert Eggers mantém a estrutura básica do filme mudo de F.W. Murnau — um corretor imobiliário que viaja à Transilvânia para encontrar um conde misterioso — mas expande o papel de Ellen e aprofunda a psicologia dos personagens, criando uma obra autônoma.

‘Pecadores’ é baseado em fatos reais?

Não. ‘Pecadores’ é uma obra de ficção ambientada no Mississippi dos anos 1930. O contexto histórico do Jim Crow é real, mas a história dos gêmeos Smoke e Stack, interpretados por Michael B. Jordan, é totalmente inventada.

Preciso assistir a outros filmes antes de ‘Deixa Ela Entrar’?

Não. ‘Deixa Ela Entrar’ é um filme autônomo, baseado no livro de John Ajvide Lindqvist. Se quiser, pode assistir também ao remake americano de 2010, ‘Deixe Ela Entrar’ (Let Me In), que segue a mesma história com outra abordagem.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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