‘SAS Rogue Heroes’: como o humor ácido reinventa o gênero de guerra

Em ‘SAS Rogue Heroes’, Steven Knight usa humor negro e rebeldia para subverter a solenidade da Segunda Guerra. Analisamos como a série rejeita o tom de ‘Irmãos de Guerra’, usa trilha anacrônica e por que o caos é sua arma mais eficiente.

Quando pensamos em narrativas da Segunda Guerra Mundial, a regra é o silêncio reverente. A imagem clássica é a de ‘Irmãos de Guerra’: neve, olhares pesados e a solenidade de quem carrega o peso do mundo nos ombros. É uma gramática tão consolidada que virou quase um dogma. É exatamente aí que SAS Rogue Heroes entra derrubando as convenções — ou melhor, invadindo o deserto de caminhão com uma lata de cerveja na mão e um sorriso cínico no rosto.

A assinatura de Steven Knight: de Tommy Shelby ao deserto

A série da BBC e MGM+ (baseada no livro de Ben Macintyre) tem uma vantagem decisiva que explica sua rara nota 100% no Rotten Tomatoes: Steven Knight. O criador de ‘Peaky Blinders’ trouxe para o front a mesma abordagem que fez Tommy Shelby icônico — a valorização do anti-herói rebelde, da violência estilizada e, acima de tudo, do humor ácido como ferramenta de sobrevivência. Mas o paralelo vai além da atitude. Knight repete aqui o uso de trilha sonora anacrônica, misturando rock e batidas modernas aos anos 1940, criando um choque estilístico que escancara: estes não são os soldados de cartilha tradicional.

A premissa acompanha a origem do SAS (Special Air Service), a força de elite britânica. Liderados por David Stirling (Connor Swindells) e o explosivo Paddy Mayne (Jack O’Connell), o esquadrão é formado por marginais fardados. Eles veem ordens como meras sugestões e protocolos militares como obstáculos a serem contornados com imprevisibilidade. Swindells constrói um Stirling que começa como um playboy irresponsável e evolui para um líder caótico, mas brilhante, sem nunca perder o traço de arrogância que o define. A série entende que amadurecer na guerra não significa domesticar a personalidade — significa afiar o instinto.

De Theon Greyjoy a Jock Lewes: a âncora no meio do caos

No meio dessa anarquia organizada, há a âncora emocional da série: Jock Lewes, vivido por Alfie Allen. Se em ‘Game of Thrones’ Allen sofria as consequências de ser Theon Greyjoy — um personagem construído sobre a insegurança e a impulsividade —, aqui ele faz o exato oposto. Lewes é a disciplina personificada. É o homem calmo que ganha o respeito absoluto de seus comandados pela integridade, não pelo volume da voz. O contraste entre a solidez estoica de Lewes e a impreversibilidade de Mayne e Stirling é o motor dramático que impede a série de virar apenas uma comédia de ação sem consequências.

O humor ácido como válvula de escape (e de sobrevivência)

O humor ácido como válvula de escape (e de sobrevivência)

A grande sacada da série, e o motivo de ela funcionar tão bem em um terreno tão pisoteado, é entender que o humor não diminui o horror da guerra; ele o torna suportável. Um exemplo perfeito: quando Stirling é impedido de entrar na base do QG no Cairo, ele simplesmente escala o muro do prédio à noite, arromba a janela do escritório do general e exige uma audiência. A cena é hilária, insubordinada e absurdamente real. O riso surge não como um escárnio à história, mas como um bálsamo para a alma. É a risada nervosa de quem está prestes a atacar um aeródromo nazista no meio da noite com equipamento improvisado e chances mínimas de sobrevivência. Sem esse humor, a série seria insuportável; com ele, é visceral.

Deserto, trilha anacrônica e a precisão britânica

Visualmente, Knight troca o cinza lúgubre das trincheiras europeias pelo deserto norte-africano escaldante. A fotografia de David Raedeker usa o sol que derrete os personagens como um elemento hostil e estético, dourando a tela e criando um contraste violento entre a beleza ampla da paisagem e a brutalidade contida nos acampamentos. Há um rigor cinematográfico aqui que justifica a projeção de uma terceira temporada (cuja produção começou em setembro de 2025, segundo a BBC).

Esse rigor se estende à estrutura. Com apenas seis episódios por temporada, a série adota a economia narrativa britânica em seu melhor formato. Não há arcos inflados para justificar orçamentos de estúdio. Cada cena serve para avançar a estratégia militar ou aprofundar a psicologia desses homens improváveis. A série assume sua identidade no primeiro minuto e mantém a lâmina afiada até o último.

No fim das contas, SAS Rogue Heroes é uma correção de rota no gênero de guerra. Prova que é possível contar uma história de heroísmo real sem cair na hagiografia chorosa. Se você aguenta o ritmo acelerado e o humor que cutuca feridas, essa série disponível no MGM+ vai te prender na tela. Se prefere seus soldados em silêncio contemplativo e neve, fique com ‘Irmãos de Guerra’. O deserto exige quem saiba rir enquanto a areia sopra.

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Perguntas Frequentes sobre ‘SAS Rogue Heroes’

Onde assistir ‘SAS Rogue Heroes’?

‘SAS Rogue Heroes’ está disponível no MGM+ (Amazon Prime Video Canais) e também na BBC iPlayer no Reino Unido. A primeira e segunda temporadas já podem ser assistidas na íntegra.

‘SAS Rogue Heroes’ é baseado em fatos reais?

Sim. A série é baseada no livro homônimo do historiador Ben Macintyre, que relata a origem real do SAS (Special Air Service) na Segunda Guerra Mundial, embora algumas liberdades dramáticas tenham sido tomadas para a TV.

Precisa ter visto ‘Peaky Blinders’ para gostar da série?

Não, mas fãs de ‘Peaky Blinders’ vão reconhecer imediatamente a assinatura de Steven Knight: anti-heróis carismáticos, violência estilizada e o uso de trilha sonora anacrônica que mistura rock moderno com período de época.

Quantas temporadas ‘SAS Rogue Heroes’ tem?

Atualmente, a série possui duas temporadas disponíveis, cada uma com seis episódios. A BBC já confirmou a produção da terceira temporada, que começou a ser filmada em setembro de 2025.

Por que a série usa música moderna em uma história de guerra?

A trilha anacrônica é uma escolha deliberada de Steven Knight para quebrar a reverência típica do gênero. O uso de rock e batidas atuais reforça a ideia de que aqueles soldados eram jovens rebeldes e insubordinados, e não figuras históricas intocáveis.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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