Brannon Braga finalmente revela: o elenco de ‘Enterprise’ esperava sete temporadas e foi traído pela troca de comando na UPN. Entenda como a decisão executiva, não a audiência, matou a série.
Existe uma maldição silenciosa em ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’ que não tem nada a ver com vulcões, guerra temporal ou os xindi. É a maldição das sete temporadas. Quando Brannon Braga, cocriador da série, finalmente resolveu abrir o jogo sobre o cancelamento de ‘Enterprise’, ele revelou algo que os fãs mais atentos sempre desconfiaram: o elenco inteiro foi traído pela própria rede. Não por falta de audiência — ou melhor, não apenas por isso —, mas por uma troca de comando que não fazia ideia do tesouro que tinha nas mãos.
Diferente de ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Geração’, ‘Jornada nas Estrelas: A Nova Missão’ e ‘Jornada nas Estrelas: Voyager’, que duraram sete temporadas cada, ‘Enterprise’ foi encerrada após quatro. Não por falta de plano. Não por falta de vontade do elenco. Mas porque a UPN, emissora que abrigava a franquia desde 1995, passou por uma mudança de liderança que virou a mesa no meio do jogo. E, como Braga deixou claro em entrevista recente, essa mudança foi a causa determinante — não a qualidade da série, não o cansaço do público, mas pura incompetência executiva.
A maldição das sete temporadas: por que ‘Enterprise’ quebrou a tradição
Quando Rick Berman assumiu o posto de produtor executivo de Star Trek após a saída de Gene Roddenberry, ele estabeleceu um padrão: sete temporadas. ‘A Nova Geração’ começou em 1987 e terminou em 1994 com 178 episódios. ‘Deep Space Nine’ seguiu o mesmo caminho, e ‘Voyager’ também. Era quase um contrato não escrito com o público: uma série de Star Trek dura sete anos, conta uma história completa, e então se aposenta com dignidade.
‘Enterprise’ nasceu para seguir essa tradição. A série, que estreou em 2001 como uma prequela ambientada um século antes dos eventos de ‘A Nova Geração’, tinha um arco claro: mostrar a formação da Federação, o primeiro contato com os vulcanos, os primórdios da exploração espacial. E, segundo Braga, o elenco assinou com essa expectativa. Scott Bakula, Jolene Blalock, Connor Trinneer, Dominic Keating — todos entraram no projeto acreditando que teriam sete anos para desenvolver seus personagens e suas tramas. A quarta temporada, inclusive, estava finalmente encontrando seu tom, com arcos mais serializados e uma abordagem mais ousada, como o episódio “In a Mirror, Darkly”, que explorava o universo espelho.
Mas a audiência nunca foi das melhores. E aqui está o ponto que muitos ignoram: os números fracos não eram culpa da série. A UPN tinha alcance nacional limitado, fazia propaganda praticamente inexistente e — o pior — as afiliadas locais frequentemente preempitavam ‘Enterprise’ ou mudavam seu horário de exibição sem aviso. Era um milagre que alguém conseguisse assistir à série em tempo real. Eu mesmo, na época, perdi episódios inteiros porque minha afiliada local decidia transmitir um jogo de basquete no lugar. Isso não é especulação; é a realidade de quem viveu aquilo.
O que Brannon Braga revelou sobre o elenco (e a raiva justificada)
No podcast The 7th Rule, apresentado por Cirroc Lofton (o Jake Sisko de ‘Deep Space Nine’) e Ryan T. Husk, Braga foi direto ao falar sobre a reação do elenco ao cancelamento. A citação, que circulou amplamente, é reveladora:
“By the way, on the seven season thing, the Enterprise cast was f***ing… they were not happy. [Enterprise] was planned to go seven seasons, but we had new people in charge [of UPN] who didn’t know what they had… But everyone on that cast expected seven years. That was kind of the thing.”
Traduzindo: “A propósito, sobre a coisa das sete temporadas, o elenco de Enterprise estava… eles não estavam felizes. Foi planejado para ir sete temporadas, mas tínhamos pessoas novas no comando [da UPN] que não sabiam o que tinham… Mas todo mundo no elenco esperava sete anos. Esse era o acordo.”
Essa fala não é apenas um desabafo de produtor. É uma confirmação de algo que Connor Trinneer e Dominic Keating já vinham dizendo há anos em seus próprios podcasts, como The Shuttlepod Show e The D-Con Chamber. Os dois atores, que interpretavam Trip Tucker e Malcolm Reed, respectivamente, sempre deixaram claro que a expectativa de sete temporadas era um fato conhecido no set. E quando o cancelamento veio, no meio da produção da quarta temporada, a sensação foi de traição.
O que Braga não disse, mas está implícito, é que essa raiva não era apenas sobre a duração. Era sobre o desrespeito com o trabalho que estavam fazendo. A quarta temporada de ‘Enterprise’ é, para muitos fãs, a melhor da série. Arcos como a Guerra Fria Temporal, a criação da Federação e o episódio “Demons” / “Terra Prime” mostravam uma série que finalmente tinha encontrado sua identidade. E foi exatamente quando as coisas estavam melhorando que a rede encerrou o projeto abruptamente.
A mudança na UPN: o verdadeiro vilão do cancelamento de ‘Enterprise’
O contexto executivo é crucial para entender o cancelamento de ‘Enterprise’. Quando a série estreou, a UPN era comandada por executivos que eram fãs de Star Trek. Eles entendiam o valor da franquia, mesmo com audiência modesta. Mas, em 2003, a emissora passou por uma reestruturação. Os velhos executivos saíram, e os novos que entraram não tinham nenhuma conexão com a franquia. Para eles, ‘Enterprise’ era apenas um programa caro com números medíocres — não uma peça fundamental de um universo narrativo que gerava receita há décadas.
Essa mudança de liderança foi o golpe fatal. Como Braga apontou, os novos chefes “não sabiam o que tinham”. Eles não enxergavam o potencial de longo prazo, não entendiam a base de fãs dedicada, não percebiam que a série estava construindo uma ponte para o futuro da franquia. Em vez disso, olharam para os ratings e decidiram cortar custos.
E não foi falta de aviso. Scott Bakula, que já era um nome conhecido graças a ‘Quantum Leap’, chegou a se reunir pessoalmente com os executivos da UPN para tentar garantir uma quarta temporada. Ele conseguiu — mas apenas uma. A quinta temporada nunca foi discutida. E, durante as filmagens de “In a Mirror, Darkly”, a notícia do cancelamento oficial chegou ao set. A ironia é amarga: um dos episódios mais criativos da série estava sendo produzido enquanto a rede decidia seu destino.
O final que enfureceu os fãs (e o elenco): ‘These Are The Voyages…’
O cancelamento forçou Berman e Braga a tomar uma decisão controversa: transformar o episódio final de ‘Enterprise’, “These Are The Voyages…”, em um episódio centrado em ‘A Nova Geração’. A trama mostra o Comandante Will Riker (Jonathan Frakes) revisando os eventos da história de ‘Enterprise’ através dos arquivos da Enterprise-D. A intenção era fazer uma despedida para toda a era Berman, mas o resultado foi um desrespeito com o elenco de ‘Enterprise’ — e com os fãs.
O episódio, que deveria celebrar os quatro anos da série, acabou sendo um epílogo de outra série. Os personagens de ‘Enterprise’ ficaram em segundo plano, e o momento mais chocante — a morte do Trip Tucker — foi tratado de forma quase casual, como um detalhe histórico em vez de uma perda devastadora. Connor Trinneer, que interpretava Trip, nunca escondeu sua insatisfação. Scott Bakula, conhecido por sua postura profissional, também ficou visivelmente irritado. E os fãs, que já estavam magoados com o cancelamento, transformaram o episódio em um dos mais odiados da história da franquia.
Vinte anos depois, “These Are The Voyages…” ainda é um ponto de discórdia. Não é exagero dizer que o final de ‘Enterprise’ é o pior de toda a franquia, não por ser mal produzido, mas por ser um desrespeito com a série que supostamente estava encerrando. Em vez de dar aos personagens a despedida que mereciam, Berman e Braga usaram o episódio para amarrar sua própria era — uma decisão que, na época, parecia arrogante e, hoje, parece simplesmente errada.
Vinte e cinco anos depois: a redenção de ‘Enterprise’
O mais irônico de tudo é que o tempo foi generoso com ‘Enterprise’. Em 2026, a série celebrou seu 25º aniversário, e a percepção pública mudou drasticamente. Graças ao streaming e ao binge-watching, uma nova geração de fãs descobriu o Capitão Archer, T’Pol, Trip e o resto da tripulação da NX-01. E, sem a interferência das afiliadas locais e da programação errática da UPN, a série finalmente pôde ser apreciada como uma obra coesa.
Hoje, ‘Enterprise’ não é mais a série menos celebrada da franquia. Pelo contrário, muitos fãs a consideram uma das mais subestimadas de Star Trek, com uma abordagem mais crua e realista dos primórdios da exploração espacial. A quarta temporada, em particular, é celebrada como um exemplo de como uma série pode se reinventar no final. E o episódio “In a Mirror, Darkly” é frequentemente listado entre os melhores da franquia.
Mas a pergunta que fica é: e se a UPN tivesse mantido os executivos que entendiam Star Trek? E se ‘Enterprise’ tivesse tido suas sete temporadas? O elenco acreditava nisso. Brannon Braga acreditava nisso. E, olhando para o que a série conseguiu fazer em apenas quatro temporadas, é impossível não imaginar o que ela teria alcançado com mais três anos.
O cancelamento de ‘Enterprise’ não foi um veredito sobre qualidade. Foi um erro executivo, uma decisão tomada por pessoas que não entendiam o produto que estavam gerenciando. E, como Braga deixou claro, o elenco nunca perdoou — nem deveria. Porque eles não estavam pedindo um favor. Eles estavam cumprindo um acordo que a rede quebrou.
No fim das contas, ‘Enterprise’ sobreviveu ao cancelamento. Hoje, ela é reavaliada, celebrada e finalmente reconhecida pelo que sempre foi: uma série ousada, com personagens cativantes e uma visão única do universo de Star Trek. Mas a mágoa de 2005 permanece. E, sempre que alguém reassiste “These Are The Voyages…” e sente aquele desconforto, é bom lembrar: aquela sensação não é só sobre um episódio. É sobre uma promessa que nunca foi cumprida.
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Perguntas Frequentes sobre o Cancelamento de ‘Enterprise’
Por que ‘Enterprise’ foi cancelada após apenas 4 temporadas?
Segundo o cocriador Brannon Braga, o cancelamento ocorreu por uma mudança de liderança na UPN em 2003. Os novos executivos não tinham conexão com a franquia e trataram a série como um programa caro com ratings medíocres, ignorando o valor estratégico de Star Trek para a emissora.
O elenco de ‘Enterprise’ sabia que a série poderia ser cancelada?
Não. Todo o elenco assinou com a expectativa de sete temporadas, seguindo a tradição das séries anteriores. A notícia do cancelamento chegou durante as filmagens do episódio “In a Mirror, Darkly”, na quarta temporada, pegando todos de surpresa.
Onde assistir ‘Enterprise’ hoje?
‘Enterprise’ está disponível no Paramount+ em diversos países. No Brasil, a série também pode ser encontrada na Netflix em algumas regiões, mas o Paramount+ é a plataforma oficial da franquia.
Qual foi a reação do elenco ao final ‘These Are The Voyages…’?
O episódio final, centrado em ‘A Nova Geração’, foi mal recebido pelo elenco e pelos fãs. Connor Trinneer (Trip) e Scott Bakula (Archer) expressaram publicamente sua insatisfação, e o episódio é considerado um dos piores finais da franquia.
‘Enterprise’ é baseada em história real?
Não. ‘Enterprise’ é uma prequela fictícia do universo de Star Trek, ambientada um século antes dos eventos da série original. O arco da formação da Federação é uma construção ficcional inspirada em temas históricos de exploração e diplomacia.

