‘O Agente Noturno’ supera ‘Reacher’ ao resolver o problema do herói imutável

A terceira temporada de ‘O Agente Noturno’ revela por que personagens que evoluem mantêm audiências, enquanto a fórmula imutável de ‘Reacher’ enfrenta queda de aprovação do público. Entenda a decisão narrativa que pode definir o futuro de ambas as séries de ação.

Há um consenso silencioso entre críticos de que ‘O Agente Noturno’ e ‘Reacher’ ocupam o mesmo espaço: thrillers de ação com protagonistas masculinos inteligentes enfrentando conspirações internacionais. Os números do Rotten Tomatoes parecem confirmar isso — Reacher ostenta um impressionante 96% de aprovação crítica, enquanto O Agente Noturno para em 81%. Mas confiar apenas em médias esconde uma tendência que pode definir o futuro de ambas. A aprovação do público por Reacher caiu consistentemente (91% para 73% em três temporadas), enquanto O Agente Noturno recuperou-se de um desastre na segunda temporada e agora cresce. A explicação não está em orçamento ou elenco — está em uma decisão narrativa fundamental que a Netflix acertou e a Amazon parece reluctante em reconhecer.

O paradoxo do herói perfeito que ninguém quer ver mudar

O paradoxo do herói perfeito que ninguém quer ver mudar

Jack Reacher foi desenhado propositalmente como uma força da natureza. Em 29 livros de Lee Child, ele permanece essencialmente o mesmo: ex-policial militar, ética inabalável, capacidade física quase sobre-humana, intuição detectivesca afiada. Funciona nos livros porque Child entende que o prazer está em ver uma máquina bem lubrificada resolver problemas. Mas na tela, essa imutabilidade cria um problema que a série ainda não admitiu — não existe trajetória.

Compare com o que Peter Sutherland viveu em três temporadas de O Agente Noturno. Na primeira, era um funcionário de baixo escalão do FBI que atendia um telefone noturno e se via enrolado em uma conspiração. Na segunda, tentou navegar entre moralidade e “bem maior”, tornando-se quase insuportável no processo — maratonei os episódios com dificuldade em torcer por ele. Na terceira, finalmente resolveu essa tensão. Há uma cena específica no quarto episódio onde ele confronta o mentor que o treinou, e a escolha que faz ali não seria possível no Peter da primeira temporada. Seus instintos morais amadureceram. Ele não é mais o mesmo personagem que atendeu aquele telefone. Há uma satisfação narrativa nisso que Reacher estruturalmente não pode oferecer.

Por que a antologia funciona melhor com personagens que evoluem

Aqui entra uma ironia interessante. Ambas as séries adotaram formato de antologia — cada temporada coloca o protagonista em um novo cenário com novos coadjuvantes. Funciona para James Bond e Indiana Jones, certo? Mas há uma diferença crucial: Bond aprendeu com erros (veja como ele muda de Cassino Royale para Quantum of Solace), e Indiana Jones carrega traumas. Jack Reacher não. Ele chega pronto, resolve tudo, e parte imune.

O Agente Noturno demorou duas temporadas para entender isso. Na segunda, tentou manter Rose Larkin como parceira fixa de Peter, mas o relacionamento ficou forçado — ela perdeu identidade própria para servir apenas como alguém que o protagonista precisava proteger. Foi na terceira temporada que a série finalmente acertou: Peter entrou sozinho, desenvolveu-se independentemente, e a experiência de assistir tornou-se significativamente mais gratificante. O formato antológico funciona quando há um núcleo em evolução viajando por ele. Sem isso, cada temporada é apenas um episódio longo de uma série policial processual.

Os números contam uma história que críticos ignoraram

Os números contam uma história que críticos ignoraram

Os 98% de aprovação crítica para a terceira temporada de Reacher são merecidos — Alan Ritchson encarna o personagem com carisma físico impressionante, e a produção mantém um padrão técnico alto. Os enquadramentos amplos que destacam sua estatura, a coreografia de lutas que valoriza força bruta sobre agilidade — tudo funciona. Mas a queda de 91% para 73% na aprovação do público revela algo que a crítica especializada frequentemente desconsidera: audiências cansam de fórmulas quando não há promessa de evolução.

Enquanto isso, O Agente Noturno saltou de 39% (segunda temporada) para 79% (terceira) entre espectadores. Esse tipo de recuperação é raro em séries de ação. Geralmente, quando uma temporada afasta o público, ele não volta. A série conseguiu reverter isso porque ofereceu algo que a segunda temporada prometeu mas não cumpriu: um protagonista que aprende, erra, e se transforma. Peter Sutherland da terceira temporada é mais competente e moralmente mais claro que o das anteriores — e isso gera uma satisfação que transcende o entretenimento momentâneo.

O que o futuro reserva para duas fórmulas opostas

Reacher não precisa mudar sua abordagem para continuar existente. Há material de origem suficiente para uma década de temporadas, e fãs dos livros continuarão assistindo. Mas a série enfrenta um teto de crescimento que O Agente Noturno acaba de romper. Sem desenvolvimento de protagonista, cada temporada precisa ser excepcional por conta própria — o peso recai inteiramente na trama. Uma temporada fraca não é compensada por progresso de personagem porque progresso não existe.

O Agente Noturno, por outro lado, construiu algo mais valioso: um herói que merece ser acompanhado não apenas pelo que faz, mas pelo que se torna. Rose pode voltar na quarta temporada ou não — o formato agora é flexível o suficiente para acomodar isso. Peter Sutherland carrega suas experiências anteriores independentemente de quem está ao seu lado. Isso é liberdade narrativa que Reacher estruturalmente abriu mão.

A pergunta relevante não é qual série é “melhor” — os números críticos favorecem Reacher, e com razão. A pergunta é qual série tem mais potencial de crescimento. O Agente Noturno acabou de provar que entende algo fundamental sobre narrativa televisiva: personagens que evoluem mantêm audiências que retornam. Personagens imutáveis funcionam em filmes de duas horas. Em séries de múltiplas temporadas, podem se tornar uma gaiola dourada. A Netflix parece ter percebido isso. Falta ver se a Amazon fará o mesmo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Agente Noturno’ e ‘Reacher’

Onde assistir ‘O Agente Noturno’ e ‘Reacher’?

‘O Agente Noturno’ está disponível exclusivamente na Netflix. ‘Reacher’ é original Amazon Prime Video, disponível na plataforma desde 2022.

Quantas temporadas têm ‘O Agente Noturno’?

‘O Agente Noturno’ possui três temporadas lançadas. A quarta temporada foi renovada pela Netflix em abril de 2025.

‘Reacher’ é baseado em livros?

Sim. A série adapta os romances de Lee Child, que já somam 29 livros protagonizados por Jack Reacher. Cada temporada adapta um volume diferente da série.

Qual série é melhor para maratonar: ‘O Agente Noturno’ ou ‘Reacher’?

Depende do que você busca. ‘Reacher’ oferece ação consistente com protagonista carismático em tramas autocontidas. ‘O Agente Noturno’ recompensa quem acompanha o arco de evolução do protagonista ao longo das temporadas, com clímax narrativo na terceira.

Preciso assistir as temporadas anteriores de ‘O Agente Noturno’ para entender a terceira?

Recomenda-se assistir na ordem. A terceira temporada funciona sozinha como thriller, mas a evolução moral de Peter Sutherland só tem impacto completo para quem viu suas falhas e dilemas nas temporadas anteriores.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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