‘Pillion’: como a A24 trata BDSM gay com maturidade rara no cinema

Analisamos como ‘Pillion’, a nova aposta da A24, subverte os clichês do BDSM no cinema através de uma atuação visceral de Harry Melling. Entenda por que o filme alcançou 100% de aprovação ao trocar o choque pela empatia e pelo naturalismo técnico.

O cinema mainstream sempre teve uma relação covarde com o BDSM. Quase sempre, a prática é reduzida a uma patologia sombria ou a um fetiche higienizado para o consumo de massa, como na franquia ’50 Shades of Grey’. É por isso que ‘Pillion’ A24, longa de estreia de Harry Lighton, soa como um manifesto de lucidez. Ao adaptar o romance ‘Box Hill’, de Adam Mars-Jones, o filme não busca o choque pelo choque; ele busca a anatomia da entrega.

A trama acompanha Colin (Harry Melling), um jovem cuja timidez beira a invisibilidade, e sua entrada no mundo de Ray (Alexander Skarsgård), um motociclista que exala uma autoridade rústica. O que poderia ser um conto de exploração se transforma, sob as lentes da A24, em uma análise terna sobre como o poder, quando negociado com honestidade, pode ser uma forma radical de cuidado.

Harry Melling e a linguagem corporal da submissão

Harry Melling e a linguagem corporal da submissão

Esqueça o Dudley Dursley de ‘Harry Potter’. Harry Melling consolidou uma das carreiras mais corajosas de sua geração, mas em ‘Pillion’ ele atinge um novo patamar. Sua atuação é física, quase silenciosa. Na sequência em que Colin sobe na garupa da moto de Ray pela primeira vez, a câmera de Lighton foca na tensão dos dedos de Melling cravados no couro da jaqueta de Skarsgård. É cinema tátil: sentimos o peso do asfalto e o alívio de alguém que, finalmente, aceita ser conduzido.

Alexander Skarsgård, por sua vez, evita o arquétipo do ‘dominador cruel’. Seu Ray é magnético, mas há uma inteligência emocional quase pedagógica em seus comandos. A química entre os dois não reside apenas no sexo, mas no silêncio compartilhado nas estradas de Surrey. É uma negociação constante de limites que justifica as três indicações ao BAFTA que o filme já acumulou, incluindo Melhor Filme Britânico.

A estética do couro e o naturalismo britânico

O grande triunfo de Harry Lighton é o controle tonal. Onde outros diretores usariam trilhas sonoras dramáticas, Lighton prefere o som mecânico das motos e o vento. A fotografia aproveita a luz natural do interior da Inglaterra para criar um contraste fascinante: a beleza bucólica das paisagens contra a estética brutalista do universo leather. Não há o ‘glamour’ artificial de Hollywood; o filme tem textura, tem suor e tem verdade.

Diferente de ‘Passages’ (2023), que focava no narcisismo tóxico, ‘Pillion’ foca no pertencimento. O BDSM aqui não é um segredo sujo, mas a linguagem que Colin precisava para entender seu próprio corpo. Lighton filma as cenas de intimidade com um respeito que desarma o julgamento moral do espectador, transformando o nicho em algo universal.

O selo A24 e a nova era do drama queer

O selo A24 e a nova era do drama queer

Já é sabido que a A24 mudou o patamar do terror, mas o que ela está fazendo com o cinema queer — vide ‘Moonlight’ e ‘Love Lies Bleeding’ — é uma revolução de nuances. ‘Pillion’ A24 se beneficia dessa liberdade editorial. Com um orçamento modesto de US$ 1 milhão, o filme já provou sua força ao arrecadar US$ 1,5 milhão no Reino Unido antes mesmo da estreia americana, provando que o público busca histórias que fujam do binário ‘saída do armário vs. tragédia’.

Veredito: Uma lição de desaprendizado

Assistir a ‘Pillion’ é um exercício de confrontar preconceitos. O filme nos obriga a questionar o que define um relacionamento saudável. Se o final da projeção deixa um gosto de satisfação, é porque Harry Lighton conseguiu o impossível: filmar a submissão como um ato de extrema liberdade. É, sem dúvida, um dos títulos mais essenciais e maduros do ano, reafirmando que a maturidade no cinema não vem da censura, mas da profundidade do olhar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Pillion’ A24

‘Pillion’ é baseado em um livro?

Sim, o filme é uma adaptação do aclamado romance ‘Box Hill’, escrito por Adam Mars-Jones e publicado em 2020, que explora a subcultura de motociclistas gays na Inglaterra dos anos 70.

Quem está no elenco de ‘Pillion’?

O filme é estrelado por Harry Melling (‘O Pálido Olho Azul’, ‘Harry Potter’) como Colin e Alexander Skarsgård (‘The Northman’, ‘Succession’) como Ray.

Qual a classificação indicativa de ‘Pillion’?

Devido ao conteúdo sexual explícito e temas de BDSM, o filme tem classificação indicativa para maiores de 18 anos no Brasil (NC-17 ou R nos EUA).

Onde assistir ao filme ‘Pillion’ da A24?

O filme iniciou seu circuito em festivais e cinemas selecionados. No Brasil, a distribuição deve seguir o padrão da A24, chegando possivelmente via plataformas de streaming como MUBI ou Prime Video após a janela dos cinemas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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