‘The Hunt for Gollum’: como Thranduil redime a trilogia ‘O Hobbit’

A volta de Lee Pace como Thranduil em ‘The Hunt for Gollum’ não é apenas nostalgia. Analisamos como o peso canônico e a geografia da Terra-média justificam a presença do Rei Élfico e, finalmente, redimem a trilogia ‘O Hobbit’ de seus excessos.

Confesso: a notícia de que a Terra-média voltaria aos cinemas me causou mais cansaço do que empolgação. Depois de ‘O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder’ e do animê ‘O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim’, a franquia parecia sugada até a última gota, operando mais no automático da nostalgia do que no fôlego narrativo. Mas a anunciação de ‘The Hunt for Gollum’ trouxe um detalhe que muda o jogo: a volta de Lee Pace como Thranduil. E não, não é um mero serviço para fãs. É a peça canônica que faltava para, finalmente, reavaliarmos a trilogia ‘O Hobbit’ sem a sombra injusta de sua predecessora.

A reação imediata ao anúncio do filme foi focada nos retornos óbvios. Andy Serkis na cadeira de diretor e sob a tecnologia de captura, Ian McKellen como Gandalf e Elijah Wood como Frodo. O problema é que a presença desses atores é uma armadilha nostálgica. A ausência de Viggo Mortensen já obriga um recasting de Aragorn (com Jamie Dornan herdando o peso do papel), e qualquer cena dividida com McKellen vai apenas gritar a falta de Mortensen. É aí que a presença de Thranduil deixa de ser um bônus e passa a ser a fundação. Ele traz gravidade sem o peso da comparação direta com a trindade original de ‘O Senhor dos Anéis’.

O peso canônico de ‘The Hunt for Gollum’ e a geografia do perigo

Para entender por que Thranduil é essencial, precisamos olhar para o mapa. O novo filme não é uma invenção de roteirista desesperado por material; ele se apoia no intervalo de tempo explicado nos apêndices de Tolkien e brevemente mostrado em ‘O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel’. Após o aniversário de 111 anos de Bilbo, Gandalf sai da Condado e leva anos — e não semanas — investigando o Anel. Ele recruta Aragorn (então conhecido como Passolargo) para caçar a criatura Gollum.

A rota dessa caçada não é um caminho seguro. Eles seguem o rastro de Gollum de Mordor até os Pântanos dos Mortos, passam pelas Montanhas Nebulosas e, finalmente, o rastro adentra Floresta das Trevas (Mirkwood). E quem é o senhor absoluto daquela floresta assombrada? Thranduil. A geografia de Rhovanion coloca o Reino Élfico como a barreira física entre o mal que se infiltra do sul e o resto do continente. A presença de Thranduil em ‘The Hunt for Gollum’ não é conveniência de roteiro; é consequência lógica de um mapa que Tolkien desenhou com precisão militar.

O Rei Élfico que ‘O Hobbit’ escondeu debaixo do ouro

A trilogia ‘O Hobbit’ carrega o estigma justo de ter esticado um livro infantil em três épics de quase três horas. Houve excessos evidentes. Mas, no meio do exagero de barris de ouro e Legolas surfando em cachoeiras, Peter Jackson e sua equipe acertaram a mão na caracterização dos Elfos de um modo que a trilogia original não ousou. Lembre-se: em ‘O Senhor dos Anéis’, os Elfos são quase deuses distantes, serenos e intocáveis. Galadriel é pura luz; Elrond é sabedoria encarnada.

Thranduil quebra esse molde. Lee Pace o interpreta com uma arrogância perigosa, um desdém mortal que beira a vilania. Há uma cena específica em ‘O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos’ que mudou para sempre a forma como eu via o personagem: o momento em que ele revela o lado queimado pelo fogo do dragão, uma ferida ocultada por magia. Pace entrega ali uma dor profunda e um orgulho ferido em um único olhar. Ele não é um ser pereres e iluminado; é um pai enlutado que transformou seu luto em uma política de isolamento brutal e ganância por tesouros. Essa aresta mais escura e humana (ou élfica, se preferir) é o contraste perfeito para a gentileza de Elrond e a graça de Galadriel.

O jogo político que redime ‘O Hobbit’

Com o distanciamento temporal, e após os tropeços recentes da franquia, ‘O Hobbit’ envelheceu melhor do que imaginávamos. A trilogia se tornou um conforto. E o retorno de Thranduil é o argumento final para essa reavaliação. A dinâmica tensa que o Rei Élfico tem com Bard, o Arqueiro (Luke Evans), em ‘A Batalha dos Cinco Exércitos’ é o melhor jogo político daquela trilogia. Enquanto os anões se digladiavam com a ganância e os orcs eram a ameaça óbvia, a frieza calculista de Thranduil negociando alianças era o que mantinha o filme ancorado em algo que parecia real.

Essa mesma frieza será a tônica quando ele cruzar o caminho de um jovem Aragorn. Um homem, herdeiro de reis caídos, invadindo o território de um rei que não confia em ninguém além de sua própria guarda? A desconfiança mútua é inevitável. O fato de Serkis e Jackson não ignorarem a trilogia ‘O Hobbit’ — como muitos fãs gostariam — demonstra maturidade criativa. Eles entendem que o Thranduil de Pace adiciona um peso dramático que Aragorn, Gandalf e Gollum sozinhos não conseguiriam sustentar.

Além da nostalgia: o luto que Tolkien escreveu

A maior esperança que tenho para o tratamento do personagem no novo longa é que eles vão além da fachada imponente. Nos textos de Tolkien, fica claro que, durante a Guerra do Anel, Thranduil lutou ferrenhamente para proteger seu povo das forças de Sauron em Dol Guldur. Ele não era apenas o rei ganancioso que recusou ajuda aos anões; era um governante sábio, que amava com ferocidade e chorava com a mesma intensidade — a morte de sua esposa e o luto de Legolas são o centro invisível de suas ações.

Se o roteiro de ‘The Hunt for Gollum’ tiver a inteligência de mostrar o governante protetor, e não apenas o aristocrata esnobe, Lee Pace terá a chance de entregar a performance definitiva de sua carreira na Terra-média. O ator merece essa oportunidade após ter roubado a cena em um filme lotado de excessos. Thranduil ainda tem muito a dar para a mitologia.

No fim das contas, a volta do Rei Élfico faz mais do que justificar a existência de um novo filme: ela reescreve o legado de ‘O Hobbit’. A trilogia deixou de ser apenas um prólogo esticado para se tornar a fundação emocional e política do mundo que Aragorn e Gandalf habitam décadas depois. Fica a pergunta: Serkis terá a coragem de deixar Thranduil ser o político sombrio e enlutado que a história exige, ou vai desperdiçá-lo em poses de nostalgia? A resposta definirá se a Terra-média ainda tem algo relevante a dizer no cinema.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Hunt for Gollum’

Preciso ver a trilogia ‘O Hobbit’ antes de ‘The Hunt for Gollum’?

Não é estritamente necessário, mas altamente recomendável. O novo filme deve expandir a política e as tensões apresentadas em ‘O Hobbit’, especialmente a dinâmica dos Elfos da Floresta das Trevas. Conhecer o arco de Thranduil enriquecerá a experiência.

Por que Thranduil está em ‘The Hunt for Gollum’?

Pela geografia canônica de Tolkien. A caçada a Gollum leva Aragorn e Gandalf até a Floresta das Trevas (Mirkwood), território governado por Thranduil. A presença do Rei Élfico é uma consequência lógica do mapa da Terra-média, não um forçação de roteiro.

Viggo Mortensen volta como Aragorn em ‘The Hunt for Gollum’?

Não. O filme se passa décadas antes dos eventos de ‘O Senhor dos Anéis’, mostrando um Aragorn jovem. O ator Jamie Dornan foi escalado para o papel, substituindo Viggo Mortensen.

Quando ‘The Hunt for Gollum’ estreia nos cinemas?

O filme está atualmente com previsão de estreia para dezembro de 2027. As filmagens devem começar em 2026 sob a direção de Andy Serkis.

Quem interpreta Thranduil nos filmes da Terra-média?

O ator americano Lee Pace interpreta o Rei Élfico Thranduil. Ele fez o papel na trilogia ‘O Hobbit’ (2012-2014) e está confirmado para reprisar o personagem em ‘The Hunt for Gollum’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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