Ao completar 10 anos, ‘A Bruxa’ permanece como o filme que redefiniu o terror moderno não com sustos, mas com paranoia. Analisamos como a narrativa de Robert Eggers criou a identidade da A24 e por que o rótulo de ‘terror elevado’ é um equívoco.
Dez anos atrás, um filme estreou que não precisou de gritos, saltos ou CGI para fazer Stephen King suar frio. A Bruxa completou uma década e o cenário do cinema de horror moderno ainda tenta se recuperar do impacto. Lembro de sair da sessão em 2016 com uma sensação incômoda: eu não tinha gritado, não tinha tampado os olhos nenhuma vez, mas a boca estava seca. O filme de Robert Eggers não ataca os sentidos com choques baratos; ele infecta a mente com uma ansiedade lenta e devastadora.
Como o terror de ‘A Bruxa’ mora na paranoia, não no sobrenatural
O grande truque de Robert Eggers está naquilo que ele se recusa a mostrar. O medo aqui não é um monstro que espreita na janela, é a desconfiança. A família se destrói aos poucos, trocando acusações histéricas enquanto a sombra da floresta engole a fazenda. A cena em que Caleb retorna do bosque, possuído e delirando com Cristo, enquanto a mãe desespera pelo bebê desaparecido, é o ponto de ruptura absoluto. A câmera observa o desmoronamento psicológico com uma frieza quase documental que sufoca o espectador.
O espectro da bruxa quase não importa para o enredo — o que realmente assombra é a paranoia coletiva. O filme é narrado por uma lente não confiável, onde a histeria religiosa distorce a realidade. Até mesmo o pacto final com Black Phillip e a icônica frase ‘Wouldst thou like to live deliciously’ podem ser lidos como a loucura terminal de Thomasin, e não como um fato sobrenatural absoluto. A trilha sonora de Mark Korven, feita de arranques dissonantes de um violino tradicional, e o aspecto de tela 1.66:1, que comprime os personagens contra as bordas do quadro, reforçam essa claustrofobia mental. O filme exige que você decida o que é real, espelhando a própria dúvida paranoica dos personagens.
Como o rigor histórico de ‘A Bruxa’ transformou folk horror em ameaça real
Antes de 2015, o folk horror era um subgênero quase restrito a cinéfilos de vanguarda. O que A Bruxa fez foi pegar esse terror pagão e vestir com uma roupagem de rigor histórico assustador. Eggers não apenas colocou os personagens no século XVII; ele os fez falar como se tivessem saído dos diários e tratados de bruxaria da época, pesquisados exaustivamente pelo diretor. O inglês arcaico não é um enfeite acadêmico, é a própria armadilha do terror.
Quando os personagens exageram em seus juramentos e preces, eles estão pavimentando o caminho para a própria perdição pela própria fé. Onde o horror tradicional usava o moderno para refletir nossos medos, Eggers enviou o público de volta aos anos 1600, provando que o isolamento e o fanatismo são um combustível muito mais potente para o terror do que qualquer ameaça contemporânea. A locação isolada, iluminada apenas por velas e luz natural, sela essa sensação de que estamos presos no passado com eles.
O mito do ‘terror elevado’ e a identidade da A24
Vou ser direto: o termo ‘elevated horror’ (terror elevado) que surgiu para categorizar o impacto de ‘A Bruxa’ sempre me incomodou. Ele carrega um esnobismo implícito, como se o gênero precisasse de uma validação intelectual para ser levado a sério. O que Eggers fez não foi ‘elevar’ o horror acima de sua essência; ele simplesmente provou que o terror funciona de forma muito mais cirúrgica quando confia na inteligência do público.
Esse foi o verdadeiro legado para a A24. O estúdio já existia antes, mas foi o sucesso de bilheteria e a aclamação da crítica deste filme que o bataram como o santuário do terror autoral de massa. Stephen King tuitou que o filme era ‘tenso, provocador e visceral’, e a audiência atendeu ao chamado. Sem a porta que ‘A Bruxa’ arrombou, o luto asfixiante de ‘Hereditário’, a disforia de ‘Eu Vi o Brilho da TV’ ou a obsessão espiritual de ‘Fale Comigo’ provavelmente teriam ficado confinados ao circuito de festivais. Eggers provou que o público tinha fome de atmosfera e temática, e uma geração inteira de cineastas se atreveu a saciar essa fome.
Uma década depois, o legado de ‘A Bruxa’ é inegável. Ele trocou o choque fácil pela ansiedade crônica e fez de um bode preto um ícone do cinema. Robert Eggers segue sua trajetória obcecada por período e mitologia com o lançamento de ‘Werwulf’ em 2026, mas seu debut permanece como sua obra mais afiada e perturbadora. Se você aguenta um ritmo que exige paciência e recompensa com paranoia, a fazenda dos Sawville ainda é uma visita obrigatória. Se você precisa de sustos a cada dez minutos, fique longe da floresta.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Bruxa’
‘A Bruxa’ é baseado em fatos reais?
Não diretamente. A história da família Sawville é ficção, mas Robert Eggers se baseou pesadamente em relatos reais de bruxaria e possessões do século XVII na Nova Inglaterra, incluindo os julgamentos das Bruxas de Salem, para construir o roteiro e os diálogos.
Onde assistir ‘A Bruxa’?
Atualmente, ‘A Bruxa’ está disponível para streaming na Max e para locação em plataformas como Apple TV e Google Play Movies. A disponibilidade pode variar conforme a região.
O que significa a frase ‘Wouldst thou like to live deliciously’?
A frase, dita pelo bode Black Phillip, é a tentação final oferecida a Thomasin. Em português, soa como ‘Gostarias de viver deliciosamente?’. Representa a promessa de prazeres terrenos e liberdade em troca da alma e da renúncia à vida puritana de sofrimento.
Quanto tempo dura ‘A Bruxa’?
O filme tem 1 hora e 32 minutos de duração. É uma obra enxuta, mas o ritmo lento e a atmosfera opressiva fazem com que a experiência se sinta mais longa e densa do que o tempo real indica.
Por que o filme é chamado de terror elevado?
O termo surgiu após o sucesso de ‘A Bruxa’ para descrever horrors focados em temáticas psicológicas e atmosféricas em vez de violência gráfica. Muitos críticos e fãs rejeitam o termo por considerar esnobe, já que o horror sempre tratou de questões profundas.

