Com o cancelamento injusto de ‘Raised by Wolves’, Ridley Scott encontra em ‘The Dog Stars’ um novo lar para suas obsessões temáticas. Analisamos como o cineasta de 88 anos usa o romance de Peter Heller para preencher o vazio deixado pela série e reafirmar sua visão sobre mortalidade e sobrevivência.
Em 2022, a fusão entre WarnerMedia e Discovery ceifou uma das vozes mais viscerais da ficção científica recente. O cancelamento de ‘Raised by Wolves’ deixou um vazio profundo: o de uma série que ousava misturar criação de androides, fanatismo religioso e body horror sem pedir permissão ao espectador. Agora, The Dog Stars Ridley Scott surge no horizonte não apenas como mais um lançamento de um cineasta veterano, mas como um consolo temático e narrativo para essa ferida mal cicatrizada.
A ferida ainda aberta de ‘Raised by Wolves’
Para quem acompanhou a trajetória de Mother e Father no Kepler-22b, o fim da série foi um golpe silencioso. A notícia não veio em um comunicado pomposo; veio pelo Twitter do ator Abubakar Salim (o Father), revelando a frieza corporativa por trás da decisão sob a justificativa de ‘recortes de orçamento’ pós-fusão. O absurdo é que a série estava no auge criativo. A primeira temporada cravou 76% no Rotten Tomatoes; a segunda subiu para 86%, mergulhando numa bizarra mitologia que pouquíssimos criadores teriam a coragem de colocar no mainstream televisivo.
Aquela cena em que Mother paira no céu com seus olhos brilhantes antes de desfechar um ataque devastador não era apenas efeito visual. Era a personificação de um terror bíblico filtrado pela lente de um diretor que entende que ciência e fé são as duas faces da mesma moeda amaldiçoada. Perder isso foi um roubo.
Do Kepler-22b para a Terra devastada: o consolo temático
Anunciado para 28 de agosto de 2026, ‘The Dog Stars’ adapta o romance homônimo de Peter Heller e se passa após uma pandemia que dizimou a população — um cenário que, convenhamos, Ridley Scott sabe filmar como ninguém. A história acompanha um piloto e seu cão, sobrevivendo em um aeródromo isolado ao lado de um vizinho armado até os dentes, enquanto buscam uma vida além da miséria cotidiana.
Se ‘Raised by Wolves’ tratava da reconstruição da humanidade por mãos artificiais em um planeta alienígena, o novo filme mira na resiliência humana em um mundo que já conheceu o fim. Não teremos uma terceira temporada da série da HBO Max, mas teremos a obsessão de Scott pela sobrevivência em um ambiente hostil. A estranheza lisérgica de ‘Raised by Wolves’ era única, mas a promessa de ver o diretor novamente no comando de um orçamento robusto para explorar o desespero pós-apocalíptico já é um alívio.
A máquina cinematográfica de 88 anos e a fixação na mortalidade
O que mais impressiona nessa transição de projeto é a figura do próprio Ridley. Aos 88 anos de idade, sua taxa de produtividade seria invejável para um cineasta de 30. Desde 2010, ele lançou nada menos que 12 longas-metragens. E, diferentemente do que os detratores gostam de espalhar, a qualidade não despencou.
É fácil resumir a carreira recente dele aos tropeços de ‘Êxodo: Deuses e Reis’ ou à bagunça de ‘Alien: Covenant’. Mas isso é leitura preguiçosa. ‘Perdido em Marte’ é um dos melhores filmes de sobrevivência do século, impulsionado por uma direção de fotografia que transforma o vermelho marciano em um personagem opressor. ‘O Último Duelo’ é ignorado pelo grande público, mas tem argumento para figurar no top 5 da filmografia inteira do cara, com uma estrutura narrativa que expõe a falibilidade da ‘verdade’ histórica. Até mesmo ‘Napoleão’, apesar da recepção morna, carrega uma estranheza visual e uma beleza perturbadora que justificam o preço do ingresso.
Aos 88, Scott insiste em temas que refletem sua própria fase de vida: a mortalidade, o legado e a falha dos criadores. É o fio condutor que liga Weyland em ‘Prometheus’ aos androides de ‘Raised by Wolves’ e aos sobreviventes de ‘The Dog Stars’.
A obsessão pós-apocalíptica em The Dog Stars Ridley Scott
O elenco reunido para o filme indica que o estúdio sabe o que tem nas mãos. Com Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Allison Janney, Guy Pearce e Benedict Wong, Scott tem o tipo de elenco que permite diálogos pesados e presença magnética na tela. E preste atenção no detalhe: Guy Pearce de volta ao universo sci-fi de Ridley. O retorno tem um peso específico — ele interpretou Peter Weyland, o magnata obcecado por imortalidade e criação em ‘Prometheus’. Trazê-lo para um mundo onde a sobrevivência é a única lei ressignifica sua presença.
Scott é daquela raça de diretores que você acompanha por sua conta e risco. A falta da 3ª temporada de ‘Raised by Wolves’ vai doer por um bom tempo, especialmente por causa daquele final que abria portas para um caos ainda mais profundo. Mas a chegada de ‘The Dog Stars’ prova que o cinema de grande orçamento ainda pode ser um refúgio para ideias sombrias e reflexões sobre o fim dos tempos. Se o filme alcançar a densidade temática da série cancelada, teremos em mãos não apenas um ótimo sci-fi, mas a prova de que a visão de um mestre sobrevive até mesmo às canetadas dos executivos de TV.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘The Dog Stars’
‘The Dog Stars’ é baseado em um livro?
Sim. O filme adapta o romance de mesmo nome do escritor americano Peter Heller, publicado em 2012. O livro é conhecido por seu tom melancólico e foco na relação entre um piloto solitário e seu cão em um mundo pós-apocalíptico.
Quando estreia ‘The Dog Stars’ de Ridley Scott?
O filme está com estreia marcada para 28 de agosto de 2026 nos cinemas, sendo uma produção da 20th Century Studios.
Por que ‘The Dog Stars’ é comparado a ‘Raised by Wolves’?
Porque ambos são projetos de ficção científica dirigidos por Ridley Scott que tratam da sobrevivência, criação e fanatismo em ambientes hostis. Com o cancelamento da série da HBO Max, o novo filme surge como um consolo temático para os fãs da obra anterior do diretor.
Quem está no elenco de ‘The Dog Stars’?
O filme conta com um elenco peso-pesado: Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Allison Janney, Guy Pearce e Benedict Wong estão confirmados na produção.

