‘The Boys’: A redenção impossível de The Deep e seu fim trágico

Analisamos por que The Deep em ‘The Boys’ não tem espaço para redenção na 5ª temporada. Enquanto A-Train transforma dor em consciência, as cenas de vulnerabilidade do Sr. Peixe apenas reforçam sua covardia e vazio moral, selando seu fim trágico.

Existe uma tentação quase irresistível no fandom moderno de querer salvar todo mundo. Assistimos a um personagem horrível e imediatamente buscamos a fresta de luz que justifique um arco redentor. Mas ‘The Boys’ nunca foi sobre conforto, e a 5ª temporada está prestes a cobrar uma conta que The Deep The Boys nunca terá como pagar. Enquanto a série distribui perdões e reviravoltas morais para outros membros do Sete, o Sr. Peixe está preso num ciclo de covardia que suas lágrimas de crocodilo não conseguem lavar.

O grande erro do público é confundir vulnerabilidade com moralidade. A série adora nos forçar a olhar para as cicatrizes dos personagens, mas exige que saibamos diferenciar quando uma ferida gera empatia e quando apenas justifica o próximo ato covarde. E é exatamente aí que a comparação com A-Train se torna inevitável: um provou que a dor pode gerar consciência; o outro provou que o sofrimento pode ser o último refúgio do sociopata.

A armadilha da empatia: por que as lágrimas de The Deep são vazias

A armadilha da empatia: por que as lágrimas de The Deep são vazias

Lembre daquela cena no 7º episódio da 4ª temporada. Ele quebra o aquário, senta no chão ensopado e chora copiosamente sobre o corpo de Ambrosius, seu polvo de estimação. A direção isola Chace Crawford naquele quadro de miséria absoluta, com a luz fria do aquário quebrado refletindo em seu rosto, pedindo que sintamos pena. É patético. Mas repare na mecânica narrativa da cena: o sofrimento dele é 100% narcisista. Ele não chora a perda de um ser amado da forma como nós entendemos o amor; ele chora a perda da única coisa que o validava incondicionalmente.

A mesma lógica se aplica ao trauma de ter suas brânquias tocadas sem consentimento ainda na 1ª temporada. A série dá a ele a exata violência que ele impôs a Starlight. Você espera que o espelho o quebre. Não quebra. Em vez de gerar empatia, o trauma das brânquias apenas alimenta mais rancor. Os momentos de simpatia do Deep funcionam como uma cortina de fumaça. Eles o tornam trágico, sim, mas nunca redimível. A dor dele não o conecta com a dor do próximo; funciona apenas como um atestado de que o mundo é cruel com ele, logo, ele tem o direito de ser cruel de volta. É a lógica de um covarde que se vitimiza para não assumir a responsabilidade de suas próprias escolhas.

O espelho quebrado: o que A-Train tem e The Deep nunca terá

Aqui entra o contraste mais doloroso da série. A-Train e The Deep começaram no exato mesmo lugar: eram capangas assustados de Homelander, covardes que cometiam atrocidades para manter seu lugar na hierarquia da Vought. Mas os roteiristas traçaram uma bifurcação implacável. O coração falhando de A-Train e a paralisia do irmão foram portas para a redenção; a dor do velocista revelou, com o tempo, uma centelha de humanidade que culminou em sua amizade com Starlight e sua rebelião silenciosa.

A comparação com A-Train revela o quão oco o Deep realmente é. A-Train sente culpa. A-Train olha para as ruínas que causou e percebe que precisa mudar. O Deep olha para as ruínas e reclama que os escombros arranharam seu sapato. Narrativamente, seria um erro crasso redimir os dois da mesma forma. O Deep existe como o ‘foil’ perfeito para A-Train — ele é o contra-exemplo vivo do que acontece quando o medo e o egoísmo vencem a consciência. Redimir o Deep seria invalidar todo o esforço de A-Train para se tornar alguém melhor.

As escolhas ativas de um covarde: a maldade como refúgio

As escolhas ativas de um covarde: a maldade como refúgio

Ninguém nasce sem salvação, mas o Deep trabalha duro para garantir a sua. A série não para de dar chances para ele escolher o lado certo, e ele sistematicamente escolhe a pior opção possível. O sabático após o assédio a Starlight poderia ter gerado reflexão; ele usou o tempo apenas para focar em como retornar à fama. O único ato ‘bom’ que cometeu — recuperar o footage do Voo 37 para Maeve — foi feito de forma transacional, exigindo uma recompensa em troca de reputação.

E os exemplos só pioram. Na 4ª temporada, ele poderia ter pedido desculpas sinceras a Starlight, mas em vez disso, dobrou a aposta no ódio e tentou atacá-la fisicamente. Na 5ª temporada, a dinâmica se repete de forma ainda mais sórdida: a ordem de Homelander é apenas capturar A-Train. O Deep não tem nenhuma razão lógica para ir atrás da família inocente do velocista. Ainda assim, ele encerra a conversa ameaçando caçar sua família. Ele não é forçado a fazer isso; ele escolhe a crueldade gratuita. O Deep não é apenas um produto do medo de Homelander, ele é alguém que usa o medo como desculpa para exercer a maldade que já habita nele.

O fim trágico na 5ª temporada: descartado pelo ditador

Como fechar o arco de alguém que recusou toda e qualquer graça? Com a mesma miséria que ele espalhou. O final lógico para ele não é um sacrifício heroico de última hora, nem um perdão conquistado na reta final. Seria uma traição à essência do personagem. O final certo é ele morrendo exatamente como viveu: como um covarde trágico nas mãos do mestre que ele tanto temeu e obedeceu.

A 5ª temporada está deixando o medo do Deep em relação a Homelander mais explícito do que nunca. A solução narrativa perfeita é Homelander demonstrar que não precisa dele — talvez com a ressurreição de Soldier Boy ou simplesmente com a consolidação de sua tirania nos EUA — e descartá-lo como um lixo. O Deep morreria fazendo o trabalho sujo, sem nenhuma recompensa, provando que a lealdade cega a ditadores não compra salvação. Ele fecharia o ciclo exatamente como começou: sem um pingo de bondade.

No fim das contas, ‘The Boys’ entende algo que muita ficção recusa-se a aceitar: algumas pessoas não têm interesse em serem salvas. O Deep é o lembrete cáustico de que, às vezes, o monstro debaixo da cama é apenas um covão frustrado que gosta de ser o capacho do ditador. Eu disse o que penso, mas a série tem um histórico de subverter expectativas. E você, alguma vez caiu nessa armadilha de sentir pena do Deep, ou já tinha percebido que as lágrimas dele eram só de crocodilo?

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Perguntas Frequentes sobre The Deep em ‘The Boys’

Quem interpreta The Deep em ‘The Boys’?

O personagem é interpretado pelo ator norte-americano Chace Crawford, conhecido anteriormente por seu papel na série ‘Gossip Girl’.

Onde assistir ‘The Boys’?

‘The Boys’ é uma produção original Amazon e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming Prime Video.

The Deep consegue se redimir na série?

Até o momento, não. Diferente de A-Train, que demonstra culpa genuína e busca mudança, os momentos de vulnerabilidade de The Deep são puramente narcisistas e apenas reforçam sua covardia e egoísmo.

O que acontece com The Deep na 4ª temporada?

Na 4ª temporada, ele acidentalmente mata seu polvo de estimação, Ambrosius, e se submete cada vez mais a Homelander, participando ativamente de ataques cruéis e gratuitos contra outros personagens.

Qual a diferença entre os arcos de A-Train e The Deep?

A-Train usa seu sofrimento e culpa para desenvolver consciência e tentar ser melhor. The Deep usa seu sofrimento como desculpa para se vitimizar e continuar cometendo atrocidades por puro egoísmo e medo.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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