A inesperada redenção de Bullseye em ‘Born Again’ e o eco de Loki

Em ‘Born Again’, a misericórdia de Matt cria um gatilho psicológico inédito para Bullseye. Analisamos como a graça oferecida por Daredevil difere do livre-arbítrio de Loki e por que tentar fazer de Dex um novo Punisher seria um erro narrativo.

Vilões não mudam de lado por vontade do roteiro. Mudam quando recebem algo que a narrativa raramente oferece: misericórdia sem condição. No 7º episódio da 2ª temporada de Daredevil: Born Again, Matt Murdock poupa Benjamin Poindexter. O gatilho para a redenção de Bullseye não é um clique moral automático — é o impacto de um ato de graça vindo de quem deveria querer vê-lo morto.

Quando pensamos em arcos de redenção no MCU, o nome imediato é Loki. Tom Hiddleston passou de vilão cósmico a salvador do multiverso em uma jornada que exigiu múltiplas aparições e uma série própria. Mas o que ninguém está debatendo é que o arco de Bullseye em ‘Born Again’ é estruturalmente tão sofisticado quanto o de Loki, só que mais compacto e, talvez, mais perturbador. Loki precisou de uma série inteira para entender o conceito de livre-arbítrio. Bullseye precisou de uma única cena para entender o conceito de graça.

O peso da misericórdia: por que a escolha de Matt reescreveu Dex

Benjamin Poindexter passou anos sendo um instrumento. Primeiro para Fisk, depois para Vanessa. Seu único conceito de redenção — a única coisa que o mantinha funcional — era a ideia de um ‘bom feito’ que compensasse toda a morte que causou. Mate os Fisks, e talvez o universo fique em paz. Talvez ele fique em paz.

O problema dessa lógica é que é matemática de psicopata. Você não soma uma vida salva e subtrai dez assassinatos. Não funciona assim, e Dex sabia disso em algum nível profundo — por isso a ideia o consumia.

Então Matt faz o inesperado: escolhe não matá-lo. Não por fraqueza, não por estratégia, mas por honra a Foggy Nelson. E então oferece a Poindexter exatamente o que ele pedia: a chance de fazer um bom feito. Salvar o governador. Proteger um inocente.

A diferença é brutal. Quando Bullseye mata Fisk por ‘redenção’, ele tenta equilibrar a balança. Quando salva o governador porque Matt pediu, ele faz algo inédito: obedece a um código moral que não é o seu. Confia em alguém que o odeia.

É o momento em que o vilão percebe que redenção não é matemática — é relacionamento. E considerando a fé católica de Matt, não é coincidência que o gatilho seja a graça (um favor imerecido) e não o mérito.

O paralelo com Loki: livre-arbítrio versus graça

O arco de Loki é frequentemente resumido como ‘vilão aprende a ser herói’. Mas o que realmente acontece é mais complexo. Loki passa de alguém que acredita estar destinado a ser o vilão para alguém que entende que pode escolher ser outra coisa. O livre-arbítrio é a chave. A série do personagem é, em essência, sobre a descoberta de que suas ações pertencem a ele, não ao destino ou a Thanos.

Bullseye chega a um ponto semelhante por outro caminho. Ele não aprende sobre livre-arbítrio através de viagens temporais e paradoxos filosóficos. Ele aprende porque Matt Murdock — um homem que tem todo o motivo do mundo para odiá-lo — oferece algo mais valioso que qualquer autossuperação: a possibilidade de ser diferente sem ter que se redimir completamente primeiro.

É o inverso de Loki. Loki conquista a redenção através do esforço próprio. Bullseye recebe a oportunidade através da graça. Dois caminhos para o mesmo destino: um personagem que descobre que pode ser mais do que seu pior eu.

Por que Bullseye como ‘novo Punisher’ seria um erro psicológico

Por que Bullseye como 'novo Punisher' seria um erro psicológico

A Marvel está sinalizando que Bullseye pode ser posicionado como um anti-herói no estilo de Frank Castle. Seria um erro de casting psicológico.

O Punisher funciona porque tem uma filosofia clara: o sistema falhou, então eu executo a justiça. É brutal e questionável, mas é consistente. Frank Castle acredita no que faz.

Bullseye não tem filosofia. Tem obsessão. Ele é a precisão encarnada — e precisão sem propósito é apenas morte eficiente. O motivo de seu arco funcionar em ‘Born Again’ é que, pela primeira vez, alguém ofereceu a ele um propósito que não era a morte.

Se tentarem transformá-lo num Punisher 2.0, a narrativa falha. Porque Dex não é ideológico, é psicológico. Seu poder não é apenas atirar sem errar — é se adaptar ao que a figura de autoridade ao seu lado exige. Fisk queria um assassino? Bullseye foi assassino. Matt quer um protetor? Bullseye pode ser protetor. Isso o torna mais perigoso que o Punisher, não menos. O Punisher você pode debater. Bullseye você não consegue. Ele é um camaleão com armas.

O que o futuro reserva: agência moral ou manipulação?

Se Bullseye sobreviver ao finale da 2ª temporada (e tudo indica que sim), o verdadeiro teste vem depois. Não é se ele vai se redimir completamente — isso seria preguiçoso. É se ele consegue manter uma agência moral independente.

O arco de Loki funcionou porque a série inteira o forçou a descobrir quem ele é quando ninguém está ditando seu papel. Bullseye está no extremo oposto. Ele está descobrindo quem é quando alguém finalmente oferece uma escolha que não é entre simplesmente, ser uma arma ou estar morto.

Isso é redenção? Não exatamente. É possibilidade. O começo de algo que pode ser redenção ou uma manipulação ainda mais profunda. Porque — e isso é crucial — Matt ainda odeia Bullseye. Ele não confia nele. Apenas o usou de uma forma que Dex aceitou ser usado.

É possível que Bullseye perceba isso. E aí? Ele volta para a violência sem propósito, ou encontra uma razão própria para continuar sendo mais do que um assassino?

O eco de Loki: quando o vilão descobre que pode escolher

O que une esses dois arcos é um momento. Um único instante em que o personagem entende que não é prisioneiro de seu próprio código. Loki descobre isso quando vê que seu futuro não é fixo. Bullseye descobre quando Matt oferece uma tarefa que não é matar.

Ambos os momentos são sobre agência. A diferença é que Loki teve horas de tela para processar a revelação. Bullseye teve um episódio. Por isso seu arco é tão compacto e eficaz: não há espaço para filosofia, apenas para ação. Bullseye salva o governador não porque compreendeu livre-arbítrio, mas porque Matt pediu. E nesse ato simples, ele se torna algo que nunca foi: alguém que pode fazer o bem sem que isso seja uma estratégia de sobrevivência.

É um arco de redenção que não promete redenção. Promete apenas possibilidade. No MCU de 2026, talvez seja exatamente o que o público precise — um vilão que não se transforma em herói, mas descobre que pode escolher não ser vilão. Ainda.

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Perguntas Frequentes sobre Bullseye em ‘Born Again’

Onde assistir ‘Daredevil: Born Again’?

‘Daredevil: Born Again’ está disponível exclusivamente no Disney+. A primeira temporada estreou em março de 2025 e a segunda em 2026.

Bullseye se redime completamente em ‘Born Again’?

Não completamente. O arco de Dex na 2ª temporada oferece a ele a possibilidade de redenção através da graça de Matt Murdock, mas ele não se torna um herói. O final deixa em aberto se ele desenvolverá uma agência moral própria ou continuará sendo manipulado.

Qual a diferença entre os arcos de Bullseye e Loki no MCU?

Loki conquista sua redenção através do livre-arbítrio e da autossuperação, percebendo que pode escolher seu destino. Bullseye, por outro lado, recebe a oportunidade de redenção através da graça — um ato de misericórdia imerecida de Matt Murdock — sem que precise se redimir por conta própria primeiro.

Por que Bullseye não funciona como anti-herói no estilo Punisher?

O Punisher tem uma ideologia clara e consistente sobre justiça, mesmo que brutal. Bullseye não tem filosofia própria; ele é um camaleão psicológico que se molda ao que as figuras de autoridade exigem dele, o que o torna perigoso e imprevisível de uma forma completamente diferente de Frank Castle.

Em qual episódio Matt Murdock poupa Bullseye em ‘Born Again’?

O momento crucial em que Matt poupa Dex e oferece a ele uma chance de fazer o bem acontece no episódio 7 da 2ª temporada de ‘Daredevil: Born Again’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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