Por que ‘Normal’, do criador de ‘John Wick’, é um filme de ‘anti-ação’

Em ‘Normal’, o criador de ‘John Wick’ e Bob Odenkirk entregam um thriller de ‘anti-ação’ onde o ambiente é o verdadeiro assassino. Analisamos como a troca da violência intencional por mortes acidentais subverte o gênero e cria um paradoxo brilhante.

Imagine contratar o arquiteto da franquia de ação mais precisa e coreografada da década para escrever um roteiro onde os personagens morrem por puro acidente. Esse é o paradoxo de Normal Bob Odenkirk. Quando o projeto foi anunciado, a expectativa óbvia era que teríamos mais uma variação de ‘Nobody’ ou ‘John Wick – De Volta ao Jogo’. Afinal, o roteirista Derek Kolstad e o ator Bob Odenkirk juntos novamente? O público já estava pedindo tiroteio estilizado. Não é o caso. O filme é classificado pelo próprio diretor Ben Wheatley como um thriller de ‘anti-ação’, e entender o porquê dessa etiqueta é a chave para perceber o quanto essa obra subverte as expectativas do gênero.

A anatomia da ‘anti-ação’ e o ambiente como verdadeiro assassino

A anatomia da 'anti-ação' e o ambiente como verdadeiro assassino

Na gramática clássica de ‘John Wick’, o protagonista é o catalisador absoluto. Ele é a força motriz da violência; atira, esfaqueia e executa com uma geometria letal e intencional. A morte é uma consequência direta da vontade do herói. Em ‘Normal’, Kolstad desmonta essa lógica. Como Wheatley explicou, a violência aqui não parte da intenção dos personagens, mas de um ambiente hostil que parece querer exterminar quem passa por ele.

É aí que entra a comparação com ‘Premonição’. A morte não chega através de um duelo honroso ou de uma coreografia de artes marciais, mas através do acaso brutal. Um escorregão, um objeto fora do lugar, uma reação em cadeia absurda. Isso cria uma tensão completamente diferente daquela do cinema de ação tradicional. Você não teme apenas o vilão armado — você teme a própria cidade de Normal, Minnesota. O ambiente é a arma, e os personagens estão apenas tropeçando no gatilho.

O choque de estilos: quando a precisão de Kolstad encontra o caos de Wheatley

Se você conhece a filmografia de Ben Wheatley, a escolha dele para dirigir faz todo o sentido e, ao mesmo tempo, parece um risco delicioso. De ‘No Meio do Mato’ a ‘Free Fire’, Wheatley é um mestre do desconforto e do caos sangrento. Ele adora uma violência bagunçada, suada, onde as coisas dão errado. Colocar o diretor de tiroteios caóticos para comandar o roteiro do inventor do ‘gun-fu’ estiloso era uma aposta que podia explodir na cara. Mas funciona perfeitamente.

Kolstad fornece a espinha dorsal: a estrutura do thriller, a conexão com a Yakuza, o xerife provisório operando à margem da lei. Mas Wheatley veste isso com seu habitual humor sombrio e imprevisibilidade. O resultado é um filme que se sente como um policial que engoliu um filme de terror acidental. A câmera de Wheatley insiste em planos demorados de objetos comuns — uma escada, um prego, um fio descascado — antes de o ambiente atacar, criando um tipo de suspense que nenhuma quantidade de bang-bang coreografado conseguiria replicar.

O xerife de ‘Normal’: Bob Odenkirk e o peso de não ser o carrasco

O xerife de 'Normal': Bob Odenkirk e o peso de não ser o carrasco

Bob Odenkirk aperfeiçoou a arte de interpretar o homem comum empurrado ao limite. No entanto, em ‘Normal’, seu xerife Ulysses não está empurrando de volta com tiros calculados. Ele está sobrevivendo. O conceito de ‘anti-ação’ força Odenkirk a jogar na reação, não na ação. Ele não é o Baba Yaga despachando exércitos; é um homem tentando não ser engolido por uma cidade que parece estar ativamente tentando matar todo mundo ao redor dele.

É um uso brilhante da persona do ator. Cercado por um elenco afiado que inclui Lena Headey e Henry Winkler, Odenkirk é nossa âncora na loucura. Ele olha para o caos ao redor com a mesma perplexidade macabra da plateia. Quando o próximo acidente fatal acontece, a reação dele não é a de um herói de ação impávido, mas de alguém pensando: ‘Como diabos isso aconteceu de novo?’.

O veredito: vale a pena o ingresso?

‘Normal’ não está aqui para dar o hit de dopamina de uma execução perfeita e estilizada no terceiro ato. Ele está aqui para lembrar que o cinema de ação pode ser imprevisível. Ao transformar o cenário no principal vilão e trocar a intenção pelo acidente na lógica das mortes, Kolstad e Wheatley entregam uma exceção refrescante no cenário atual dos blockbusters. Com 75% de aprovação tanto da crítica quanto do público no Rotten Tomatoes, o filme provou que há espaço para quem subverte o gênero.

Se você precisa da sua ação limpa, coreografada e intencional, onde o herói domina o espaço, passe longe. Você vai passar raiva. Agora, se a ideia de um thriller que mistura a atmosfera paranoica de ‘Fargo’ com a mortalidade acidental de ‘Premonição’ soa como o seu tipo de diversão, compre o ingresso. Só preste atenção onde pisa na saída do cinema.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Normal’

Onde assistir o filme ‘Normal’ com Bob Odenkirk?

‘Normal’ tem lançamento nos cinemas. Após a janela de exibição cinematográfica, o filme deve chegar às plataformas de streaming e VOD (vídeo sob demanda), mas o serviço oficial ainda não foi confirmado.

‘Normal’ é um filme de ação como ‘Nobody’ e ‘John Wick’?

Não. Apesar de ser roteirizado por Derek Kolstad (criador de ‘John Wick’), ‘Normal’ é classificado como um thriller de ‘anti-ação’. As mortes não vêm de lutas coreografadas, mas de acidentes bizarros causados pelo ambiente hostil da cidade.

Quem é o diretor de ‘Normal’?

O diretor é Ben Wheatley, conhecido por seu estilo caótico e humor sombrio em filmes como ‘Free Fire’, ‘No Meio do Mato’ e ‘A Mulher no Preto’. Sua visão contrasta propositalmente com o estilo usual de Derek Kolstad.

‘Normal’ é um filme de terror?

Não exatamente. Ele é um thriller policial com fortes elementos de terror e suspense paranoico. A forma como o ambiente mata os personagens lembra filmes de terror acidental como ‘Premonição’, mas a estrutura base é de um filme de crime investigativo.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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