Os filmes Pixar década recente formam uma fase mais adulta do estúdio — de ansiedade e puberdade a luto e vazio pós-sonho. Analisamos por que ‘Viva’, ‘Soul’ e ‘Red’ compõem uma “década de ouro” que muita gente ignorou.
Há uma narrativa confortável entre cinéfilos — e até entre fãs casuais — de que a Pixar “não é mais a mesma”. Que depois de ‘Toy Story 3’ ou ‘Up: Altas Aventuras’, o estúdio teria entrado no automático: sequências por inércia, histórias sem risco, emoção por fórmula. É uma crítica preguiçosa. E, pior, é factualmente incorreta.
Se você olhar com atenção para os filmes Pixar década recente (especialmente de 2017 para cá), o que aparece não é decadência: é uma Pixar mais adulta, mais inquieta — às vezes menos “agradável” — e, por isso mesmo, mais interessante. Não estou falando de bilheteria nem de nostalgia. Estou falando de maturidade temática: ansiedade clínica, crise de identidade, puberdade, luto sem fechamento, o vazio depois de “realizar o sonho”, e o peso de heranças familiares.
O mais curioso é que parte dessa fase passou batida não porque os filmes fossem menores, mas porque o contexto os engoliu: pandemia, streaming, mudança de hábito. O resultado é um paradoxo: uma das melhores sequências de filmes da Pixar foi tratada como se fosse rodapé do catálogo.
O salto: quando a Pixar trocou a lição de moral pela ambiguidade
A virada começa, ironicamente, com uma sequência. ‘Toy Story 4’ (2019) poderia ter sido “mais uma aventura” de Woody e Buzz. Em vez disso, Josh Cooley conduz um filme sobre abandono voluntário — e sobre o pavor adulto de perceber que o papel que você sempre desempenhou virou prisão.
Woody passa o filme inteiro tentando justificar a velha missão (“estar lá para a criança”), mas a cena final — quando ele escolhe ficar com Bo Peep e recusa a segurança do grupo — é o tipo de desconforto que animação raramente aceita carregar. Não há tragédia externa; há decisão. E decisão implica culpa, responsabilidade e liberdade ao mesmo tempo.
A Pixar antiga era mestre em fazer você chorar por uma perda inevitável. A Pixar dessa década aprendeu um truque mais cruel: fazer você chorar por uma escolha que, no fundo, você entende.
‘Soul’ e o golpe mais arriscado: matar o sonho no momento em que ele acontece
‘Soul’ (2020), de Pete Docter, vai ainda mais longe e pisa numa das mensagens mais vendidas pelo próprio cinema americano: “siga seu sonho e você vai se completar”. Joe Gardner finalmente consegue o grande show de jazz — e morre imediatamente depois. É uma provocação narrativa claríssima: e se a sua “meta de vida” for só um evento de duas horas? E depois?
A força do filme está em como ele encena o esvaziamento sem precisar discursar. A sequência em que Joe toca, atinge o auge e percebe que a euforia dura segundos tem uma honestidade incômoda. A montagem acelera o clímax e, na sequência, deixa o plano respirar no pós-glória — aquela sensação de “era isso?”.
Assisti a ‘Soul’ no Natal de 2020, em casa, com a pandemia mastigando qualquer ideia de futuro. A cena não “me emocionou” de maneira genérica: ela me atingiu como diagnóstico. Docter parecia entender um tipo de cansaço que filme infantil costuma fingir que não existe.
Ansiedade como linguagem visual: ‘Divertida Mente 2’ não está fazendo metáfora “fofa”
Se ‘Soul’ fala do vazio existencial, ‘Divertida Mente 2’ (2024), dirigido por Kelsey Mann, encara um monstro mais cotidiano: ansiedade como força paralisante. A primeira parte (2015) já era brilhante como ideia. A sequência melhora a precisão: ela entende que a mente na adolescência não “ganha emoções novas” como DLC; ela reorganiza o sistema, muda hierarquias, altera o modo de interpretar o mundo.
Quando Ansiedade assume o painel de Riley, o filme acerta não só no conceito, mas na forma. A mise-en-scène dentro da cabeça muda: saturação que oscila, enquadramentos que dão sensação de aperto, movimento mais nervoso, e um design de personagem que é deliberadamente difícil de “relaxar olhando”. É comédia, sim — mas é também desconforto planejado.
Há ainda um mérito raro em blockbuster: a ansiedade não é “vilã que some no terceiro ato”. O que o filme oferece é convivência, não cura mágica — e isso o aproxima mais da experiência real do que de qualquer moral de manual.
‘Red’: a Pixar bancando a puberdade feminina sem pedir desculpas
‘Red: Crescer é Uma Fera’ (2022), de Domee Shi, é um divisor de águas por um motivo simples: ele não tenta tornar a puberdade “neutra” para caber em todo mundo. A metáfora do panda vermelho gigante é literal e escandalosa — e por trás dela está um filme sobre vergonha, desejo, segredo, culpa e a negociação brutal entre mãe e filha.
Mei mente, esconde coisas “impróprias”, se apavora com o próprio corpo e com a própria vontade. O roteiro não suaviza a mãe controladora para transformá-la em caricatura, nem santifica a rebeldia da filha. As duas estão feridas, as duas erram, e o amor familiar aparece como algo que precisa ser renegociado, não imposto.
Os filmes que a pandemia engoliu (e que você provavelmente não viu direito)
Uma parte grande do “esquecimento” dessa década tem data e contexto. ‘Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica’ (2020), de Dan Scanlon, estreou em março e foi atropelado pelo fechamento dos cinemas. Virou streaming rápido demais para construir conversa. O azar comercial escondeu um dos filmes mais pessoais do estúdio.
Scanlon escreve a partir de um buraco real: crescer sem conhecer o pai. O filme usa fantasia de RPG como fachada (elfos suburbanos, centauros burocráticos) para chegar num ponto devastador: a missão “mágica” não resolve o luto. A cena final, em que Ian percebe que Barley foi sua figura paterna em pequenos atos ao longo da vida, desmonta a promessa de ressurreição e troca “milagre” por reconhecimento. É uma escolha adulta — e, por isso, silenciosa.
‘Luca’ (2021), de Enrico Casarosa, sofreu destino parecido no Disney+. À primeira vista é verão italiano e amizade. Por baixo, funciona como narrativa de identidade escondida: Luca e Alberto vivem com medo de serem vistos como são. O filme nunca rotula explicitamente, mas a codificação queer está no mecanismo dramático (segredo, vigilância social, “passar” como humano) e na tensão afetiva entre os dois.
E a estética ajuda: o visual inspirado em ilustração italiana de meio de século — formas redondas, cores quentes, sensação de cartão-postal — cria um contraste com o subtexto de perigo. É o tipo de filme que parece leve até você lembrar como era ter um segredo na adolescência.
Entre blockbuster e intimismo: quando a Pixar faz espetáculo sem virar barulho
Essa fase não é só “pequena e experimental”. ‘Os Incríveis 2’ (2018), de Brad Bird, prova que o estúdio ainda sabe fazer set pieces de ação com clareza e ritmo — e, ao mesmo tempo, falar de dinâmica doméstica sem cair em slogan.
A inversão de papéis (Helen no trabalho, Bob em casa) poderia ser piada fácil. Bird encontra o detalhe: Bob tentando ajudar com matemática, falhando, se irritando, se culpando; Helen carregando a pressão de “dar certo” enquanto a casa pede socorro. É comédia observacional sobre gênero e trabalho disfarçada de super-herói.
E ‘Viva: A Vida é uma Festa’ (2017) é o caso em que o reconhecimento veio (Oscars, impacto cultural), mas a leitura costuma parar no “filme sobre cultura mexicana”. Lee Unkrich e Adrian Molina usam o Día de los Muertos para fazer algo mais radical: tratar a morte como política familiar, como aquilo que é editado para manter uma narrativa confortável.
A revelação sobre o bisavô músico não funciona só como twist. Funciona como estudo sobre apagamento, sobre o que famílias enterram para sobreviver — e como isso corrói gerações. A cena final, com Miguel cantando “Remember Me” para a bisavó com demência, é manipulativa? Sim. Mas é manipulação honesta: construída com preparação emocional, não com atalho.
Por que essa “década de ouro” importa (e para quem ela é)
O que une esses filmes Pixar década não é tecnologia — embora a animação esteja mais sofisticada do que nunca, com luz, textura e movimento cada vez mais “táteis”. O que une é coragem temática. A Pixar dos anos 2000 ensinava amizade, perda e superação. A Pixar dos anos 2020 insiste numa lição mais difícil: conviver com ambiguidade.
Woody não volta para o grupo. Riley não “vence” a ansiedade; aprende a existir com ela. Joe descobre que propósito não é destino, é prática. Ian não recupera o pai; reconhece o amor que já estava ali. Mei não “cura” a mãe nem “expulsa” a família; renegocia um pacto.
Se você cresceu com ‘Toy Story’ (1995), hoje está na faixa dos 25 aos 40. Esses filmes foram feitos para você — não no sentido de excluir crianças, mas no sentido de entender que você agora carrega outras perguntas: trabalho que não preenche, relações familiares complicadas, ansiedade, e a descoberta cruel de que cumprir uma meta não garante paz.
Reassisti ‘Soul’ recentemente, anos depois da primeira vez. O momento que me pegou não foi o grande solo, mas a simplicidade: 22 encontrando um motivo para viver numa experiência mínima, quase boba, como sentir algo pequeno e real no cotidiano. Talvez esse seja o ponto: a Pixar não perdeu o coração. Ela só parou de fingir que o coração resolve tudo.
Se você discorda — se acha essa fase inferior aos clássicos — eu realmente quero ouvir seu argumento. Só peço um teste honesto: reveja ‘Dois Irmãos’ ou ‘Red’ com olhos de adulto, não como “filme infantil que eu tolero”. Como cinema que assume que você já sabe o que é sentir falta do que não pode ser recuperado.
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Perguntas Frequentes sobre filmes da Pixar na última década
Quais são os filmes da Pixar citados neste artigo?
O artigo analisa ‘Viva: A Vida é uma Festa’ (2017), ‘Os Incríveis 2’ (2018), ‘Toy Story 4’ (2019), ‘Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica’ (2020), ‘Soul’ (2020), ‘Luca’ (2021), ‘Red: Crescer é Uma Fera’ (2022) e ‘Divertida Mente 2’ (2024).
Por que muita gente diz que a Pixar “piorou” depois de 2010?
Porque a comparação costuma ser feita pela régua da nostalgia (a era 1995-2010) e pela percepção de “excesso de sequências”. Além disso, alguns lançamentos importantes de 2020-2022 chegaram ao streaming durante a pandemia, com menos impacto cultural do que teriam no cinema.
‘Luca’ é um filme LGBTQIA+?
O filme não se declara explicitamente como romance e pode ser visto como amizade, mas muita gente lê ‘Luca’ como uma história de identidade escondida (codificação queer) por causa do mecanismo dramático: medo de ser descoberto, “passar” como humano e rejeição social. É uma interpretação plausível e amplamente discutida.
Preciso ver ‘Divertida Mente’ (2015) antes de ‘Divertida Mente 2’?
Sim, é altamente recomendado. A continuação parte diretamente das regras emocionais e das relações estabelecidas no primeiro filme, então a experiência fica mais rica (e mais clara) quando você já conhece a dinâmica das emoções de Riley.
Quais filmes da Pixar da última década são mais “para adultos”?
Se a busca é por temas mais existenciais e emocionais, ‘Soul’ e ‘Toy Story 4’ tendem a conversar mais diretamente com adultos. Para dinâmicas familiares e puberdade, ‘Red’ costuma ser o mais incisivo. Para luto e ausência parental, ‘Dois Irmãos’ é o mais pessoal.

