Rivais David Tennant acerta ao misturar escândalo de soap opera com acabamento de televisão de prestígio. Explicamos por que a série conquistou 100% na crítica e como Tennant transforma Lord Tony Baddingham no seu grande trunfo.
Rivais David Tennant parte de uma provocação simples: e se uma série assumidamente novelesca, cheia de adultério, disputa de poder e vaidade de gente rica, fosse feita com o acabamento de um drama de prestígio? É isso que explica por que Rivais saiu de 95% na estreia para 100% de aprovação crítica na segunda temporada. A série não tenta esconder seu gosto por escândalo; ela eleva esse material com direção precisa, elenco afiado e uma compreensão muito clara de como transformar frivolidade em tensão dramática.
Baseada no universo literário de Jilly Cooper, a produção se passa na elite britânica dos anos 80 e entende que seu apelo está justamente no excesso. Há rivalidades pessoais que contaminam decisões corporativas, romances proibidos, humilhações públicas e uma atmosfera de luxo quase caricata. O diferencial é que nada disso é tratado como piada involuntária. Rivais joga alto, mas joga sério.
Por que ‘Rivais’ funciona quando tantas séries sobre ricos soam ocas
O ponto mais interessante de Rivais é seu equilíbrio entre guilty pleasure e televisão de prestígio. Em vez de fingir profundidade filosófica, a série reconhece que o prazer do espectador está na intriga, no choque entre egos e na promessa de que qualquer jantar elegante pode terminar em desastre. O que a crítica premiou não foi a suposta complexidade moral desses personagens, mas a maneira como a série organiza esse caos com disciplina.
O roteiro sabe dosar revelações, humilhações e alianças temporárias sem perder clareza. A montagem ajuda muito nesse efeito: as cenas raramente ficam longas demais, e os cortes mantêm a sensação de que o escândalo está sempre a um passo de explodir. Isso dá à série um ritmo mais afiado do que o de muitas produções que se vendem como sofisticadas, mas confundem lentidão com densidade.
Também há um cuidado visual que impede Rivais de virar apenas uma coleção de excessos de figurino. A direção usa mansões, escritórios e ambientes de confraternização como arenas de disputa. O luxo não é decoração; é linguagem de poder. Cada entrada em cena, cada troca de olhar numa sala cheia, cada conversa aparentemente civilizada traz a sensação de que alguém está tentando vencer o outro sem precisar levantar a voz.
David Tennant encontra o tom exato entre charme e veneno
Boa parte do sucesso passa por David Tennant. Como Lord Tony Baddingham, ele entende perfeitamente o registro da série: grande, ferino, sedutor e moralmente repulsivo. Não é uma atuação naturalista; é uma performance calibrada para um universo em que o exagero faz parte do prazer. Tennant não suaviza Tony para torná-lo mais palatável. Ao contrário, investe no cinismo, na vaidade e no prazer de controlar os outros.
Isso faz diferença porque o personagem poderia virar só um vilão de cartilha. Tennant evita essa armadilha ao usar o próprio carisma como isca. O espectador percebe que Tony é tóxico, mas continua atraído pela segurança com que ele ocupa cada cena. É o tipo de interpretação que entende uma verdade antiga da televisão: personagens detestáveis continuam fascinantes quando o ator sabe transformar crueldade em espetáculo.
Para quem acompanha a carreira de Tennant, há um contraste interessante aqui. O ator já provou alcance em registros muito distintos, do carisma expansivo de Doctor Who ao lado mais emocional de outros trabalhos recentes. Em Rivais, ele trabalha com outra ferramenta: o prazer de ser desagradável. E faz isso sem perder precisão. Não há exagero solto; há controle de tom.
Entre ‘Succession’ e ‘Dinastia’, mas com menos culpa de ser novela
A comparação com Succession é inevitável, porque Rivais também fala de poder, mídia e ricos em guerra. Mas a semelhança termina no ponto de partida. Onde a série de Jesse Armstrong operava no sarcasmo gelado e na devastação emocional, Rivais prefere a pulsação da novela de luxo. Está mais próxima da tradição de Dinastia e dos melodramas britânicos de elite do que de um estudo clínico sobre herdeiros destruídos.
Isso não a torna menor. Na verdade, a honestidade sobre sua natureza é um dos seus maiores méritos. Rivais não tenta convencer o espectador de que está diagnosticando o colapso moral do Ocidente em cada taça de champanhe. Ela sabe que rivalidade, desejo e humilhação pública são motores dramáticos poderosos por si só. E, quando bem executados, podem ser tão envolventes quanto qualquer série mais austera.
O conflito entre Tony Baddingham e Rupert Campbell-Black, interpretado por Alex Hassell, resume bem essa lógica. Em tese, estamos vendo uma disputa por influência, negócios e controle de um império midiático. Na prática, tudo é movido por ressentimento, ego ferido e competição territorial. O que torna a série divertida é justamente essa fusão entre batalha corporativa e vendeta pessoal. Não parece um conselho administrativo; parece um casamento em ruínas travestido de guerra empresarial.
A cena que revela o segredo da série
Uma das melhores provas de que Rivais entende o que está fazendo está na dinâmica entre Rupert e Taggie O’Hara, vivida por Bella Maclean. Há uma cena na despensa, já bastante comentada entre quem acompanha a temporada, que condensa o método da série. O espaço é pequeno, os personagens ficam presos um ao outro, e a tensão nasce menos do texto explícito do que do tempo que a direção dá aos rostos, aos silêncios e à hesitação física entre os dois.
É uma boa cena não porque ‘parece importante’, mas porque revela técnica. A direção evita transformar o momento em histeria visual. Não precisa de música invasiva nem de corte desesperado para vender química. Basta confiar no enquadramento e na performance. É aí que Rivais se distancia de uma novela apenas espalhafatosa: ela sabe quando reduzir o volume para que o desejo e o constrangimento façam o trabalho.
Esse controle também aparece no modo como a série distribui tensão ao longo dos episódios. Em vez de apostar tudo em grandes reviravoltas isoladas, ela trabalha com pequenas fagulhas: um comentário atravessado, uma presença inesperada, um olhar longo demais num ambiente inadequado. O escândalo, quando finalmente explode, parece ganho, não fabricado.
Elenco, direção e acabamento técnico sustentam o prazer culpado
Uma série assim depende de um elenco disposto a tratar o material com convicção total. Se alguém atua com ironia demais ou superioridade demais, o castelo desmonta. Rivais evita esse risco porque seu conjunto entende que melodrama não é sinônimo de desleixo. Hayley Atwell, Rupert Everett, Aidan Turner e Bella Maclean ajudam a manter esse universo de vaidades em pé sem cair na autoparódia.
No plano técnico, a série também sabe exatamente que sensação quer produzir. O figurino e a direção de arte abraçam o glamour dos anos 80 sem transformar tudo em vitrine nostálgica. A fotografia valoriza textura, cor e ostentação, mas não perde legibilidade nas cenas de grupo, o que é essencial numa história em que posição social e dinâmica de espaço dizem tanto quanto os diálogos. Já o desenho de produção reforça a ideia de que estamos observando um ecossistema em que aparência e poder são inseparáveis.
Esse tipo de refinamento explica por que a série agrada além do nicho que consome ‘novela de gente rica’. A crítica costuma resistir a obras que parecem prazerosas demais, mas Rivais oferece craft suficiente para desmontar esse preconceito. Há inteligência formal no modo como o excesso é administrado.
Vale a pena ver ‘Rivais’?
Sim, especialmente se você gosta de séries que entendem o valor dramático da maldade socialmente polida. Rivais vale a pena porque não pede desculpas por ser divertida. Em vez de disfarçar sua vocação novelesca, ela a transforma em método. O 100% na crítica faz sentido justamente por isso: não porque a série seja profunda no sentido mais solene da palavra, mas porque executa com precisão rara aquilo que se propõe a fazer.
Para quem é: fãs de dramas de elite, rivalidades venenosas, romances turbulentos e séries em que o prazer está tanto no texto quanto no veneno entre personagens. Para quem talvez não funcione: quem procura introspecção pesada, realismo seco ou uma sátira mais amarga e cerebral no estilo de Succession.
No fim, Rivais prova algo que muita crítica demorou a aceitar: frivolidade e excelência técnica não são opostos. Quando roteiro, elenco e direção trabalham em sintonia, até fofoca de luxo pode virar televisão de alto nível. E David Tennant, no centro desse circo elegante, entende isso melhor do que ninguém.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Rivais’
Onde assistir ‘Rivais’ com David Tennant?
‘Rivais’ está disponível no Hulu nos Estados Unidos e no Disney+ em mercados selecionados, incluindo regiões onde o hub Star concentra séries adultas. A disponibilidade pode variar por país.
‘Rivais’ é baseada em livro?
Sim. A série adapta o romance Rivals, de Jilly Cooper, publicado em 1988. O livro faz parte das chamadas ‘Rutshire Chronicles’, centradas na elite britânica, seus escândalos e disputas de poder.
Precisa ler o livro para entender ‘Rivais’?
Não. A adaptação funciona sozinha e apresenta bem os personagens, os conflitos afetivos e a guerra corporativa. Ler Jilly Cooper pode enriquecer o contexto, mas não é necessário para acompanhar a série.
‘Rivais’ é parecida com ‘Succession’?
Em parte. As duas tratam de poder, mídia e ricos em disputa, mas ‘Rivais’ é mais romântica, mais melodramática e muito menos austera. Se ‘Succession’ é veneno gelado, ‘Rivais’ é champanhe com faca na manga.
David Tennant é o vilão de ‘Rivais’?
Na prática, sim. Lord Tony Baddingham é um dos grandes antagonistas da trama: manipulador, vaidoso e cruel. Mas a série o escreve com carisma suficiente para que ele também seja um dos personagens mais divertidos de assistir.

