‘As Aventuras de Tintim’ chega ao Peacock na hora certa para a sequência

Com a sequência de Peter Jackson finalmente saindo do papel, ‘As Aventuras de Tintim’ chega ao Peacock em 1º de outubro como o reencontro perfeito com o filme. Analisamos por que o Spielberg ‘menor’ é na verdade uma obra-prima técnica — e por que Daniel Craig, o vilão, merece ser redescoberto agora.

Existe um tipo de filme que a história trata com carinho, mas o público trata com indiferença. ‘As Aventuras de Tintim’ é exatamente esse caso: um Spielberg tecnicamente impecável, premiado no Globo de Ouro, que faturou mais de US$ 374 milhões — e ainda assim sempre pareceu um filme ‘menor’ na filmografia do diretor. Agora, com a chegada ao Peacock em 1º de outubro, esse reencontro ganha um significado que vai muito além de uma simples mudança de catálogo. É a porta de entrada perfeita para a sequência que Peter Jackson finalmente tirou do papel.

Para quem não viveu o momento: em 2011, Steven Spielberg e Peter Jackson uniram forças para adaptar o personagem de Hergé, o jornalista belga de topete que marcou gerações nos quadrinhos. O resultado foi uma aventura de captura de performance que unia o senso de espetáculo de Spielberg à tecnologia de ponta da Weta Digital, o estúdio de Jackson que já tinha revolucionado o cinema com ‘O Senhor dos Anéis’. O filme não era apenas uma adaptação — era um experimento ambicioso sobre como contar uma história clássica com as ferramentas do cinema moderno.

E agora, 15 anos depois, essa aventura volta ao centro das atenções no momento exato em que o público precisa dela.

Por que ‘As Aventuras de Tintim’ é mais do que um ‘Spielberg menor’

Por que 'As Aventuras de Tintim' é mais do que um 'Spielberg menor'

Vou ser direto: quem trata ‘As Aventuras de Tintim’ como um título secundário na carreira de Spielberg não prestou atenção no que está na tela. A sequência de abertura, com Tintim comprando o modelo do navio Unicórnio, é uma aula de narrativa visual — Spielberg conta a história inteira do mistério sem uma única linha de diálogo explicativa. É pura gramática cinematográfica, daquelas que o diretor domina desde ‘Tubarão’ e que poucos cineastas vivos conseguem executar com tanta clareza.

Mas o momento que realmente define o filme — e que eu nunca esqueci desde a sessão no cinema — é o flashback do Capitão Haddock. Ali, a captura de performance deixa de ser um truque técnico e vira linguagem. Andy Serkis, que já tinha feito história como Gollum e King Kong, entrega uma atuação que é física, vocal e emocionalmente precisa, mesmo estando coberto por camadas de pixels. A cena em que Haddock narra a batalha do navio de seu ancestral, com o cenário se transformando ao redor dele como um sonho líquido, é um dos momentos mais inventivos da carreira de Spielberg — e olha que a concorrência inclui ‘O Resgate do Soldado Ryan’ e ‘A Lista de Schindler’.

Há também um detalhe técnico que pouca gente nota em casa: a câmera de Spielberg nunca para. Literalmente. O diretor usa o espaço digital para fazer movimentos de câmera que seriam impossíveis no mundo real — o plano-sequência da perseguição em Bagghar, a cidade marroquina, é de tirar o fôlego não porque é longo, mas porque a câmera atravessa paredes, sobe prédios e mergulha em becos sem cortar. É o tipo de coisa que você só percebe plenamente quando reassiste prestando atenção na mise-en-scène. No streaming, com pausa e replay, esse nível de artesanato fica ainda mais evidente.

A sequência de Peter Jackson finalmente engrenou — e o Peacock chega na hora certa

Aqui está o ponto que torna essa chegada ao Peacock um evento, não uma nota de rodapé. Desde o lançamento do filme, havia uma expectativa enorme de que ‘As Aventuras de Tintim’ fosse o início de uma franquia. Spielberg e Jackson tinham material de sobra — Hergé escreveu 24 álbuns do personagem — e ambos já eram mestres comprovados em narrativa serializada. O problema é que Jackson, que assumiria a direção da sequência, ficou preso na trilogia ‘O Hobbit’ por anos. E depois que aquilo terminou, o projeto passou mais tempo no purgatório do que em produção.

Mas em maio de 2025, no Festival de Cannes, Jackson deu a atualização mais concreta em mais de uma década: o roteiro estava avançando rapidamente e seria seu retorno à direção após 12 anos. Em julho do mesmo ano, veio a confirmação definitiva — o roteiro, escrito em parceria com Fran Walsh, sua colaboradora criativa e companheira de vida, estava completo. Não há data de filmagem definida ainda, mas o projeto saiu do papel. Depois de anos de idas e vindas, ‘As Aventuras de Tintim 2’ é uma realidade em movimento.

É exatamente aí que o Peacock acerta. Colocar o filme original no catálogo em 1º de outubro não é um movimento aleatório de curadoria — é um convite para o público reencontrar (ou descobrir) essa aventura antes que a sequência comece a ganhar forma. Para quem viu em 2011, é a chance de revisitar com outros olhos. Para quem nunca viu, é a oportunidade de chegar preparado. E para a NBCUniversal, que também coloca no catálogo no mesmo dia títulos como ‘A.I.: Inteligência Artificial’, ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’, ‘Hook: A Volta do Capitão Gancho’ e ‘O Resgate do Soldado Ryan’, é uma curadoria que reforça o peso de Spielberg no streaming.

Daniel Craig, o vilão que você esqueceu — e por que isso importa agora

Daniel Craig, o vilão que você esqueceu — e por que isso importa agora

Um dos trunfos mais subestimados de ‘As Aventuras de Tintim’ é Daniel Craig. Isso mesmo: o James Bond de ‘Cassino Royale’ e ‘Skyfall’ interpreta Ivan Ivanovitch Sakharine, o vilão da trama — e é uma das poucas vezes na carreira dele em que o ator pôde abraçar um papel abertamente exagerado, sem a contenção estoica que marcou seus personagens mais famosos. Sakharine é um vilão de quadrinhos clássico: elegante, calculista e com uma ponta de teatralidade que Craig executa com um sorriso malicioso visível mesmo sob a captura de performance.

O timing dessa redescoberta é impecável. Craig está vivendo um dos melhores momentos da carreira: construiu uma franquia própria com ‘Entre Facas e Segredos’, de Rian Johnson, foi elogiado pela crítica em ‘Queer’, de Luca Guadagnino, e agora se prepara para ‘Nárnia: O Sobrinho do Mago’, de Greta Gerwig, previsto para 2027. Ver o ator em um registro completamente diferente — e em um filme que muitos fãs dele nunca assistiram — adiciona uma camada extra de interesse à reestreia no streaming. É o tipo de papel que, redescoberto agora, pode até gerar um novo culto ao redor do filme.

E não é só Craig. O elenco é um festival de talentos britânicos: Jamie Bell dá a Tintim uma energia juvenil que equilibra coragem e vulnerabilidade; Simon Pegg e Nick Frost, a dupla de ‘Todo Mundo Quase Morto’, fazem os detetives Dupond e Dupont com a química cômica de sempre; e Toby Jones completa o time como o vilão secundário. É um elenco que entende o tom da obra de Hergé — que nunca foi 100% séria, mas também nunca foi pura comédia.

Para quem é esse reencontro?

Se você nunca viu ‘As Aventuras de Tintim’, saiba o que esperar: é uma aventura familiar no melhor sentido da expressão, com a energia de ‘Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida’ e o virtuosismo técnico que Spielberg construiu ao longo de cinco décadas. Não é um filme ‘de criança’ — é um filme sobre coragem, amizade e o prazer da descoberta, que funciona em múltiplas camadas. As crianças vão se encantar com o cachorro Milu e as perseguições; os adultos vão reconhecer a sofisticação de um mestre contando uma história aparentemente simples.

Se você já viu, a recomendação é outra: reassista com atenção à construção do mundo. Repare como a Weta Digital traduziu o traço de Hergé para o 3D sem perder a essência — os rostos são estilizados, mas as expressões são incrivelmente humanas. Repare como a trilha sonora de John Williams, parceiro de Spielberg desde ‘Louca Escapada’, em 1974, costura as cenas com temas que remetem às grandes aventuras orquestrais do cinema clássico. E repare, principalmente, como o filme prepara o terreno para a sequência: o final deixa portas abertas, personagens em movimento e um mundo inteiro esperando para ser explorado.

O Peacock pode até estar recebendo ‘As Aventuras de Tintim’ como parte de um pacote de títulos de Spielberg e Jackson — que inclui ainda ‘Guerra dos Mundos’, ‘Um Olhar do Paraíso’ e o thriller ‘Dia D’. Mas a verdade é que nenhum desses filmes tem o mesmo senso de urgência. Enquanto os outros são obras fechadas, ‘Tintim’ é um começo. E agora, com a sequência finalmente engrenando, esse começo merece ser revisitado.

Eu vou fazer minha parte em 1º de outubro. E se você me perguntar, deveria fazer a sua também — porque quando Peter Jackson finalmente voltar à cadeira de diretor, o público que estiver afiado nessa aventura vai aproveitar a continuação de um jeito que quem chegar cru não vai. Fica o convite: bora revisitar Tintim antes que a jornada recomece?

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘As Aventuras de Tintim’

Onde assistir ‘As Aventuras de Tintim’?

‘As Aventuras de Tintim’ chega ao catálogo do Peacock em 1º de outubro de 2026. O filme também está disponível para aluguel ou compra digital em plataformas como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play.

‘As Aventuras de Tintim’ vai ter sequência?

Sim. Peter Jackson confirmou em julho de 2025 que o roteiro da sequência, escrito em parceria com Fran Walsh, está completo. Será o primeiro filme dirigido por Jackson em 12 anos, desde ‘O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos’ (2014), mas ainda não há data de filmagem ou previsão de lançamento.

Quanto tempo dura ‘As Aventuras de Tintim’?

O filme tem 1 hora e 47 minutos de duração. É uma aventura ágil, com ritmo típico de Spielberg — não há cenas arrastadas.

‘As Aventuras de Tintim’ é para crianças?

Sim, mas não apenas para crianças. O filme tem classificação livre e funciona em duas camadas: as crianças se encantam com as perseguições e o cachorro Milu, enquanto os adultos reconhecem a sofisticação técnica e narrativa de Spielberg. É uma aventura familiar no sentido mais nobre do termo.

Quem é o vilão de ‘As Aventuras de Tintim’?

O vilão é Ivan Ivanovitch Sakharine, interpretado por Daniel Craig. Ele é um colecionador obcecado pelo modelo do navio Unicórnio, que guarda um segredo ligado ao passado do Capitão Haddock. É um dos raros papéis abertamente exagerados na carreira de Craig.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também