Nossa análise de ‘In the Hand of Dante’ explica como o filme desperdiça Oscar Isaac, Al Pacino e uma premissa literária forte por causa de um roteiro confuso e duas linhas do tempo sem conexão dramática.
Há um tipo muito específico de frustração cinematográfica: aquele que nasce quando um filme reúne elenco de prestígio, premissa literária ambiciosa e um diretor de assinatura visual forte — mas entrega um roteiro que parece não ter decidido qual história quer contar. ‘In the Hand of Dante’, que chegou à Netflix hoje, vive exatamente nesse desencontro. Depois de 153 minutos, a sensação é menos de ter atravessado um épico intelectual e mais de ter visto um projeto caro ser engolido pela própria confusão.
A premissa, no papel, é sedutora. Baseado no romance de Nick Tosches, o filme acompanha uma versão ficcionalizada do autor em 2002, interpretada por Oscar Isaac, arrastada para uma trama envolvendo máfia e a busca pelo manuscrito original da ‘Divina Comédia’. Em paralelo, Isaac também vive Dante Alighieri no século XIV, durante o processo de criação da obra. É material para um thriller literário com alma noir, uma investigação sobre autoria, obsessão e legado. O problema é que Julian Schnabel e Louise Kugelberg nunca transformam essa ideia em dramaturgia clara.
As duas linhas do tempo nunca viram uma só ideia
A estrutura paralela exige mais do que alternar passado e presente. Ela precisa de rimas visuais, ecos emocionais, uma progressão que faça cada retorno ao século XIV iluminar o que acontece em 2002 — ou vice-versa. Em ‘In the Hand of Dante’, essa costura raramente aparece. Por volta da primeira hora, quando o filme volta novamente para Dante, a pergunta inevitável é: por que agora? O corte não aprofunda a trama da máfia, não revela uma nova camada do protagonista moderno e tampouco reposiciona a figura histórica de Dante.
Essa falta de função dramática contamina o ritmo. Há perseguições, ameaças, discussões sobre literatura e cenas de submundo criminal, mas os eventos parecem empilhados, não encadeados. A busca pelo manuscrito deveria funcionar como motor narrativo; em vez disso, vira pretexto para deslocar personagens de uma situação opaca para outra. O filme confunde densidade com acúmulo e acaba preso num labirinto que não parece ter centro.
Oscar Isaac interpreta dois papéis, mas nenhum ganha espinha dorsal
A escalação de Oscar Isaac como Nick Tosches e Dante Alighieri sugere uma ideia interessante: aproximar escritor e mito, homem moderno e figura fundadora da literatura ocidental. Mas o roteiro não sustenta essa duplicidade. Isaac tenta diferenciar os registros — mais fatigado e cínico como Nick, mais solene como Dante —, só que falta ao texto uma ponte emocional entre os dois. O espelhamento existe na proposta, não na experiência.
A cena em que Nick é puxado para a investigação do manuscrito deveria estabelecer risco, desejo e obsessão. O que ela estabelece, sobretudo, é nebulosidade. Não há clareza suficiente sobre o que move o personagem além da curiosidade e da pressão externa. Já Dante, no passado, surge menos como um homem em combustão criativa e mais como um símbolo ambulante de importância histórica. O filme quer que sintamos o peso da ‘Divina Comédia’, mas raramente dramatiza o processo interno de quem a escreve.
Um elenco estelar reduzido a ornamento de luxo
O desperdício mais evidente está no elenco. Além de Oscar Isaac e Al Pacino, ‘In the Hand of Dante’ reúne Gal Gadot, Gerard Butler, John Malkovich, Martin Scorsese, Jason Momoa e Franco Nero. Em tese, é uma constelação capaz de transformar cenas laterais em pequenas faíscas de personalidade. Na prática, muitos desses nomes entram e saem como participações de prestígio, não como peças indispensáveis.
Pacino, em especial, parece convocado para emprestar gravidade imediata ao filme. Ele tem presença suficiente para fazer qualquer fala soar carregada de passado, mas nem isso resolve a pobreza de função dramática. Malkovich, Butler e Momoa sofrem do mesmo problema em registros diferentes: o carisma está ali, a utilidade narrativa nem sempre. Atuação não salva personagem que o roteiro não construiu. O resultado é um desfile de rostos reconhecíveis tentando preencher lacunas que pertencem à escrita.
A montagem transforma ambição em ruído
O problema de ‘In the Hand of Dante’ não é apenas o roteiro no sentido literário; é também a forma como a montagem organiza — ou desorganiza — as informações. As transições entre os períodos raramente criam choque produtivo. Em vez de uma associação visual entre culpa, criação e violência, há cortes que soam funcionais demais, quase como troca de capítulo sem respiração interna.
Isso pesa ainda mais porque Julian Schnabel é um cineasta que, em seus melhores momentos, sabe pensar imagem como estado mental. Em ‘No Portal da Eternidade’, a câmera instável, a luz e a textura visual não apenas ilustravam Van Gogh; colocavam o espectador dentro de uma percepção fragmentada do mundo. Aqui, esperava-se que Dante recebesse tratamento semelhante: um cinema febril, pictórico, capaz de tornar a criação artística algo físico. O que aparece é mais irregular. Há composições visualmente carregadas, mas elas não se acumulam em linguagem. São imagens de impacto isolado, sem sistema.
A comparação com ‘No Portal da Eternidade’ torna a queda mais evidente
O contraste com ‘No Portal da Eternidade’ é inevitável. Naquele filme, Schnabel usava sua sensibilidade de pintor para construir uma experiência contemplativa e angustiante, ancorada no corpo e no olhar de Willem Dafoe. Havia uma unidade entre tema e forma: o filme parecia ver o mundo como Van Gogh via. Em ‘In the Hand of Dante’, a ambição é parecida — entrar na mente de escritores atravessados pela arte e pela morte —, mas a execução não encontra uma gramática equivalente.
O noir contemporâneo, o drama histórico e a meditação literária coexistem sem se contaminar de maneira produtiva. O filme quer ser investigação criminal, elegia artística e épico metafísico. Poderia ser tudo isso. Mas, para isso, precisaria de uma arquitetura muito mais precisa. Sem ela, cada camada enfraquece a outra.
Vale a pena assistir aos 153 minutos?
Vou ser direto: para a maioria das pessoas, não. Se você busca um thriller de máfia tenso, ‘In the Hand of Dante’ é disperso demais. Se procura um drama histórico sobre Dante, ele é superficial demais. Se espera um estudo sobre criação literária, ele fala muito sobre importância, mas mostra pouco sobre processo.
Há um público possível: fãs incondicionais de Oscar Isaac, interessados na filmografia irregular de Julian Schnabel ou espectadores curiosos por ver como uma premissa poderosa pode se perder quando não encontra estrutura. Para todos os outros, os 153 minutos pesam. O mais frustrante é perceber que o filme tinha quase tudo: elenco, diretor, fonte literária e uma ideia central rica. Faltou o essencial — um roteiro capaz de fazer essas peças conversarem. ‘In the Hand of Dante’ não decepciona por falta de ambição; decepciona porque desperdiça a própria ambição.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘In the Hand of Dante’
Onde assistir ‘In the Hand of Dante’?
‘In the Hand of Dante’ está disponível na Netflix. O filme chegou ao catálogo da plataforma em 24 de junho de 2026.
Quanto tempo dura ‘In the Hand of Dante’?
‘In the Hand of Dante’ tem 153 minutos de duração, ou seja, 2 horas e 33 minutos. O ritmo lento é um dos principais problemas apontados na análise.
‘In the Hand of Dante’ é baseado em um livro?
Sim. O filme é baseado no romance ‘In the Hand of Dante’, de Nick Tosches, que mistura ficção literária, crime e uma trama envolvendo o manuscrito original da ‘Divina Comédia’.
Quem está no elenco de ‘In the Hand of Dante’?
O elenco inclui Oscar Isaac, Al Pacino, Gal Gadot, Gerard Butler, John Malkovich, Martin Scorsese, Jason Momoa e Franco Nero. Apesar dos nomes fortes, o roteiro não dá função dramática suficiente para boa parte deles.
‘In the Hand of Dante’ vale a pena?
Vale apenas para fãs muito curiosos de Oscar Isaac, Al Pacino ou Julian Schnabel. Para quem busca um thriller coeso ou um drama histórico profundo, o filme tende a frustrar pelo ritmo arrastado e pela narrativa confusa.

