Defendemos por que ‘Altered Carbon’ é a melhor série cyberpunk da Netflix e explicamos por que a segunda temporada, estrelada por Anthony Mackie, foi injustiçada pela crítica. Uma obra que entende o gênero como crítica social, não apenas estética neon.
Há um tipo de ficção científica que usa o futuro para falar do presente com mais clareza do que qualquer drama contemporâneo conseguiria. ‘Altered Carbon’ é esse tipo de obra — e digo isso sem exagero: é a melhor série cyberpunk que a Netflix já produziu, e vou explicar por que essa afirmação não é hiperbole de fã, mas análise fundamentada.
A Netflix tem um catálogo respeitável de sci-fi: ‘Dark’ reinou no mistério, ‘Arcane’ elevou a animação, ‘Black Mirror’ aterrorizou com previsões plausíveis. Mas cyberpunk específico — aquele subgênero que mistura alta tecnologia com baixa qualidade de vida, neon com chuva ácida, corporações onipotentes com anti-heróis desesperados — sempre foi terreno espinhoso. ‘Cyberpunk: Edgerunners’ foi um acerto, mas ‘Altered Carbon’ é a obra que o streaming deixou morrer cedo demais. Lançada em 2018 e adaptada por Laeta Kalogridis dos romances de Richard K. Morgan, a série tinha ambição rara: construir um mundo onde imortalidade é mercadoria.
Por que ‘Altered Carbon’ é cyberpunk legítimo — não só visual
Cyberpunk fácil é estética: jogue neon em um beco, adicione chuva, coloque óculos escuros futuristas. Cyberpunk de verdade — o que ‘Altered Carbon’ faz — é usar tecnologia para expor desigualdade. A premissa central da série é simples e brutal: humanos podem transferir sua consciência para “stacks”, chips implantados na coluna vertebral. Isso significa que a morte não é mais permanente — para quem pode pagar.
A série entende que o horror do cyberpunk não está nos robôs ou nos hologramas, mas na consolidação de poder. Os “Meths” — imortais absurdamente ricos que vivem há séculos em corpos sempre renovados — representam o extremo lógico do capitalismo: quem tem recursos não só acumula bens, mas acumula tempo de vida. É uma metáfora que funciona porque é literal.
Visualmente, a primeira temporada é um tratado de atmosfera. A cidade de Bay City — uma versão futurista de São Francisco — é construída com a gramática visual clássica do gênero: arranha-céus que bloqueiam o sol, ruas permanentemente úmidas, hologrames publicitários que gritam consumo. A chuva permanente, os letreiros que inundam o céu noturno, a arquitetura que oprime — é a linguagem que ‘Blade Runner’ estabeleceu em 1982, mas aqui expandida para uma escala que permite exploração prolongada. Diferente de produções que param no “bonito”, ‘Altered Carbon’ usa esse cenário para contar história: os corpos sintéticos descartáveis dos mais pobres, os corpos sob medida dos ricos, a arquitetura vertical que separa fisicamente classes sociais.
O mistério noir que sustenta a primeira temporada
Ao colocar Takeshi Kovacs — um “Envoy”, soldado de elite com treinamento especial — para investigar a tentativa de assassinato de um Meth imortal, a série faz algo inteligente: veste roupas de cyberpunk para contar um noir clássico. O detective story de Raymond Chandler e Dashiell Hammett é transportado para um futuro onde a vítima não pode morrer, mas ainda tem tudo a perder.
O que poderia ser apenas premissa bacana se torna narrativa de verdade porque o roteiro entende que cyberpunk precisa de humanidade no meio do tecnológico. A busca de Kovacs por resolver o caso é também uma busca por entender seu próprio lugar em um mundo que evoluiu 250 anos sem ele. Joel Kinnaman, no papel, carrega um cansaço existencial que vende completamente a ideia de um homem despertando em um futuro que não pediu e não reconhece — seu rosto cansado e sua postura rígida comunicam deslocamento antes de qualquer linha de diálogo.
Dois atores, um personagem: o truque que funciona
A mecânica de “mudar de corpo” não é apenas worldbuilding — é oportunidade narrativa. A série fez algo raro: permitiu que dois atores interpretassem o mesmo personagem de formas distintas mas coerentes. Joel Kinnaman na primeira temporada é Kovacs desorientado, amargo, carregando o peso de 250 anos de criopreservação. Anthony Mackie na segunda é um Kovacs que já processou parte desse trauma — mais focado, mais determinado, mas ainda carregando as mesmas cicatrizes.
O que impressiona é a continuidade emocional. Quando Mackie assume o papel, você acredita que é o mesmo homem — não porque ele imita Kinnaman, mas porque entende a essência do personagem. Há uma cena específica na segunda temporada em que Kovacs enfrenta seu próprio clone cibernético no deserto: o horror de ver seu rosto usado como arma, a vulnerabilidade de perceber que sua identidade pode ser replicada. Mackie transmite tudo isso com economia gestual — a mesma intensidade controlada de seu Sam Wilson no MCU, mas sem o escudo para se esconder atrás.
A segunda temporada é injustiçada — e vou provar
Aqui eu preciso discordar do consenso: a segunda temporada de ‘Altered Carbon’ não é queda de qualidade — é vítima de comparação injusta. Sim, o mistério central não é tão elegante quanto o da primeira temporada. Mas reduzir a temporada a isso é ignorar tudo que ela faz bem.
Aprofundar a mitologia da série — explorar mais dos Envoys, da história de Kovacs, das consequências da tecnologia de imortalidade — é exatamente o que uma continuação deveria fazer. A deterioração de Poe, a IA inspirada em Edgar Allan Poe que gerencia o hotel onde Kovacs se hospeda, é uma das tramas mais tocantes da série inteira. Ver uma inteligência artificial desenvolver algo parecido com demência enquanto questiona sua própria existência é comentário sci-fi do mais alto nível. Chris Conner, que interpreta Poe, entrega uma performance silenciosa e devastadora — especialmente nos momentos em que a IA luta para acessar memórias que antes eram instantâneas.
Mackie entrega uma performance que merece mais reconhecimento. Seu Kovacs é menos cínico que o de Kinnaman, mas isso não é falha — é evolução natural de alguém que passou anos processando perdas. A química com Renée Elise Goldsberry, que interpreta Quellcrist Falconer, adiciona uma camada emocional que a primeira temporada tinha menos espaço para explorar.
O cancelamento antes da terceira temporada foi erro da Netflix. ‘Altered Carbon’ tinha material para continuar — os romances de Morgan oferecem mais história, e a série demonstrou que sabia adaptar com inteligência. Terminar com a segunda temporada é como interromper ‘Blade Runner’ antes do monólogo final.
O veredito: por que você deveria assistir (ou reassistir)
Se você curte cyberpunk, ‘Altered Carbon’ é obrigatório. Não porque é perfeito — a segunda temporada tem problemas de ritmo, alguns subplots não funcionam tão bem — mas porque é ambicioso de verdade. Em uma era de conteúdo que prioriza segurança criativa, esta série apostou em ideias grandes: imortalidade como moeda de poder, identidade como algo fluido, memória como prisão.
Para quem já viu quando lançou: vale reassistir com olhos frescos. A segunda temporada melhora quando você não está comparando em tempo real com a primeira. Para quem nunca viu: tem duas temporadas completas esperando, e o final da segunda funciona como fechamento suficiente para não deixar você totalmente pendurado.
‘Altered Carbon’ merece ser lembrada não como “aquela série que a Netflix cancelou”, mas como uma das poucas obras que realmente entendeu o que cyberpunk pode fazer quando tratado com seriedade. Tem a atmosfera opressiva de ‘Blade Runner’, a complexidade de mundo de ‘Neuromancer’, e a coragem de explorar consequências que ambos deixaram implícitas.
E se você discorda da minha defesa da segunda temporada, tudo bem — críticos também erram. Mas assista de novo antes de julgar. Às vezes precisamos de distância para reconhecer valor que o hype ou a decepção inicial nos impediram de ver.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Altered Carbon’
Onde assistir ‘Altered Carbon’?
‘Altered Carbon’ está disponível exclusivamente na Netflix. São duas temporadas completas, lançadas em 2018 e 2020 respectivamente.
Por que ‘Altered Carbon’ foi cancelada?
A Netflix cancelou a série em agosto de 2020, dois meses após o lançamento da segunda temporada. O motivo oficial não foi declarado, mas especula-se que o alto custo de produção (estimado em US$ 7-10 milhões por episódio) e os números de audiência abaixo do esperado pesaram na decisão.
‘Altered Carbon’ é baseado em livro?
Sim. A série é adaptação do romance “Carbono Alterado” (2002), primeiro livro da trilogia Takeshi Kovacs do escritor britânico Richard K. Morgan. A série adapta livremente o material original, expandindo personagens e criando tramas originais.
Preciso assistir a primeira temporada para entender a segunda?
Sim, é essencial. A segunda temporada continua diretamente a história de Takeshi Kovacs e assume que o espectador conhece os conceitos de stacks, Envoys e Meths estabelecidos na primeira. Além disso, personagens como Poe e Quellcrist têm seus arcos dependentes do que foi construído anteriormente.
Qual a classificação indicativa de ‘Altered Carbon’?
A série é classificada como 16 anos no Brasil e TV-MA nos Estados Unidos. Contém violência gráfica, nudez, conteúdo sexual e linguagem forte — consistente com o tom adulto do cyberpunk.

